Não é só um almoço de domingo

Por Talita São Thiago Tanscheit*

Estamos, definitivamente, precisando de mudanças de hábitos. E não digo de mudanças de hábitos como o velho “dê bom dia para o porteiro”, “ajude uma velhinha a atravessar a rua”, “agradeça quando te fizerem um favor”, não considero isso um hábito, mas um pré-requisito, algo já estabelecido e que, assim como a ética, deveria estar há milênios entranhado nos seres humanos. Quando falo sobre hábitos, falo dos mais profundos, e que naturalizamos, assim como naturalizamos tantas injustiças e aberrações em nossa sociedade. Eu, como uma boa feminista, não deixo de estar atenta para a naturalização de hábitos machistas dentro dos espaços públicos e privados do nosso cotidiano. Para exemplificar, vamos lá: lembrem-se de um almoço de domingo em família.

Todos comem, bebem, se divertem, conversam, ouvem uma música, mostram as fotos de sua última viagem. E a louça, como fica? A mulher, obviamente, cozinhou toda a comida. O homem, quando cozinha (raramente), faz como se tivesse sido um grande favor prestado, uma obra de arte, como se tivesse sido o criador da Capela Sistina. Os homens mais “solidários”, vão a cozinha, lavam o seu prato, seu garfo, sua colher, sua faca e o seu copo, e isso surge como se fosse o gol da vitória do campeonato brasileiro. Claro, existem alguns homens que lavam, ajudam, se importam, mas convenhamos, estes estão são uma minoria-ia, né?

O almoço vai terminando, aquela pilha de louças vai para a pia e, prontamente, todas as mulheres da família vão se revesando, tanto para recolher quanto para lavar e secar toda esta louça. Algumas sugerem que os homens as ajudem, e eles ficam quietos, em geral fingindo que não estão ouvindo. Se alguma outra tenta ser mais incisiva, é logo tirada para “revolucionária” (como se isso fosse algo ruim), e é obrigada a ouvir frases como “você diz que eu não lavo a louça, mas quem troca a luz quando ela queima?”. E pronto, vão se passando almoços, domingos após domingos, anos após anos, e as mulheres continuam, de maneira emblemática, na cozinha, enquanto os homem continuam, como de costume, na sala.

Veja bem, eu não estou me referindo, especificamente, a minha família, ou dizendo que os almoços de domingo não são felizes, mas sim a uma grande marca da desigualdade de sexos em nossa sociedade. A mulher, ainda que no mercado de trabalho, com direito a voto e tudo o mais (aquele pacote que muita gente repete para dizer que o feminismo foi superado), permanece sendo, por excelência, responsável pelos serviços domésticos, encarando a dupla jornada de trabalho e tudo o mais. Um almoço de domingo nos mostra, claramente, a Divisão Sexual do Trabalho tal como ela é. Enquanto as mulheres estão na cozinha fazendo a sua obrigação, afinal, a rotina doméstica é fácil, simples, não dá trabalho e não deve ser remunerada, os homens estão na sala ou no terraço, tomando uma cerveja e descansando, pois a sua semana de trabalho é muito mais estressante que a da mulher. E uma cena como estas não termina em almoços de domingo: lembre-se de jantares com amigos, daquele fim-de-semana na casa de praia ou no acampamento do fim-de-semana. Tudo sempre termina na boa e velha pizza machista que a cada dia está mais intragável para as mulheres, mas que permanece sendo comestível e deliciosa para o sexo masculino, até mesmo para os mais sensíveis.

Isso não é uma guerra, mas uma reflexão. A Divisão Sexual do Trabalho é estruturante para a sobrevivência do atual sistema capitalista, esta que diz existir trabalhos que são para homens e trabalhos que são para mulheres, que os espaços públicos (de prestígio) são dos homens e espaços privados (de invisibilidade), são das mulheres e que, em 99% dos casos, os trabalhos das mulheres são ou desvalorizados ou sem remuneração (considerados não-trabalhos). Compreender uma sociedade livre de verdade é compreender a necessidade de que as pessoas não sejam, de maneira alguma, divididas por sexo, cor ou orientação sexual, e que todos sejam efetivamente livres para ser e fazer o que bem desejarem. Por isso, reafirmo cotidianamente a importância do feminismo em nossas vidas e na agenda política do país. Não são só só por almoços de domingo, mas por um processo histórico de exploração e de opressão responsável não apenas por oprimir e definir (sem consultar) a vida das mulheres, mas por manter um sistema extremamente desigual e mercantilizado (onde as próprias mulheres são vistas como mercadoria, mas isso já seria pano para outra reflexão).

Na nova conjuntura brasileira, uma série de direitos vem sendo reivindicados, não apenas no que se refere a serviços públicos, mas também no que se refere ao exercício da representação. Clama-se por mais participação, mais inclusão política e mais forma de interferência e de construção conjuntura de políticas públicas entre Estado e Sociedade Civil. Nada fará sentido se estes processos não servirem para incluir, de fato, as mulheres na sociedade e na política do país, em uma “ideia radical de que as mulheres são gente”. Mudar hábitos, mais do que nunca, torna-se necessário, pedindo que olhemos simultaneamente para as nossas ações e para a nossa sociedade. Para que as mulheres não se restrinjam as cozinhas, aos bambolês das aulas de Educação Física ou as secretarias das grandes empresas. Para que um caso de juíza mulher deixe de ser exceção para virar tão natural quanto regra. Para que as ruas sejam nossas tanto de dia quanto à noite. Não haverá uma outra sociedade, ou um outro modelo se Estado, se o feminismo não estiver permeado na vida das pessoas, individualmente e coletivamente.

Não é apenas um almoço de domingo, é seguir acreditando e fazendo com que a mudança de hábitos gere costumes libertadores e que nos permitam, em um horizonte próximo, cessar a nossa sina de ser mulher, “uma eterna luta para ser livre”.

 Talita São Thiago Tanscheit é militante da MMM ou mestranda em Ciência Política no IESP-UERJ.

Comments

  1. Gostei muito da amplitude do teu texto, muito gostoso de ser lido. Um hábito terrível, que estou buscando tirar das entranhas é chamar as pessoas da casa para me “ajudarem”. Vivemos apenas eu, marido e filha de 4 anos. Ontem mesmo eu pedi p/ ela me “ajudar” a tirar a mesa e ela NÃO QUIS. Fez, é claro. Daí hoje já dividi: o que for de geladeira e fogão eu guardo, o que for de pia vc leva…não teve problema. Meu marido, que passa o dia com nossa filha pq é artista plástico e trabalha em casa, de vez em quando fala disso como se fosse me fizesse um favor! Tenho que lembrá-lo de que a filha é dele! O lance de que qualquer tarefa doméstica que não seja feita pela matriarca é um favor é um caso sério e precisa ser amplamente combatido…para que as outras conquistas possas acontecer.

  2. Cami - Caxias, RS says:

    Talita querida, adorei seu texto. Direto, com ótimos exemplos e que fala sobre a Divisão Sexual do Trabalho no cotidiano. Tamo juntas! Vou trabalhar em minhas aulas!

  3. Talita Tanscheit says:

    Meninas, obrigada pelos comentários.
    No fundo, é isso mesmo, construir o feminismo através do nosso cotidiano, coletivizando e desnaturalizando nossas experiências. Beijos saudosos!

  4. Uau! Texto muito bom!

    Interessante o que você comentou, que quando eles “ajudam”, como se tivessem feito o maior favorzão do mundo… é bem assim mesmo. Moro com meu namorado é assim que acontece. Terminamos de comer (geralmente fui eu quem cozinhei), aí pra ele acho que não ficar com peso na consciência, diz assim: “eu guardo, jogo as coisas no lixo e você lava”. Eu fico muito brava. Depois de um tempo comecei a usar essa mesma frase dele, e ele ria, tipo “me pegou”. Tem que sair umas brigas feias pra eles fazerem o MÍNIMO e parece que é um parto.
    Esse tipo de coisa vai mudar quando as mães criarem seus filhos homens como se não fossem eternos retardados de 4 anos.

    Beijos!

  5. Parabéns pelo texto! Retrata uma realidade ainda presente em nossas sociedades. Infelizmente. E, depois, ainda dizem que o feminismo já foi superado e não é mais necessário!? Quanta ignorância, hipocrisia, machismo ou, até mesmo, tudo isso junto!?

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