A luta nossa de cada dia – e o cansaço que os retrocessos nos trazem

Por: Jéssica Ipólito*

Mês passado eu pensei em desistir. Pensei em deixar tudo de lado, parar de militar… Voltar a levar minha vida como fazia antes do feminismo aparecer  e eu me identificar com essa luta. Eu, por um momento, achei que daria pra voltar a fita da minha vida e dar stop em 2010 e continuar dali em diante. Mas não dá.

Pensei.

Na verdade, eu surtei.

Há dias em que tudo fica muito denso, muito esquizofrênico, sabe?

Eu, com 21 anos, militante há quase 2 (só isso), surtei.

Foi um daqueles momento de muito choro e dor.

Era uma dor que não dava pra alguém de fora perceber porque só se sentia dentro de mim.

Eu tinha tido as últimas semanas bem carregadas, repletas de episódios péssimos: uma companheira vítima de estupro, grávida. Um corre-corre atrás de ajuda para ela conseguir o aborto.

A negligência de um hospital que deveria dar suporte e oferecer condições mínimas. Presenciei uma menina de pouco mais de 12 anos com outra criança no colo (sua filha); a falta de respeito dos profissionais da saúde para com uma mulher violentada.

O Deputado autor do Estatuto do Nascituro querendo fala num seminário sobre legalização e despenalização do aborto.

O Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Legalização do aborto e todas as estatísticas que chegaram com ele.

Fora os meus problemas pessoais, que nessa altura do campeonato eu sequer olhava pra eles, mas eles continuavam lá, à minha espera. Eu estava dormindo só quatro horas e meia por noite.

Teve um dia que meu corpo não conseguiu mais responder aos meus passos longos e rápidos, aos meus gritos, aos meus gestos.

Estafa, disse a minha psicóloga.

Foto: Jéssica Ipólito.

Foto: Jéssica Ipólito.

Numa sexta-feira  fatídica, eu voltei pra casa chorando muito. Desesperadamente, sem pausas..

Ao chegar no meu quarto, desabei.

Fiquei horas ali sentindo aquela dor da impotência me consumindo e pensando no que foi que a gente tinha deixado de fazer para que as coisas não tivessem dado certo…

Fiquei buscando explicação para os números estarrecedores de feminicídios.

Fiquei buscando entender o que faltava, porque já havíamos levado muito mais de mil mulheres às ruas e as autoridades não davam a mínima.

Fiquei buscando, incansavelmente, enquanto chorava, o porquê de sermos condenadas de maneiras tão brutais.

Fiquei horas ali.

Sozinha.

Não consegui ligar pra alguma amiga.

Não consegui escrever pra alguém.

Não consegui pedir socorro.

Era uma espécie de luto muito forte, onde eu queria ter ido junto.

Queria que alguma força potente do universo simplesmente me tirasse a vida porque eu mesma não conseguiria de tão cansada que estava.

Nunca tinha passado por isso antes, no entanto, esse sentimento de querer “não existir mais” de nada adiantaria.

Eu seria uma a menos na luta quando precisamos de uma A MAIS.

Sempre mais, nunca menos.

Foto: Jéssica Ipólito.

Foto: Jéssica Ipólito.

Duas amigas que haviam saído da minha casa chegaram.

Me ajudaram. Me apoiaram com palavras de aconchego e carinho.

Eu consegui ficar bem depois de um tempo. O choro parou e a dor foi diminuindo aos poucos.

Dormi 12 horas seguidas aquele dia.

Muitas são as vezes em que tudo parece não dar resultado.

Muitas são as vezes que nos calam, que nos ignoram.

Mas esse dia foi um marco para mim, porque entendi que era isso mesmo que o patriarcado&CIA queria de mim: que eu desaparecesse. Sumisse.

Toda vez que vamos às ruas em denúncia, toda vez que vamos à câmara para barrar um projeto de lei segregacionista, toda vez que enfrentamos o machistinha escroto que aparece nos comentários do Facebook, toda vez que mandamos à merda o cara que nos chamou de “gostosa” na rua, toda vez que negamos a submissão; todas estas vezes que nos manifestamos é uma boa energia do nosso corpo e mente que vai embora em prol de uma causa.

E todas as vezes que nós vencemos estas batalhas, o patriarcado se enfurece e traz mais uma tropa de opressões carregada de misoginia para nos atacar.

Querem nos cansar. Querem que levantemos a bandeira branca simbolizando que nos rendemos.

E são nestes momentos que o perigo ronda porque a carga é tão pesada e a necessidade de mudança é tão urgente, que esses sentimentos de “fracasso” ficam exacerbados e podem tomar conta de nós.

Mas nenhuma luta foi em vão. Desde às bruxas queimadas até nossas companheiras que resistiram à ditadura militar e estão em luta até hoje.

Foto: Jéssica Ipólito.

Foto: Jéssica Ipólito.

Nenhuma luta foi errada, por mais que não tenha atingido os objetivos desejados ou esperados daquele momento, nada foi em vão.

E é nisso que precisamos nos apegar.

Uma vez que nossos olhos e mentes ficam treinados para detectar opressão e nos tornamos então, detectores de machismos [ad infinitum] ambulante, não dá para voltar atrás.

Não dá para fingir que não entendemos de todo o controle que cerca nossos corpos, nossas vidas, nossas atitudes.

Não dá para fingir que não é com a gente.

É com a gente sim!

Quando uma mulher morre vítima de violência doméstica, é com a gente.

Quando uma mulher morre vítima de transfobia na rua, é com a gente.

Quando uma mulher morre vítima de lesbofobia na rua ou dentro de casa, é com a gente.

Quando uma mulher morre vítima de aborto inseguro, é com a gente.

Quando uma mulher morre vítima da exploração sexual, é com a gente.

Não conseguimos fechar os olhos para toda essa gama de opressão que nos sufoca diariamente.
É nessa tentativa que mora a perversão patriarcal: o ato de querer a nossa morte em luta.

Hoje, depois desse episódio que eu contei acima, entendi que é só mais uma estratégia para nos derrubar, para tirar todas as mulheres da luta.

Hoje, eu percebi que é assim que acontece e é assim que vai acontecer até destruirmos as opressões, e por isso eu preciso me blindar.

De que forma?

Minhas companheiras.

Pedir ajuda quando sentir que tudo parece cair por terra.

Pedir ajuda quando me sentir impotente.

Pedir ajuda para continuar.

Permanecer ao lado delas.

Sinalizar e deixar bem claro que estarei ao lado sempre, independente do momento, se bom ou ruim.


Estar disponível para outra companheira.

Sem o apoio mútuo, uma para com a outra, o patriarcado pode nos dominar.

Nunca podemos esquecer que a opressão é coletiva e que não vamos conseguir vencer essa guerra e sobreviver, se não for de forma coletiva.

Foto: Jéssica Ipólito.

Foto: Jéssica Ipólito.

* Jéssica Ipólito é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

Comments

  1. Linda.

  2. Nossa, adoro tudo que eu leio aqui neste site… Me ajudam e ensinam tanto… Quando li você dizendo que precisamos de mais e nunca menos na luta. Eu queria gritar: “Ei, eu estou aqui… quero lutar também…” Moro em Brasília e tenho sentido dificuldade em encontrar um canal para estar entre as minhas pares e fazer parte da luta. Tenho feito o que posso, abrindo discussões e debates sobre o patriarcado onde eu trabalho (sou professora), mas muitas vezes, eu sinto falta de um coletivo, para partilhar e buscar vivências que tornem este meu pretenso e incipiente feminismo parte do ativismo. Será que vocês poderiam me indicar alguém ou algum grupo feminista em Brasília que eu pudesse procurar neste sentido?
    Gratidão pela atenção!
    Giza.

  3. Ai Jess, também vem acontecendo tanta coisa por aqui, tanta perseguição do patriarcado, que por esses dias tive esse mesmo cansaço, essa mesma vontade de desistir.
    O amor e apoio das companheiras de luta foram/vem sendo o incentivo pra continuar e seu texto também me trouxe mais dessa força pra resistir.

    Obrigada sua maravilhosa, beijas.

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