Ativismo feminista em redes digitais, parte 1: As nossas lutas, pelas nossas vozes

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Primeira oficina da equipe de comunicação do Encontro Internacional da MMM.

Por: Bruna Provazi*

A noite mais violenta dos protestos contra o aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem, em São Paulo (13/06), por acaso ou não, foi também a noite em que fizemos nossa primeira oficina “Ativismo feminista em redes digitais”. As oficinas são voltada para as militantes que compõem a equipe de comunicação colaborativa do 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, que acontece pela primeira vez no Brasil, em agosto.

Às 19 horas, horário previsto para o início da atividade, mal conseguíamos tirar os olhos e as cabeças da transmissão que rolava, ao vivo, do protesto. Indignadas, víamos a velha mídia narrar um suposto confronto provocado por “vândalos”, enquanto víamos claramente a PM montar sua tropa de choque na esquina da rua Maria Antônia com a Consolação, encurralando manifestantes e jornalistas debaixo de bombas de gás e balas de borracha. Nossas companheiras da Marcha, que participavam dos atos desde o começo, também estavam lá, levando borrachada naquele verdadeiro front de guerra montado pela polícia. Outras, não conseguiam chegar para a atividade. Tivemos que fechar o portal de transmissão online para, enfim, tentar prosseguir com a oficina, que, num exercício prático, já havia começado.

Pra iniciar o debate, apresentamos dados da pesquisa “Quem aparece nas notícias?” (¿”Quién figura en las Noticias?”), publicada em 2010, através do Projeto de Monitoramento Global dos Meios. De 2005 a 2010, foram analisados jornais de 108 países, e conclui-se que, segundo o atual ritmo de transformação, vai demorar 40 anos para que seja igualada a presença de mulheres e homens nos meios de comunicação. Vamos aos dados.


Quem aparece nas notícias?

Somente 24% das personagens que aparecem nos noticiários são mulheres.

Entre 2005 e 2010, a presença das mulheres cresceu, mas apenas em certos tipos de conteúdos jornalísticos, como nas ciências e na saúde (subiu de 22 para 32%), assuntos que representam uma porcentagem muito pequena no conjunto das notícias.

Em geral, 1/3 das notícias publicadas nos jornais são sobre política e governo. Nessas áreas, as mulheres são apenas 14% das fontes.

Até mesmo em áreas onde elas têm maior presença, como na educação, os homens são mais ouvidos na hora de escrever uma matéria: 70% dos professores entrevistados foram homens.

Da mesma forma, eles foram maioria dos entrevistados na saúde (69%), na advocacia (83%) e na pesquisa científica (90%).

As mulheres são maioria apenas quando se fala sobre cuidado da casa (72% das fontes) e na esfera estudantil (54%).

É tipo assim:

Mulheres Homens
Política e governo 14% 86%
Educação 30% 70%
Saúde 31% 69%
Advocacia 17% 83%
Pesquisa científica 10% 90%
Cuidado da casa 72% 18%
Esfera estudantil 54% 46%

Já quanto à imagem…

Fonte: "A imagem da mulher na mídia", Intervozes.

Fonte: “A imagem da mulher na mídia”, Intervozes.

1/3 de todas as notícias publicadas contém fotos de mulheres.

Apenas 15% das fotos que ilustram as notícias são de homens.

Em 16% das notícias as mulheres aparecem como vítimas, contra apenas 5% dos homens.

Desigualdade de gênero foi tema de apenas 6% das notícias no mundo.

46% dos artigos reforçam os estereótipos das mulheres ao invés de questioná-los. Essa situação só muda com a presença de jornalistas mulheres escrevendo as matérias. Nesses casos, aumentam as vozes das mulheres entrevistadas e questionamento dos estereótipos de gênero.

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Conversamos um pouco também sobre o monopólio dos meios de comunicação no Brasil e sobre as concessões públicas. De acordo com os artigos 54 e 55 da Constituição brasileira, senadores e deputados não apenas ficam proibidos de terem canais de comunicação, que são concessões públicas, como devem perder seus cargos aqueles que o fizerem. Bem… De acordo com uma pesquisa do coletivo Intervozes baseada em dados da Agência Repórter Social (2006), a realidade, entretanto, é bem diferente:

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Então a gente começa a entender por que a imagem da mulher veiculada na mídia de massas não representa a nossa realidade. E daí a gente começa a entender também por que que quando mobilizamos 3.000 mulheres marchando dez quilômetros por dia, durante dez dias, de Campinas até São Paulo, exigindo o fim da violência contra a mulher, do racismo e da lesbofobia, a divisão sexual do trabalho, a legalização do aborto, a desmilitarização, o combate à pobreza e tantas outras pautas, por mais que pra gente seja lindão assim:

Foto: Marcela Mattos.

3ª Ação Internacional da MMM. Foto: Marcela Mattos.

É assim que aparece (quando aparece) na mídia:

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Com a diferença que, agora, temos um fator novo…

O fluxo de comunicação tradicional segue um modelo unidirecional: a mensagem é enviada de um emissor único para o conjunto de receptores(as), como no caso da TV, do rádio e do jornal impresso.

Já com a internet, pela primeira vez, é dada a possibilidade de todos(as) – aqueles que têm acesso ao meio técnico e dominam a linguagem digital – se tornarem emissores de conteúdo. O fluxo então passa a ser de todos (incluídos digitalmente) para todos(as). E é por essas e outras que precisamos nos apropriar da rede, sem ignorar que ela também tem vários problemas e contradições. Por exemplo: diante desse quadro de pluralidade de vozes, se todos(as) podem falar, como é que nós podemos ser ouvidas? Como lidar com os discursos de ódio, que também fluem pela internet e passam “despercebidos” pelos tais filtros de controle do Facebook?

Com tudo isso na cabeça, terminamos a primeira oficina da equipe de comunicação colaborativa do Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, que vai reunir mais de 1.600 mulheres, dos cinco continentes do mundo e de 18 estados do Brasil. O Encontro acontece pela primeira vez no Brasil, de 25 a 31 de agosto, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Certamente, há muito o que se debater, e os acontecimentos das últimas semanas ajudam a compor o caldo da luta pela democratização da comunicação no Brasil. Seguimos em luta também para que nós mulheres possamos nos apropriar das novas tecnologias para nossa emancipação.

A próxima oficina da equipe de comunicação colaborativa acontece nesta quinta-feira (27/06), às 19 horas, na SOF-Sempreviva Organização Feminista.

Quer participar da cobertura colaborativa do 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres? Ajude a cobrir o evento presencialmente ou ajude a circular os conteúdos produzidos, à distância. Seja nosso(a) colaborador(a), escreva para: comunica@sof.org.br

Bruna Provazi é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo e organizadora do Festival Mulheres no Volante.

Comments

  1. Em meu Facebook postei uma foto que fala sobre mulheres independentes e eu e outras mulheres fomos xingadas de piranha. Pesso que venha protestar comigo. Não vamos deixar esses homens sem respostas. ..

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