Regulamentar a comunicação pelo combate ao machismo no imaginário brasileiro

Por Bruna Rocha*

Nesta semana (entre os dias 13 e 20 de outubro), diversas entidades da sociedade civil brasileira convergem forças para o recolhimento de assinaturas do Projeto de Lei de iniciativa popular[1] por um novo Marco Regulatório das Comunicações em nosso país. A Semana Nacional pela Democratização da Comunicação é um momento oportuno para nós feministas debatermos a centralidade do tema em nossa disputa por uma sociedade sem sexismo, machismo e lesbofobia.

Os meios de comunicação detêm um grande poder em nossa sociedade: formar (ou deformar) a opinião pública. Historicamente vinculados a agrupamentos políticos conservadores, os meios de comunicação no Brasil – sobretudo os televisivos – operam, diariamente, na reprodução e fortalecimento da lógica do mercado financeiro. Neste sentido, todas as informações veiculadas por estas empresas são filtradas e, minuciosamente, selecionadas a partir dos valores do sistema dominante – cuja orientação ideológica se estrutura no machismo.

Os estereótipos sociais que mantêm as mulheres em posição de inferioridade são reforçados a cada segundo nas produções midiáticas. A publicidade talvez seja o ramo em que a objetificação de nossos corpos seja mais apelativa, sobretudo nas propagandas de cerveja (vide o emblemático caso da Devassa), no entanto, as produções internas dos meios de comunicação (telenovelas, reportagens, seriados) também reproduzem valores machistas, racistas e homofóbicos, cotidianamente.

Além de promover a mercantilização de nossos corpos, utilizando de forma leviana a imagem feminina em suas “superproduções”, a mídia brasileira também invisibiliza os movimentos de mulheres, subverte as pautas feministas, ridiculariza as militantes e reproduz a falácia de que nós mulheres já conseguimos alcançar um patamar de igualdade, sobretudo se referenciando na liberdade sexual.

Ofensiva contra a mercantilização do corpo e da vida das mulheres, campanha lançada pela MMM em 2004. Na foto, intervenção em outdoors na Av. Paulista, em SP. Fonte: CMI.

Ofensiva contra a mercantilização do corpo e da vida das mulheres, campanha lançada pela MMM em 2004. Na foto, intervenção em outdoors na Av. Paulista, em SP. Fonte: Centro de Mídia Independente.

A condição ainda precária de educação do povo brasileiro impossibilita que a maioria da população tenha uma leitura mais crítica acerca destes conteúdos martelados em nosso imaginário. As pessoas se acostumaram a ver personagens femininas construídas em torno de tramas emocionais, onde a principal temática está sempre relacionada às relações amorosas ou familiares, ou seja, onde as mulheres estão sempre situadas no espaço privado. Quando foi que tivemos uma personagem feminina, cuja construção fictícia girava em torno de sua carreira profissional ou intelectual? Na minha memória, não encontro nenhuma.

Ainda hoje, temos que conviver com programas televisivos que mostram dançarinas “enfeitando” o fundo do cenário (Gugu, Faustão), ou até mesmo outros onde as mulheres protagonizam cenas de profundo desrespeito e banalização da imagem, a exemplo do Pânico na Band. Esses são exemplos de produções veiculadas em rede nacional, pois a produção regional muitas vezes vai além de todos os limites tolerados até mesmo por quem não possui um olhar mais crítico.

Um caso marcante, monitorado e investigado pelo Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC) da Universidade Federal da Bahia, foi a cobertura desumana do caso New Hit por um programa da Rede Record chamado “Se Liga Bocão”. Na ocasião, o apresentador do programa (Zé Eduardo – Bocão) entrevistou as vítimas, que eram menores de idade, de forma invasiva e perversa. Durante os mais de sete minutos que duraram a cena de tortura psicológica, o “jornalista” insistiu para que as garotas contassem detalhe por detalhe do estupro coletivo pelo qual elas passaram.

Um novo Marco Regulatório das Comunicações deve prever mecanismos rígidos de fiscalização desse tipo de violência na mídia, com punições severas previstas no Código Penal. Além disso, é preciso dar vazão à multiculturalidade existente nas mais diversas regiões do país – fator que é completamente ofuscado pela centralização dos meios pelas seis famílias detentoras das concessões do país.

A Comunicação é um Direito inalienável de qualquer ser humano e precisa ser um espaço horizontal para as trocas culturais. Recolher assinaturas para o Projeto de Lei e promover o debate em torno da democratização dos meios de comunicação devem ser tarefas prioritárias para a luta feminista. A mídia que está colocada para nós é o principal entrave para a disputa ideológica através da qual será possível construir uma nova sociedade, livre do machismo que nos ridiculariza e violenta a cada ponto no ibope.

[1] O Projeto de Lei pelo Novo Marco Regulatório das Comunicações surgiu de uma iniciativa de diversos segmentos da sociedade civil que, reunidos no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), iniciaram a campanha “Para Expressar a Liberdade”, com o objetivo de recolher as mais de um milhão e trezentas mil assinaturas para levar o debate ao Congresso Nacional.

Para conhecer melhor o projeto e participar da campanha, acesse:
http://www.paraexpressaraliberdade.org.br

* Bruna Rocha é militante da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia.

Trackbacks

  1. […] Regulamentar a comunicação pelo combate ao machismo no imaginário brasileiro […]

  2. […] Artigo, originalmente, publicado em 16 de outubro de 2013: https://marchamulheres.wordpress.com/2013/10/16/regulamentar-a-comunicacao-pelo-combate-ao-machismo-n… […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: