Nossa luta é todo dia, contra o machismo e a homofobia

Por: Carol Radd

Sábado pela manhã li o desabafo de uma companheira que foi assediada em um transporte coletivo no Rio de Janeiro. Logo depois, recebi a notícia de que houve uma tentativa de estupro dentro de um ônibus urbano na Universidade Federal de Juiz de Fora. Segundo o site Acessa.com:

“De acordo com informações da Polícia Militar (PM), o suspeito abriu a calça e tirou o órgão genital para fora, passando a esfregar o membro em uma jovem de 19 anos, aluna do curso de Serviço Social. O ato foi presenciado por duas testemunhas. Muito constrangida e chorosa, a vítima alegou aos policiais que comunicou o fato ao motorista e cobrador da linha, que pararam nas imediações da faculdade de Direito da UFJF e acionaram a segurança do campus, que deteve o suspeito até a chegada da PM, que deu voz de prisão em flagrante.”

Durante a semana ouriçavam discussões pela internet sobre um blog misógino que propaga a violência contra a mulher estimulando estupros corretivos contra lésbicas (me recuso a colocar o link aqui). No início do mês, em alta, dividindo opiniões, estavam os comentários sobre um vídeo íntimo de uma jovem com seu parceiro que foi divulgado no Whatsapp (mais sobre o caso).

O que esses fatos têm em comum? São frutos de uma sociedade machista, misógina, heteronormativa, determinada por uma cultura do estupro. Todos os dias, em vários locais do mundo, a todo o momento mulheres são submetidas a algum tipo de violência, seja física, moral ou psicológica.

Assim como eu, diversas pessoas devem estar perguntando, até quando? Até quando, nós mulheres andaremos nas ruas com medo do assédio, da cantada, da violência que nos atinge simplesmente pelo fato de sermos mulheres? Até quando o corpo da mulher será visto como um pedaço de carne, pendurado em um açougue pronto para ser consumido? Até quanto o corpo feminino será visto como um território livre onde qualquer um poda se sentir no direito de invadir e usufruir dele sem pedir permissão? Até quando a publicidade e a moda tratarão as mulheres como produtos prontos para o consumo? Até quando as mulheres terão que “conviver” com essa cultura do estupro e aceitar as diversas formas de assédios nos espaços públicos caladas, pois, ao responder, são agredidas verbalmente, sendo chamadas de “putas”, “vadias” e mais um monte de coisas, simplesmente por tentar marcar seu espaço defendendo a autonomia sobre seu corpo e sua sexualidade, invertendo a lógica de poder estabelecida pela sociedade patriarcal?

Intervenção urbana da Marcha Mundial das Mulheres sobre o caso da banda New Hit.

Intervenção urbana da Marcha Mundial das Mulheres sobre o caso da banda New Hit.

Por muito tempo o espaço público era exclusivamente um campo de atuação masculina, onde as mulheres não desfrutavam dos mesmos direitos que os homens e, por isso, foram desprovidas de certos privilégios, tendo suas vidas condicionadas à vida doméstica e aos cuidados da família, o que acredita-se ser determinante na definição dos estereótipos de cada gênero e nos papéis feminino e masculino. Mesmo após da emancipação feminina, as mulheres esbarram com diversos obstáculos quando se trata de ocupação do espaço público.

A cultura do estupro é uma forma de dizer, mesmo que inconscientemente, que a mulher é algo público e disponível, que se ela está por aí, “vagando”, “sem dono”, qualquer homem tem o poder sobre ela, que por sua vez deve se sentir satisfeita por isso, pois ela cumpriu com o seu papel feminino de ser quista por alguém, a la comentário do engraçadíssimo Rafinha Bastos (só que não!!!!) ao dizer que mulher feia tinha que agradecer se fosse estuprada, ou algo parecido com isso.

Cultura do estupro é culpabilizar a vitima por estar na rua no horário errado, na hora errada com a roupa errada, justificando, ou pelo menos tentando de alguma maneira, jogar a culpa para a vítima pelo fato de uma cara idiota e babaca ter achado que tinha direito de fazer sexo com ela sem que ela quisesse. Cultura do estupro é achar que pode mexer com uma mulher na rua, chamá-la de gostosa e mais sei lá o que e achar que ela tem que ficar satisfeita e devolver um sorriso e um muito obrigada por ter recebido um suposto elogio. Cultura do estupro é achar que uma mulher precisa de um homem para ser completa e que necessita de um homem para si satisfazer sexualmente, caso a escolha dela não seja essa entrará para o grupo das mal-amadas, mal-comidas, barangas, frustradas e que precisam de um pênis para se corrigirem.

Enfim, esses são só alguns exemplos de coisas que acontecem todos os dias com milhões de mulheres e são reproduzidas como naturais e corriqueiras, mas que são apenas mais uma forma de reforçar a desigualdade de gênero presente na sociedade patriarcal e conservadora (para entender melhor a cultura do estupro).

No Brasil, a cada 12 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em cinco anos, os registros de estupro no País aumentaram em 168%. O Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher afirmou que uma a cada três mulheres sofrerão algum tipo de violência sexual, moral ou física durante sua vida. O Brasil está em 7º lugar no mundo no ranking de violência contra a mulher. Uma pesquisa sobre cantadas que circulou há pouco tempo na rede afirmou que 99,6% das entrevistadas disseram já ter sido assediadas.  No transporte público as “encoxadas” e as “mãos bobas” são bastante comum, e em geral acontecem quando os transportes estão lotados, o que contribui para que a pessoa que cometeu o ato fique anônima.

Nesse sentido, algumas cidades, como Rio de Janeiro possuem vagões no metrô específicos para mulheres. A Câmara Municipal de São Paulo tenta aprovar o Projeto de Lei 138/2011, que institui a obrigatoriedade da reserva de 50% da frota de ônibus da cidade para as mulheres em horários determinados (saiba mais). No entanto, nós feministas entendemos que esse tipo de segregação só reforça as desigualdades de gênero, pois não impede que a violência que as mulheres sofrem cotidianamente nos espaços públicos continue acontecendo. Esses projetos de lei contribuem com a cultura do estupro, culpabilizando a vítima pela violência sofrida e dizendo que é ela quem está errada e não deveria estar ali. (leitura sugerida para entender melhor porque as feministas não concordam com o vagão rosa).

Queremos políticas de inclusão, as quais permitam que nós mulheres tenhamos direito à cidade e autonomia sobre nosso corpo, nossa sexualidade e nossa vida, sem restrições. Não queremos mais regras sobre como devemos agir e nos comportar. Queremos políticas públicas que se comprometam com a erradicação da violência contra a mulher, contra o machismo, o assédio, a cultura do estupro e culpabilização da vítima, e que garantam direitos iguais de ocupação do espaço público.

*Carol Radd é militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres e mestranda em sociologia na UFF (RJ).

Comments

  1. Adorei seu texto! 😀

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