Natureza x Cultura: a indústria de cosméticos e seu projeto civilizatório

Toda menina aprende desde muito jovem um repertório de classificações sobre seu próprio corpo que nos permite acessar a infinidade de promessas vendidas pelo mercado da beleza: se sua pele é seca, mista, oleosa, superseca, seca de dia e oleosa à noite; se o cabelo é ressecado, quebradiço, fraco, forte, volumoso, sem volume, liso, superliso, encaracolado, crespo (atenção: qualquer que seja ele, ele é problemático). Sabemos que não podemos usar o mesmo sabonete pro rosto e pro corpo, e todas nós sabemos da importância de usar sabonete íntimo, de tirar a maquiagem antes de dormir, de passar a maquiagem certa antes de sair: maquiagem pro dia, pra noite, pra sair, pra trabalhar, etc , etc…

Tem que passar corretivo pra corrigir as imperfeições. Tem que fazer limpeza de pele, tem que clarear a pele, clarear o cabelo, tirar as manchas, alisar o cabelo. Tem que se depilar: buço, axilas, virilha, pernas, braços, tudo. É “higiênico”. Tem que fazer. OK? Ir pela primeira vez ao salão de beleza é tornar-se mulher. É assim.

Entre 2006 e 2011, a venda de produtos de depilação aumentou em 299%, os produtos cosméticos em 281% no Brasil. O Brasil representa o terceiro maior mercado de cosméticos no mundo, atrás somente dos Estados Unidos e do Japão. Em 2012, o país movimentou US$42 bilhões em gastos no setor. É o primeiro mercado em perfumaria, segundo em produtos para cabelos.

cobaias

Nesta performance-protesto, Jacqueline Traide, de 24 anos, como uma cobaia humana, foi submetida a diversas práticas bastante comuns em laboratórios de testes de produtos em animais.

A indústria de cosméticos promete civilizar nossos corpos, peles, cabelos imperfeitos e selvagens. Civilizar culturalmente e politicamente nossos corpos para serem magros, o mais branco possível, para nossos cabelos serem lisos ou perfeitamente encaracolados, igual-às-atrizes-da-novela. Utilizam animais para testar suas maravilhas civilizatórias, estes animais que fazem parte, assim como nós mulheres, do reino da natureza e da selvageria. Os animais que não tem muito que escolher, são também usados pelo e para um projeto civilizador. Os cosméticos querem nos curar do mundo obscuro e medieval das espinhas-cravos, sobrancelhas-por-fazer. São a luz para as peles “escurecidas”, são a cura para os “cabelos rebeldes”. Os beagles garantem. É tudo de boa qualidade. É tudo bem moderno do jeito que sempre desejamos ser.

O que o feminismo tem a ver com isso? É ele (ou seja, nós juntas) que vai nos dizer que ser assim, do jeito que somos, já é uma resistência. Uma resistência diária que nos coloca ao lado da natureza selvagem (nós e os beagles), fortalecendo a luta por uma vida livre da indústria de cosméticos e sua salvação plastificadora e opressora. Uma industria que é movida pela produção de agressões aos nossos corpos, pelo ataque à nossa autoestima. Nos dizem todos os dias que: ”o que é nosso é feio” e “mal-tratado”. Sofrem os beagles, sofremos nós nas macas de tortura, branquinhas-branquinhas, que arrancam nossos pelos para sermos limpinhas. Pois bem, somos esse exército de mulheres sujas e selvagens vandalizando todos os dias contra o patrimônio civilizador dos cosméticos.

Não à domesticação dos nossos corpos!

Até que todas e todos sejamos livres.

(Inclusive os Beagles).


*Por coletivo Rosa dos Ventos, núcleo da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro

Comments

  1. Sou um homem, gosto de mulher e do ser humano, do jeito que é, mais magrinha, mais gordinha, mais branca, mais negra, cabelo liso ou encaracolado, alta ou baixa. Para mim o que vale de fato é a essência da pessoa e não única e exclusivamente sua forma física. Agora, higiene e bom senso deve ser natural de todos, homens e mulheres. Deixar de se depilar por exemplo, para “ser mais mulher e se firmar como tal”, desculpe-me, mas aí vocês estão querendo ser homens e não mulheres. Aí de outra forma se resolve isso. Viva as limpinhas e cheirosas!!!

    • Há mulheres que se sentem bem não estando depiladas.
      Há homens que se sentem bem estando depilados.
      Seu comentário foi bem sexista. Acredito que cada um tem o direito de escolha sobre os seus pelos. Como você se expressou ficou parecendo que ter pelos não é higiênico . “[…]vocês estão querendo ser homens e não mulheres.” Se partes do princípio que pelo é anti-higiênico e afirma que mulheres com pelos querem ser homens, então homens não são higiênicos, afinal, eles têm pelos.

    • Márcia Morais says:

      Vem cá, Tiago, só tenho uma dúvida: você se depila? Ou só a mulher precisa se depilar para ser ‘limpinha e cheirosa’?

    • Olha aqui amigão, vc não manda nessas paradas não e ninguem liga uma foda para o que vc acha sobre os pêlos. agora faça o favor de ir cagar regra sobre genero pra lá que eu já aguento gente estupida demais até na tv o dia todo. BEIJOS E BOA NOITE.

  2. Achei o texto sensacional, muito obrigada as minas que escreveram, eu precisava ler isso.

  3. Eu sofri isso de uma forma menos precoce do que com a maioria das mulheres. Aos 16 anos eu não cuidava do cabelo e muito menos o mantinha em perfeito estado, apenas limpo. Não usava maquiagem e nem me vestia “bem” como deveria. Fui bombardeada de exigências da padronização da beleza e digo que hoje fiquei dependente de cosméticos e viciada nisso. A única coisa que eu ainda mantenho é o meu estilo de roupa e não é que eu ande “mal vestida”, apenas uso a roupa que eu gosto sem opinião de ninguém.

  4. Continuo a espera do momento em que a causa animal seja tão relevante quanto a causa feminista. Todos somos iguais, enquanto houver diferenças haverão conflitos e sofrimento….

  5. Um bom inicio é procurar o nome das empresas de produtos de higiene que usam animais como cobaias… Quanto ao uso de cosméticos e coisas do tipo, acredito que é possível se utilizar determinados produtos sem se render totalmente à indústria milionária destes produtos.

  6. Eu nunca fui muito vaidosa, nunca liguei muito pra maquiagem, salto alto… Na verdade eu nem sei andar direito de salto. Sempre senti essa cobrança, inclusive da minha própria MÃE!! Sim, ela dizia que eu parecia “moleca”, pra eu me vestir melhor, pra eu ser mais vaidosa, isso e aquilo. Quer saber? Não ligo! Me sinto bem assim. Meninas, façam, vistam e sejam o que bem entenderem. Ninguém cobra dos homens que tipo de blusa/camiseta certa para se usar, ou o tênis que vai combinar com a calça jeans.

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