Não é cantada, é agressão

chegadefiufiu

Por: Talita São Thiago Tanscheit*

Recentemente, circulou uma pesquisa na internet, parte da campanha “Chega de Fiu Fiu”, sobre como as mulheres se sentem com cantadas de rua, em que 83% das mulheres entrevistadas disseram não gostar das “cantadas” que recebem. Este tema da abordagem da mulher pelo homem sempre me incomodou muito, enquanto mulher e enquanto feminista: o fato de o tempo todo, seja quando estamos indo à padaria, ao trabalho ou correndo no calçadão, nos incomodarmos e sermos “cantadas” por homens que se sentem no direito de te interpelar simplesmente porque você é mulher. Sinceramente, recuso a tratar estas abordagens como elogios ou como flertes, mas sim como violência, uma das diversas faces das violências que nós, mulheres, sofremos diariamente. Vai ver por me incomodar tanto, ontem me senti tão machucada com o que ocorreu comigo, desta vez, sentada em uma mesa de bar.

Estava em um bar, com amigas e amigos, tomando cerveja e conversando, como muitas pessoas normais fazem numa sexta-feira, no Rio de Janeiro. De repente, um indivíduo senta do meu lado e começa a me abordar, falando sobre as minhas características físicas (agressão número um) e sobre o que ele achava da minha beleza exterior, mas de uma maneira agressiva. Eu, surpresa, resolvi ignorar, e pedi para um amigo, que estava ao meu lado, pedir para ele sair, e o meu amigo, educadamente fez isso, de forma muito tranquila. O indivíduo não se retirou, e começou a entrar em um debate com o meu amigo sobre a União Soviética – pois é, nós somos desses – e de como o PT não soube ler Lênin, baboseiras desse tipo.

Quando eu fui interpelar, este mesmo indivíduo disse: – Dá licença que eu estou conversando com ele. Eu disse: – Mas eu só vou fazer um comentário sobre a conversa. Ele disse: – Mas você não tem capacidade para atingir o nível de diálogo que estamos tendo aqui, garota (agressão número dois). Eu ri, comentei sobre o nível de delicadeza desse indivíduo com outros amigos, resolvi não me estressar, e continuei sentada.

Logo depois, me levantei para pegar cerveja na mesa. Assim que me levantei – e desta vez não repetirei as falas desse indivíduo -, o ser começa a falar, de maneira extremamente ofensiva, sobre o meu corpo (agressão número 3). O meu amigo, educadamente, pede para ele parar, que não está entendendo o que ele está fazendo. O ser fica incessantemente repetindo as frases mais nojentas sobre a minha pessoa, e o seu amigo que o acompanhava ficava rindo atrás dele.

Eu levantei uma vez, elevei a voz, pedi para ele ir embora, mas estava muito nervosa e acabei ficando sem reação. Quando as minhas amigas e amigos que estavam no bar perceberam o que estavam acontecendo, obviamente foram para cima deles, novamente de maneira muito educada, falando a verdade: que aquele indivíduo é um machista, imbecil, que não sabe onde está, e para quem estava falando essas coisas. Que é contra indivíduos com esta mentalidade que nós lutamos. Por sorte, estava com companheiras e companheiros tão solidári@s, que ajudam a amenizar a dor da violência. Enfim, não quero aqui fazer uma terapia de grupo, mas experiências pessoais são importantes para entendermos a dimensão de como a violência contra a mulher não é um acontecimento raro, mas já é parte do nosso cotidiano.

"A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito", MMM Foto: Cintia Barenho.

“A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito”, MMM Foto: Cintia Barenho.

O que eu vivi nesta sexta-feira, milhões de mulheres vivem em diferentes escalas, a todo o momento. O nosso modelo educacional, componente estruturante do nosso sistema social, ensina que nós, mulheres, não somos seres humanos, mas mercadorias ou objetos, e que por isso os homens, seres humanos, tem o direito a se apropriar das nossas vidas e dos nossos corpos, e agirem como bem entenderem sobre nós. Como mercadorias, as nossas ações deveriam corresponder aos seus mandamentos, como o indivíduo da sexta-feira esperava.

Quando nós não correspondemos e nos apropriamos dos espaços que são tradicionalmente deles, eles se sentem no dever de nos violentar, para que nós entendamos o nosso lugar (ou papel) no mundo. Então a violência não é uma discussão comportamental, justificável pela maneira como nos vestimos ou nos comportamos, sobre as nossas opções sexuais ou profissionais, é contra a nossa existência: se nós não nos reduzimos a servir ao homem, mas a ser tudo menos isso, estamos afrontando o sistema político capitalista e patriarcal tão bem estruturado e, por isso, a forma como vivemos deve ser combatida, justificando qualquer caso de violência sobre nossas vidas, seja física ou simbólica, ambas deixando profundas marcas em nossos corpos, em nossos sentimentos e em nossas vidas.

O assédio, a cantada, o estupro e o feminicídio, todos eles se justificam pela mesma relação de poder estabelecida em nossa sociedade, em que, assim como o capital é restrito a poucos, o direito à vida e à cidadania também é privilégio apenas de um seleto grupo. O feminismo vem exatamente para desnaturalizar o naturalizado e estabelecido. Para dizer que um outro mundo, em que mulheres sejam verdadeiramente humanas, é possível, e está sendo construído, ainda que lentamente. Para ensinar aos homens a não serem machistas e violentos, e não às mulheres a se prevenirem do estupro. Para que os nossos corpos sejam nossos, e nós possamos viver a nossa sexualidade como bem entendemos. Em tempos de tantas guerras, o feminismo é mais do que nunca necessário.

Na mesma pesquisa em que 83% das mulheres disseram se sentir incomodadas com as supostas cantadas, 99,6% disseram já ter sido assediadas. A maioria delas se calaram por medo. Não, a culpa nunca é da mulher e nós, feministas, lutaremos sempre para que a cada dia menos mulheres se calem, para que possamos, definitivamente, nos apropriar do que é nosso. Não é apenas por um direito, é pela vida. É pela vida das mulheres.

Talita São Thiago Tanscheit é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro e mestranda em Ciência Política no IESP-UERJ.

Comments

  1. Concordo plenamente.
    No meu espaço dou meus pitacos sobre isso também…
    http://olixarcsociety.wordpress.com/2013/09/20/nao-e-pelo-linda/

  2. Maria de Lourdes says:

    “Então a violência não é uma discussão comportamental, justificável pela maneira como nos vestimos ou nos comportamos, sobre as nossas opções sexuais ou profissionais,(…)”

    É por isso que a luta não vai pra frente e fica contraditória.Não tem como querermos que os homens nos vejam como seres-humanos se alegamos que nos vestirmos como objetos sexuais é um direito;se tem feminista que defende a máxima exploração sexual da mulher ( prostituição) como “profissão”.Não tem como queremos igualdade se nós colaboramos coma mentalidade que nos reduz á pedaços de carne.Não sei porque é tão difícil enxergarem isso.Não sei porque insistem num vitimismo exarcebado,sendo que tantas de nós colaboram com esse sistema e o defendem ( vi no Facebook mulheres dizendo que gostam de levar as tais cantadas).

    Vamos continuar assim…

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