Eu e o Feminismo

Este post faz parte da série “Marcha Mundial das Mulheres: trajetórias de luta e de vida“, que busca recuperar um pouco de nossa história a partir de nossas próprias vozes. Quer contar a sua história também? Envie para comunica@sof.org.br

ser mulher e feminista

Por: Geslia Marques*

Che Guevara dizia que ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética, e hoje eu afirmo: ser mulher e não ser feminista é uma contradição social. Por que eu sou feminista? Talvez essa pergunta se resuma em três coisas básicas: Primeiro por instinto, segundo por gratidão e terceiro por ser minha obrigação enquanto mulher.

O Feminismo foi instintivo na minha vida desde muito cedo, embora haja entre algumas feministas a divergência sobre quando o feminismo se manifesta, pois algumas acham que pode ser desde sempre e outras que o feminismo é uma ideologia política e que por isso uma criança não pode ser feminista, mas eu defendo, por experiência própria, que o feminismo não tem idade, porque eu era sim uma mini-feminista. Foi algo natural, tão natural quanto um bebê aprender a andar, falar, pedir colo, foi eu aprender a entender meu papel na sociedade e lutar pelos meus direitos.

Quando eu tinha 7 anos, na escola pública onde eu estudava, em um bairro de periferia, nós meninas sofríamos uma violência tremenda vinda dos garotos (atitude que naquela época as professoras e algumas mães já entendiam que era a reprodução do que eles viam em casa seus pais fazendo) e era algo incessante, eram reclamações, reuniões de pais e professores, e nada dava jeito nos meninos que literalmente nos arrastavam pelos cabelos sala de aula a fora, estilo homens das cavernas. Até que um dia, uma pequena garota resolve tomar uma atitude e convoca todas as meninas no recreio, faz cartazes com papel ofício e giz de cera e saem em marcha até em frente a direção gritando “Mulheres unidas jamais serão vencidas!” pedindo o fim das agressões contra nós. Sim, essa garota era eu, e nós, meninas entre 6 a 9 anos, marchamos no recreio por nossos direitos! Por isso eu gosto de dizer: toda mulher é uma revolução!

O segundo motivo, a gratidão, é muito simples de explicar. Eu, hoje, não poderia votar, não poderia estudar, não poderia dar minha opinião em público, não poderia viver minha sexualidade, não poderia escolher a minha roupa, não poderia trabalhar, ter meu próprio dinheiro e tantas outras coisas se não fossem as feministas de outras gerações que lutaram e morreram para que eu pudesse hoje desfrutar desses direitos! Seria além de egoísmo, burrice da minha parte renegar quem acreditou que um dia eu pudesse estar numa sala de aula de Universidade, que um dia pudesse ser doutora, fazer minhas próprias escolhas, e que deu a própria vida por esse ideal.

E o terceiro motivo, que é a minha obrigação enquanto mulher dar continuidade a essa luta que é de todas, está latente em cada mulher que em pleno século XXI ainda é agredida dentro da sua casa; a cada mulher que é ensinada que “mulher tem que se dar ao respeito” (porque naturalmente não merecemos respeito, né?); a cada mulher que não tem a liberdade de andar na rua sem ser vista como um objeto que pode ser tocada, receber cantadas e assobios; em cada mulher que mesmo tendo a mesma capacidade e grau de formação de um homem ainda recebe menos que ele no mesmo emprego; em cada mulher que é cruelmente estuprada por um homem que aprendeu com essa sociedade machista que somos submissas e que servimos para satisfaze-los; cada mulher colocada como mercadoria, como objeto em comerciais, na internet e na televisão; em cada uma que é escravizada seja na vida da prostituição, ou escravizada por um padrão de beleza que é imposto como o certo pela mídia e que chega a entrar em doenças como depressão, anorexia e afins; em cada mulher que tem sua sexualidade reprimida; que é julgada pela roupa que usa; que deixa de receber uma oportunidade de emprego por simples preconceito; em cada mulher que sente medo ao sair a noite numa rua um pouco mais deserta…

Essas mulheres somos todas nós! E é por isso que seguiremos em marcha até que todas sejamos livres! Livres de qualquer tipo de opressão, preconceito e violência.  Sou mulher, sou feminista e continuarei com minhas companheiras na luta pelos meus direitos, mesmo que me custe a vida!

Geslia Marques é militante da Marcha Mundial das Mulheres do estado do Rio de Janeiro.

Comments

  1. feliz e compartilhando

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