A liberdade, a cidade e o que disseram

Por:  Thandara Santos, Clareana Cunha e Sarah de Roure*

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Terceiro ato contra o aumento das passagens em São Paulo. Foto: Occupy Brazil.

 Tomou as capas dos jornais, os sites de notícias, o Facebook, os bares, os ônibus e as ruas. Ontem em São Paulo, só se comentava sobre uma coisa: o ato pela redução da tarifa de ônibus, de metrô e da CPTM, que aconteceu nessa última terça-feira. Cidadãos inflamados reproduziam durante todo o dia as manchetes publicadas pelos donos do poder, ou melhor da grande mídia, afirmando que era um absurdo completo e que, afinal, vinte centavos nem é tanto dinheiro assim.

O problema dessa síntese rasteira é que ela ignora três coisas. Que a Polícia Militar do Estado de São Paulo é violenta, que a informação que nos chega a todos é ideologicamente filtrada, e o mais grave, que lutar por melhores condições de vida e pela possibilidade de ir e vir é legitimo.

Nos esquecemos do que querem que esqueçamos. Esquecemos que, no ano passado, foi o nosso governador o responsável pela declaração “Quem não reagiu está vivo”, ao se referir a uma ação policial no interior do Estado que matou nove pessoas. Esse mesmo governador chama os manifestantes de “vândalos e baderneiros” e, com isso, manda um recado muito claro à sua polícia: o de que o protesto não é legítimo e, portanto, deve ser contido, para que se preserve a “ordem” natural das coisas.

Essa mensagem, quando passada a uma corporação militarizada, que ainda desconhece os limites de sua legitimidade sobre o uso da força letal, resulta exatamente naquilo de que acusam o movimento de fomentar: a violência. Mas não é possível simplesmente aceitar e reproduzir que o protesto tenha sido violento, como afirmam a grande mídia e tantos que se somam a ela, sem que isso suscite um debate sobre qual é a ordem que está sendo subvertida pela suposta “violência” do ato.

A ordem policial que foi desacatada na terça tinha armas de fogo em punho em meio a uma manifestação de civis e, em todos os outros dias do ano, essa é a ordem policial que também aponta armas de fogo à cabeça de cidadãos, em sua maioria seletiva composta por negros e moradores da periferia, em abordagens truculentas cotidianas, carentes de ordem.

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Fonte: Passe Livre São Paulo.

Mas por que “vândalos”? Quem é mesmo que anda saqueando e destruindo não só o cotidiano da juventude, mas também a sua liberdade? Vândala, para nós, é essa velha política cheia de reacionários que disputam com a juventude um espaço que não é deles para manter a corrupção e oprimir o mais pobre.

O patrimônio que supostamente foi depredado só é público para uma determinada parcela da população, aquela que consegue acessar serviços e cidadania, e não para a massa desempregada, subempregada ou miserável que é afetada cotidianamente pela restrição do acesso ao transporte “público”. A quadrilha de manifestantes que, supostamente, foi formada ontem, se mobilizou contra essa ordem social estabelecida e, obviamente, não poderia fazê-lo dentro das regras do jogo que se propõe a subverter.

Há muito que nós dos movimentos sociais estamos denunciando a criminalização da luta e dos protestos. A direita desqualifica por meio de seus instrumentos, como a polícia e a mídia, todas as formas de organização social e política. Ou nos esquecemos também que nem Gandhi, em sua tática de não-violência, hoje reivindicada por alguns como “mais legitima”, foi bem visto por seus algozes? Ou será que, para as reivindicações dos movimentos terem legitimidade, precisam causar “boa impressão” na mídia?

Vale lembrar que, assim como em todas as outras manifestações populares ao longo da construção da nossa democracia como a conhecemos hoje, nenhuma conquista se deu a portas fechadas, em negociações “pacíficas” e aceitas pela ordem vigente. As conquistas se deram em embates políticos, que envolvem uma correlação de forças histórica entre uma mobilização de massas e a ordem que se quer subverter.

Os sentidos da luta social e política são muitos, subverter a ordem que oprime e que violenta é um deles. Questionar as normas e leis estabelecidas pelo mercado e seus representantes a partir das ruas é parte do processo de construção dos sentidos da participação e da transformação radical da ordem.

Ao subverter essa ordem do silêncio e sair do cotidiano optando por ir às ruas, a juventude busca legitimidade no exercício da democracia, busca se sentir parte de algo que está por vir. Ir às ruas e colocar em pauta a discussão da redução da passagem do transporte público tem tudo a ver com a noção de coisa pública que queremos construir. Quando o mercado organiza tudo ao nosso redor, mercantilizando os direitos à saúde, à educação e até aos nossos corpos, a liberdade de ir e vir tem um preço, que varia de acordo com as leis desse mesmo mercado. O critério para transformar a realidade não é quantas pessoas podem ou não pagar pelo aumento de vinte centavos, mas sim o que significa a garantia dos direitos, a partir da revalorização do Estado como um todo.

Estamos deixando oito anos de gestão neoliberal da cidade, e ainda estamos sob o governo do PSDB no estado, tudo isso nos diz que retomar o sentido da coisa pública é uma tarefa que está na ordem do dia. Em outras palavras, a São Paulo que estamos debatendo na construção de um Plano Diretor, na discussão de políticas de combate à violência machista e na ampliação das creches está profundamente orientada para a afirmação da coisa pública, do papel do Estado na garantida de direitos que são inegociáveis, que não se compram e não se vendem. A liberdade não pode ter preço, sob pena de deixar de ser o que é.

O próximo ato contra o aumento da tarifa está marcado para hoje (13/06/13), às 17 horas, em frente ao Teatro Municipal (Anhangabaú).

Manifestantes criam site para reunir relatos das agressões sofridas nos atos.

 

* Thandara Santos, Clareana Cunha e Sarah de Roure são militantes da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

 

Comments

  1. Sou a favor do “protesto, das greves, mas não do Vandalimo”, vc descreveu no texto acima que a policia estava armada com armas de fogo, e vcs manifestantes não estavam armados com pedras, boutijões de gás, paus etc?.,agindo desta forma, destruindo a cidade, vcs não ganham o apoio do povo, pelo contrario, so indignação e revolta. Não se ganha uma causa com atos criminosos. “Repense nos seus atos de protesto”.

  2. Republicou isso em "Sem contraponto não se chega ao Ponto"e comentado:

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