Violência silenciosa

Por: Iolanda Toshie Ide*

Sonho de menina pobre fora acalentado depois que a professora lhe dissera que era muito inteligente, deveria se esforçar para fazer curso superior. Menina-mulher não carece de escola, declarara autoritariamente o pai.  Compensou a mágoa, a grata lembrança da professora. Fora a mãe, até então, ninguém tinha se importado com ela, menina pobre, acanhada, sempre vestida com roupas fora de moda. Migrou para a zona urbana, fez vestibular, ingressou.

Cada vez mais acumulavam-se as dificuldades para pagar as mensalidades da faculdade, a despeito de tantas faxinas que realizava todos os dias. Assopraram-lhe nos ouvidos que o diretor tinha meios de dispensá-la do pagamento. Bastava atender alguns executivos numa chácara, o “banho de loja” seria por conta do diretor.

Inexperiente, mas não tão ingênua, recusou. Apresentou-se numa ótica, onde fazia faxina, para tentar um emprego como balconista cujo salário seria suficiente para pagar as mensalidades. Foi aceita e convidada para um curso na capital, antes de iniciar o novo trabalho. Hotel luxuoso, banho de loja incluso no “curso gratuito”…

Conheci-a no banco, tentando, em vão, um empréstimo para saldar as mensalidades. Abruptamente deixara o novo emprego, e convenceu-se de que menina pobre não pode cursar faculdade. Assediada sexualmente pelo futuro chefe, desistira do emprego.

MMM na ação Paralisa Geral, 2013. Foto: Bruna Provazi.

MMM no Paralisa Geral, 2013. Foto: Bruna Provazi.

Forma de agressão psíquica, praticada nas relações de trabalho, para obter favores sexuais, o assédio sexual pode desencadear sérios distúrbios psicológicos, além de lesar a pessoa no seu direito de trabalhar em ambiente saudável.

Na época, ainda não era considerado crime. O projeto da deputada Iara Bernardi tornou-se lei, de modo que o assediador sexual está sujeito a penalidades. De difícil comprovação, já que geralmente ocorre, aos olhares alheios, disfarçadamente, é uma forma sórdida de violência silenciosa que causa muito constrangimento à vítima.

A despeito das dificuldades de comprovação e também da negativa da Juíza de 1º Grau, em 2012, o desembargador Sebastião Geraldo de Oliveira (3ª Região do Tribunal Regional do Trabalho/MG), condenou um assediador a pagar 6 mil reais a uma funcionária por ele assediada, numa drogaria.

Embora frequente e resultando em sérios danos (principalmente psicológicos) às pessoas assediadas, a legislação quase não se aplica. É preciso que, tanto as assediadas sejam incentivadas a denunciar, como operadores do direito atentem para a legislação referente essa forma enrustida e silenciosa de violência contra mulheres.

Iolanda Toshie Ide é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Lins (SP).

Comments

  1. fabycastro.costa@gmail.com says:

    Precisamos nos fortalecermos, para protestar esses abusos que parecem nem existir.

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