O machismo na esquerda

Por Wilma dos Reis*


Não é novidade que na política as mulheres sempre participaram de forma restrita. O machismo não é nato, mas sim construído socialmente. Sua desconstrução não é fácil, mesmo na esquerda socialista, onde deveria acontecer mais facilmente, já que é um espaço onde debatemos e combatemos as diversas formas de opressões.

Temos vários fatores que contribuem de forma pontual e quase invisível para esta baixa participação. A dupla jornada de trabalho é um dos principais fatores, alicerce do patriarcado: espaço público, masculino; espaço privado, feminino.

As mulheres fazem um esforço sobre-humano para estarem nestes espaços públicos e da política, mesmo que muitas vezes estes continuem parecendo tão inacessíveis. Mesmo com a nossa auto-organização, as mulheres não conseguem evitar as diversas formas de opressões, que, como já dito, são quase invisíveis, tanto para os companheiros, mais ainda para elas.

Os constrangimentos nos excluem gradativamente dos diversos espaços. Vários são os motivos, como por exemplo: as falas das mulheres são muitas vezes interrompidas ou ainda, quando elas sugerem alguma ideia e um companheiro complementa e este fica como protagonista da referida. Isto quando são ouvidas, pois com frequência suas colocações são ignoradas. Assim como as pesadas críticas as que ousam falar ao microfone, tem-se a indicação, na sua maioria esmagadora, de homens para tratarem das questões políticas, ficando as mulheres com a parte operacional.

 

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Outro fator bastante agravador é o não reconhecimento, pelo homem, de sua condição enquanto opressor e a falta de sensibilidade e solidariedade na desconstrução do machismo, o que gera muitos conflitos na construção deste debate e uma forte resistência masculina e, em alguns casos, feminina.

Não existe um esforço, por parte dos companheiros, com o processo de desnaturalização e fortalecimento da inserção das mulheres na politica. Isto é nítido, mesmo depois da aprovação e as tentativas de implementação das cotas e paridade nos partidos, sindicatos, centrais, movimentos sociais e populares, dentre outros. Presenciamos constantemente o seu descumprimento nos espaços. É muito comum, as composições das mesas debates serem majoritariamente masculinas. Quando contestamos somos “cri cri” e argumentam que estamos querendo “os espaços deles”.

Lutamos e exigimos aquilo que nos foi negado por milênios, autonomia nas nossas escolhas e vidas, e para alcança-la de forma plena é necessária a garantia integral da participação da mulher nos espaços de poder e decisão. Nossa luta é diária e é de todas e todos, principalmente nos espaços onde há o combate constante de opressões. Presume-se que se um companheiro é socialista, ele está em constante transformação individual. O exercício de desconstrução do machismo deve ser diário, ou seja, é necessária a autocritica.

Sem Feminismo não há Socialismo!

Sem Socialismo não há Feminismo!


*Wilma dos Reis é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Distrito Federal.

Comments

  1. Muito bom o texto. Uma análise importante para militantes de esquerda, onde o machismo é presente, mas muitas vezes camuflado. No entanto, penso que mesmo quando atingirmos nosso objetivo enquanto classe que é a derrubada do capitalismo e a instaturação do socialismo, teremos que continuar o combate contra o machismo. O machismo extrapola a esfera econômica e é uma construção social milenar, um símbolo da sociedade patriarcal.
    Saudações classita e feminista!
    Raquel

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