A luta pela liberdade é incontornável: feministas nas ruas pelo direito de escolha

Por: Alana Moraes, Ellen Mendonça, Ju Monteiro, Izabel Rodrigues, Tatiana Oliveira, Thathiana Gurgel e Paola Bettamio.*

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Ação da MMM-RJ no Ocupa Lapa.

Nós, mulheres e feministas, somos movidas diariamente pelo sentimento de liberdade. Foi o desejo de liberdade que nos forjou historicamente. Olha: ser livre não é fácil, não! Precisamos questionar e denunciar todos os dias as opressões silenciosas que movem a nossa sociedade. Quando uma mulher é a primeira a acordar e a última a dormir para ter que dar conta de todas as suas tarefas, quando uma mulher, ao sair na rua, precisa calcular qual o caminho mais seguro para que ela possa não ser estuprada, quando uma mulher precisa pensar, antes de se vestir, se sua roupa vai fazer com que as pessoas pensem coisas a respeito de seu caráter, quando uma mulher é obrigada a ser mãe, todas essas situações pretendem nos dizer que não podemos ser livres.

Muita gente por aí diz que o feminismo não faz mais sentido, porque homens e mulheres são “iguais”, possuem os mesmos direitos formais. Acontece que a liberdade não tem apenas a ver com direitos ou instituições formais, ainda que mesmo esses últimos sofram de desigualdades permanentes e visíveis, como o fato de homens ainda ganharem muito mais do que mulheres em todos os lugares do mundo, mesmo ocupando as mesmas posições.

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Nós mulheres temos que lidar, todos os dias, com instituições fortíssimas querendo dizer para nós o que devemos ser. O Estado pensa que temos que garantir a harmonia e a reprodução da família e do lar, e por isso explora nosso trabalho, nos domesticando para dar conta da saúde, educação e alimentação de uma família. As mulheres da Europa Central, que conviveram com o Estado de bem estar e que hoje vivem a crise desse modelo de Estado, estão sentindo na pele o que nós sempre sentimos. A igreja pensa que temos que ser mães, nos doar inteiramente para nossos maridos e filhos, e por isso pretende nos transformar em seres sem desejo, sem vontade. Depois é o mercado, finalmente, que quer nos convencer que precisamos ser lindas, magras, sensuais, atraentes, e que para isso precisamos comprar um monte de coisas.

E então o mercado nos “compra” e nos coloca para vender cerveja, carros, produtos masculinos. Imagine você o que é lutar contra o Estado, a Igreja e o Mercado, as três instituições mais fortes da nossa sociedade, pelo direito de ser livre. Imaginou? Isso é ser feminista.

É por isso que o feminismo só faz sentido se for radical, se for para as ruas e apostar nas ações diretas. Achamos importante as lutas institucionais (ainda que as instituições não sejam neutras, nós sabemos!), mas não vamos abrir mão da luta nas ruas, onde podemos olhar para as pessoas e contar sobre nosso incrível projeto de sermos livres. As ruas são pra dizer! E hoje queremos dizer: só existe democracia e igualdade quando nós conseguirmos ser livres.

Pensando nisso tudo, fizemos uma ação bem bonita no “Ocupa Lapa”, um movimento de ocupação artística das ruas que também ajudamos a construir. A organização havia apresentado inicialmente a proposta de juntar os artistas da cidade contra a violência policial empregada para reprimir a população durante manifestações de julho. Mas, obedecendo ao caráter plural e diverso dessas manifestações, a ação se transformou em um movimento horizontal e popular, composto por diversas vozes. Nós da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro optamos por fazer o debate sobre a legalização do aborto, em função da visita do papa ao Brasil.

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Sabe, não queremos convencer o Vaticano de que a legalização do aborto é muito importante para autonomia e para a vida das mulheres. Nós sabemos muito bem o que eles pensam sobre o que deve ser as nossas vidas. Mas queremos convencer as pessoas da rua que que a religião não tem nada a ver com as nossas vidas. Queremos dizer para as pessoas que no Uruguai, seis meses depois do direito ao aborto ser garantido pelo Estado, nenhuma mulher morreu mais fazendo um aborto inseguro. Queremos dizer que as mulheres escolhem interromper a gravidez independente do Estado, da Igreja, dos homens. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto feita pela UnB (2010), 88% das mulheres que já realizaram um aborto diz ter uma religião. Essas mulheres fazem isso por diversos motivos, mas acreditamos que todas elas querem dizer não à gravidez compulsória em curso, hoje, no Brasil.

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 Acontece que as mulheres que têm mais dinheiro podem questionar a gravidez compulsória e decidir sobre seus corpos em uma clínica boa, segura, e corre tudo bem. As mulheres que não tem muito dinheiro, em sua maioria negras e da periferia, precisam recorrer a formas mais baratas, e também mais inseguras. Todo mundo que passava na rua conhecia alguma mulher que já tinha feito um aborto. Todo mundo que passava na rua sabia que as mulheres vão continuar fazendo aborto. A criminalização não evita o aborto, apenas força as mulheres a realizá-lo clandestinamente.

Em nossa ação, fizemos algo diferente: além de colar nossos lambes, também entregamos giz, para que as pessoas pudessem escrever ao lado o que elas pensavam. Ficamos surpresas! Muitas crianças com suas mães e pais, jovens, trabalhadores e trabalhadoras, nos escreviam mensagens bem otimistas: “ liberdade!”, “ queremos escolher”. Fora todos os desenhos cheios de poesia.

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Meninas e Mulheres: não podemos desistir de estar nas ruas. Sempre! As ruas são as pessoas de verdade, sem instituições mediando, é a vida vivida e pensada. É na rua que podemos nos encontrar, conversar, convencer as pessoas de que nossas ideias são importante também para elas, aprender sobre a realidade de outras mulheres, estabelecer laços de solidariedade. Quando um policial nos perguntou o que estávamos querendo com aquilo tudo, respondemos : “Queremos ser livres, moço”.

E: Seguiremos em marcha!

Assinam esse texto todas aquelas que estiveram na ação:

Alana Moraes, Ellen Mendonça, Ju Monteiro, Izabel Rodrigues, Tatiana Oliveira, Thathiana Gurgel e Paola Bettamio, militantes da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro.

Comments

  1. adorei o texto meninas !!! Me senti repleta de liberdade, cheia de vontade de ir pra rua: “Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres” =)

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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