Escuta

A elegante engenheira chegou ao escritório cabisbaixa, óculos escuros, furtando-se ao encontro com colegas. Permaneceu quieta, mostrando-se muito atarefada, mas sem conseguir desenvolver qualquer trabalho. A colega, amiga mais próxima, resolveu quebrar o gelo: vamos, desembucha, que aconteceu? As lágrimas escoaram abundantes, a revelação foi uma das centenas de milhares que atormentam mulheres no Brasil, no mundo: fora espancada pelo marido.

Só em 2012, a Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, recebeu mais de 88 mil ligações denunciando várias modalidades de violência contra mulheres praticadas, em 89% dos casos, por maridos, namorados, companheiros, ex-maridos e ex-namorado, em qualquer classe social.

Criado em 2005 pela Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, para atender a denúncias e solicitações de orientação, o Disque 180 já recebeu mais de 700 mil telefonemas. No ano seguinte, a Lei Maria da Penha veio coroar as gestões das mulheres em busca da superação da violência contra mulheres. No entanto, casos como o da engenheira citada continuam ocorrendo.

Para enfrentar o desafio, a Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres prontificou-se a celebrar, com os Estados da Federação, o Pacto de Enfrentamento à Violência contra Mulheres. Só depois de muita pressão dos movimentos de mulheres é que o Estado de São Paulo, o último, assinou o pacto. Parece que o governo estadual prefere esperar pelo pior: que as mulheres sejam assassinadas para deixar à polícia e ao judiciário o julgamento dos assassinos.

psdb

Não é de se estranhar que haja muitos casos de depressão entre mulheres. A violência de que são alvo centenas delas, afeta-as profundamente, sobretudo porque faltam centros adequados para atendimento a esta forma patriarcal de violência. A própria Lei Maria da Penha é ainda muito pouco aplicada. Se as chamadas medidas protetivas fossem determinadas, muita violência, inclusive assassinato, poderia ser evitada. No entanto, operadores da justiça ainda não as aplicam.

Com frequência nos deparamos com atos de violência praticados por crianças. Assistindo diariamente a própria mãe sendo agredida pelo pai, a criança responde com violência. Vítima de uma constelação familiar violenta, ela não pode ser punida como querem os que defendem que a idade de responsabilidade penal seja diminuída. É preciso eliminar a violência que ocorre dentro da família, a chamada célula mater da sociedade. Pode-se multiplicar e sofisticar as agências de segurança, mas nunca será suficiente. A violência contra a mulher desencadeia a violência em todo tecido social.

A escuta pode encaminhar a solução. Não nos julguemos umas às outras, sejamos solidárias.

* Iolanda Toshie Ide é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Lins.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: