Marias e Joanas

*Por Bloco Feminista da Marcha da Maconha

Maria tinha quatro filhos. Os criava sob o teto do barraco que orgulhosamente construíra anos antes, com a ajuda do marido. Esse aí, aliás, lhe fizera companhia às vezes, é verdade, mas de companheiro nada tinha. Quando o bucho cresceu pela quarta vez, pegou suas coisas um belo dia e escafedeu-se. Depois dum tempo Maria chegou à conclusão que havia sido feliz, apesar das dificuldades e da falta de comida na mesa. Quando o mais velho dos seus meninos foi encontrado morto, com um tiro na nuca, na viela de baixo, seu mundo desabou. E não voltou mais, não.

“Deus quis assim, Maria”. Não tinha frase que ela mais odiava que essa. Deus, aliás, foi outro pelo qual sua relação mudou. Mas também não deixava de ir à missa de domingo, e contribuir com o pastor Osias. “Deus quis, hã. Foi a polícia quem quis”. Não tinha como provar, apesar de um monte de gente ter visto. Alex, seu menino, figurara nos jornais como mais um dos moleques negros, de chinelo, que morreram “na troca de tiros com a polícia” em uma “vitoriosa operação contra traficantes”. Só se tivesse atirando com o cachorro quente que segurava na mão. Se sentia impotente, e claro, também tinha medo. Se fosse só ela agora, não tinha muito a perder e teria decidido se arriscar, dar um jeito de denunciar o que aconteceu.

Tinha lá na favela um grupo de mães que tinha se organizado anos antes, depois de um período de matança que também lhes tirou os filhos, pra denunciar a violência do Estado. Mas tinha medo. E quando o vestido começou a encurtar, não acreditou. Mais uma criança? Não dava, não daria, seria mais uma sem pai, mais uma pra alimentar, além disso ela sentia que suas coxas já não tinham mais a força de antes ao subir os escadões, e a renda dentro de casa tava fininha como as pernas da irmã pequena de Alex. Não era criminosa, nem pecadora, mas não tinha outro jeito. Dinheiro pruma clínica clandestina? Sem chance. Agulha de tricô? Melhor tentar aquele chá que já tinha ouvido falar. E enquanto sangrava no chão, e perdia a força, e meu Deus, será que vou ser punida, mas não tinha jeito, Deus teria que saber, pastor Osias jamais perdoaria, preciso me levantar, ai, se alguém me encontrar aqui posso ir presa, como ficariam meus três pequenos, mas não consigo e…

Joana nunca quis ser mãe. É bem verdade que nos seus namoricos com Alex brincavam de escolher o nome das crianças, mas ela era muito jovem e sempre teve uma impressão um pouco sofrida dos encargos domésticos. Joana tinha moral na quebrada. Se envolveu no crime desde os 12 anos, e com o que recebia conseguia se sustentar, e ainda, depois da tragédia, ajudar um pouco a Dona Maria. Tinha uns tênis da hora também, porque só os boys teriam? Sempre se orgulhou de ser do movimento e explicava pra quem quisesse saber: “Nunca matei nem roubei ninguém, só vendo uma mercadoria pra adultos que querem comprá-la.” Achava hipócrita que umas drogas fossem proibidas e outras não, nunca soube direito da onde a humanidade tirou essa, mas também se fosse ficar pensando em tudo que ela não via sentido, não tinha tempo pra fazer mais nada. Consumia um pouco das coisas que vendia, mas segurava a onda. Ignorava quando alguém comentava “nossa, uma menina tão bonita fumando?”.

Uma vez tava na rua com uma pedra de crack e veio um guarda junto com um assistente social que mais parecia um armário e tentaram enfiar ela numa van, que a levaria pruma clínica religiosa que tratava mulheres dependentes. Esperneou, ajoelhou o saco de um, pisou no pé de outro e conseguiu escapar, mas sua amiga foi levada e desde então não teve mais notícias. Tinha a ideia de dali a alguns anos crescer na hierarquia do movimento. Gerente, essas coisas, parecia muito mais interessante que as tarefas que ela tinha, mais de trabalho manual e venda na ponta do varejo. Uma vez foi incumbida de levar uma droga pra dentro de um presídio e de lá não conseguiu voltar mais. Ela sabia, lembrava das revistas vexaminosas a que as mulheres são submetidas nos dias de visita aos parentes presos. E foi numa dessas que descobriram o pacote que tinha tido de carregar entre as pernas. De lá, foi encaminhada pra penitenciária feminina e virou mais uma na cifra das quase 600 mil pessoas atrás das grades no Brasil.

A acusação de Joana é a que mais prende mulheres no país. Ouvira falar outro dia que já temos a quarta maior população carcerária do planeta. Será que as pessoas não sabem disso? Só pode ser, pensou, enquanto assistia o horário eleitoral numa tevêzinha furreca no fundo da cela lotada. O candidato, todo pomposo e bem articulado, prometia a construção de novos presídios, como se fosse um trunfo, uma coisa racional, positiva. Sobre as condições de quem tá preso, ninguém costuma ligar. Joana fumava um cigarro no pátio interno, conversando com uma amiga que fez por lá, e tentavam pensar em alguma coisa pra fazer pra garantir no mínimo que tivessem direito a absorventes uma vez por mês. Quando saísse de lá ia dar um jeito de tentar mudar esse estado de coisas, tava decidida.

8 de março em São Paulo. Foto: FdE

8 de março em São Paulo. Foto: FdE

Pela liberdade de todas Mariajoanas. Pelo fim da ingerência do Estado e das Igrejas sobre nossos corpos. Pelo fim da guerra. Pelo ventre livre e a cabeça feita.

A proibição mata: legalize a vida.

****

Dia 8 de junho, um bloco feminista irá compor a Marcha da Maconha em São Paulo. Este texto foi produzido como parte da preparação deste bloco. Este, por sua vez, vem de um processo mais amplo de reflexão sobre as convergências entre a luta feminista e o anti-proibicionismo que, juntas, questionam a ingerência do Estado sobre nossa vida e nossos corpos, os efeitos nefastos da guerra às drogas sobre as mulheres, e propõem um mundo livre e igualitário. Essas reflexões já se expressaram em rodas de conversas, textos, e agora vai para as ruas!

Comments

  1. Muito bom, estão realmente de parabens

  2. Estevam Silva says:

    Muito bom, estão realmente de parabens.

Trackbacks

  1. […] Este é um tema novo no debate da Marcha, mas as participantes avaliaram a importância de realiza-lo, uma vez que as consequências da criminalização têm gerado impactos significativos para as mulheres que vivem nas periferias, como o aumento do encarceramento feminino e da violência. Ao final, foi lido o texto Marias e Joanas, produzido pelo bloco feminista e anti-proibicionista. Confira o texto aqui. […]

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