Marcha Mundial das Mulheres: trajetórias de luta e de vida

Em preparação para o Encontro Internacional da Marcha, que será realizado pela primeira vez no Brasil, em agosto deste ano, vamos dar início, aqui no blog, a uma série de posts com o tema “Marcha Mundial das Mulheres: trajetórias de luta e de vida”. Buscamos produzir nossa memória de forma coletiva e contar nossa história através dos depoimentos das próprias mulheres que atuam no movimento. Para inaugurar a série, começamos com o relato coletivo feito durante a última reunião da Marcha Mundial das Mulheres do estado de São Paulo.

ação 2010

Ação 2010 da MMM.

São Paulo: aqui tem mulher, feminista e revolucionária

Atendendo ao desafio de contar a história do feminismo no Brasil a partir das nossas vivências, começamos a traçar uma linha do tempo, durante a última plenária estadual da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo. Olhamos para nossa memória tentando responder à seguinte pergunta: quando e como comecei a participar do movimento feminista? Ao colocar tudo junto em pequenos cartões, ordenados pelo tempo, aquela lembrança já não era só nossa, mas parte de uma memória coletiva.

MMM na abertura do Fórum Social Mundial (2004).

MMM na abertura do Fórum Social Mundial (2004).

Contar de onde viemos ajuda a pensar em quem somos, e de que é feito o nosso movimento. Para isso, fomos longe. Nossas lembranças alcançaram o ano de 1957 e chegaram até 2013, nos fazendo pensar que há muito tempo o feminismo encontra eco entre as mulheres, e que permanece atual, já que, a cada ano, mais e mais companheiras se juntam a essa caminhada.

Amélia, Fátima, Imaculada, Germaine, Miriam, Márcia, Nalu, Tatau, Júlia, Léa, Sebastiana e Sônia são algumas das muitas personagens que apareceram nessa história que é repleta de experiências diversas, marcadas pela solidariedade, pelo compromisso e por muita luta.

8 de março de 2005. 2ª Ação Internacional da Marcha.

2ª Ação Internacional da Marcha (2005).

O compromisso com a transformação social é uma constante nesse percurso. As mulheres foram e são parte central dos processos de mobilização e resistência em todo o estado. Estiveram presentes nas lutas por melhores condições de trabalho dos anos 70, na organização do movimento sindical enfrentando as perseguições, nos movimentos da Igreja, como a JOC, e na política estudantil universitária. Passaram pelos movimentos de saúde dos anos 80, pelo Encontro de Mulheres em Solidariedade a Cuba, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, nos anos 90, e pela organização das mulheres no interior da Central de Movimentos Populares (CMP) e pela campanha contra a ALCA, já nos anos 2000.

5ª reunião nacional da MMM (2003).

5ª reunião nacional da MMM (2003).

Como elas compartilharam:

“Comecei a participar através de um movimento de moradia, o MMC/SP.”

 “Em 1982, fui no 8 de março, convocada pelo Sindicato dos Químicos de São Paulo.”

Entretanto, durante esse percurso, houve a percepção de que havia uma divisão das tarefas no interior das organizações que era orientada pelo sexo. Nessa separação, enquanto os grandes debates e decisões pertenciam aos homens, as tarefas do cotidiano, de menor protagonismo político, eram atribuídas às mulheres. As atividades desenvolvidas por elas eram menos valorizadas e desprovidas de poder de decisão. Assim, o processo de auto-organização das mulheres em meio à organização geral das lutas sindicais e populares foi determinante para forjar essa consciência.

Fuzarca Feminista. 8 de março de 2005.

Batucada da Marcha. 8 de março de 2005.

Os caminhos até o feminismo passaram também pela vivência das distintas facetas da divisão sexual no mundo do trabalho ou na universidade, como a ausência de creches, a presença da violência, os salários diferentes, a maior jornada de trabalho, o assédio sexual, entre tantas outras manifestações do machismo nesses espaços.

8 de março de 2006. Foto: Anderson Barbosa.

8 de março de 2006. Foto: Anderson Barbosa.

Nessa relação se registrou uma dupla tensão. Por um lado, a dificuldade da esquerda em reconhecer a emergência de um feminismo classista comprometido com as mudanças do país e, por outro lado, nem sempre a chegada do feminismo era algo que parecia conectado com sua realidade local.

“Nessa época vi uma propaganda do Encontro Feminista, eram umas mulheres sentadas ao sol, pensei ‘ Ah que bom que tem um movimento… mas nós aqui estamos fodidas trabalhando.”

Mais tarde, a participação de diferentes mulheres de origem popular no Encontro Feminista de Bertioga, em 1989, e a ampla mobilização para a participação de um grupo grande de São Paulo no Encontro Latino Americano na Argentina, em 1991, mostraram que o feminismo tinha seus plurais.

Batucada da MMM em 2007.

Batucada da MMM em 2007.

Os debates em torno da construção e da reivindicação de políticas públicas nos municípios representam outra porta de entrada para elas no feminismo. Seja através de espaços institucionais, como a Coordenadoria Especial da Mulher de São Paulo, no inicio dos anos 2000, e, a partir de 2008, o Núcleo de Políticas Públicas para as Mulheres em Várzea Paulista, com o apoio da SOF, além do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Assim como através de processos reivindicatórios, como a construção do Centro de Convivência da Mulher de Mauá, em 1987, a 1ª Delegacia da Mulher em São Paulo e, desde os anos 70, a luta por creches nos bairros e nas universidades.

Essas e outras expressões de lutas auto-organizadas das mulheres contribuíram para construir uma identificação das mulheres com o feminismo. Registramos nessa história a importância do Encontro da Mulher Paulistana, nos anos 70, e das lutas por creche em lugares como Vila Remo e Parque Santo Amaro.

MMM

Ação Ofensiva da MMM contra a mercantilização (2004).


O movimento serve como espaço de ampliar a compreensão crítica das relações sociais de sexo em casos de violência emblemáticos nos anos 80, como no caso de Doca Street, em que as mulheres foram às ruas denunciar que não existe crime passional, mas que tratava-se de violência contra a mulher. No mesmo sentido, projetos da União de Mulheres, o Movimento de Mulheres do Campo Limpo, a SOF, o CIM, a organização das mulheres do PT e, mais recentemente, as Promotoras Legais Populares são parte importante dessa história.

8 de março de 2007 / Fora Bush.

8 de março de 2007 / Fora Bush.

“Em uma reunião do 8 de março, uma companheira do Partido dos Trabalhadores me enxergou enquanto uma mulher libertária e me indicou para ir para uma reunião de mulheres e eu participei. Muitas vezes falho com o movimento, não porque quero, mas porque a luta das mulheres tem variadas frentes. Hoje, não perco por nada o movimento, a Marcha Mundial de Mulheres, no dia 8 de março na rua.”

 A trajetória da SOF na Zona Leste de São Paulo, em especial em São Miguel, é exemplo de como o feminismo presente nos bairros chegava até as mulheres de diversas formas.

 “Conheci a SOF pela TV Mulher e fiquei sabendo que era pertinho da minha casa.”

 “Eu sempre participei do movimento, inclusive do movimento de moradia. Fui convidada, nesse ano, por uma companheira, Sebastiana, para participar de uma reunião da SOF. Fiquei muito impressionada com o que seria o feminismo. Não parei mais de querer saber o que era o feminismo e como é ser feminista. Participei da chegada da MMM no Brasil e passei a ser da Marcha Mundial.”

Ação 2010 - João Zinclar (35)

Ação 2010 da MMM. Foto: João Zinclar.

Desde 1999, houve amplo processo de articulação do que se tornaria, no ano 2000, a Marcha Mundial das Mulheres contra a pobreza e a violência, sob o lema “Duas mil razões para Marchar”. Foram várias as entidades e movimentos que atuaram nesse processo. Colocando em diálogo organizações autônomas e movimentos mistos, a história da MMM contribui, assim, para juntar histórias anteriores.

Diferente do processo organizado pela ONU para as mulheres, nos anos 90, a Marcha Mundial das Mulheres emergiu com um forte questionamento à globalização, ao dar visibilidade à estrutura do patriarcado e sua relação com o modelo capitalista. As posições políticas demandaram uma expansão da elaboração feminista, avançando na crítica à ordem econômica. O lançamento da MMM em SP foi em frente à Bolsa de Valores, já simbolizando um feminismo que pretende pensar a sociedade como um todo.

As ações internacionais da Marcha Mundial das Mulheres aparecem nesse trajeto como momentos chave de constituição dessa identidade feminista.

 “Em 2005, teve a 2° Ação da MMM. A partir daí, o feminismo não saiu mais da minha vida.”

 “Sempre ouvi sobre o feminismo, mas meu primeiro contato com o movimento foi na 3° Ação da MMM.”

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Ação 2010 da MMM. Foto: Marcela Mattos.

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Ação 2010 da MMM. Foto: Daniela Carrasco.

Além desses momentos, são marcos de participação na MMM e de constituição de uma identidade com o feminismo: a organização das manifestações do dia 8 de março, a organização do Bloco feminista de carnaval “Adeus Amélia”, o Núcleo da MMM na USP, as reuniões na escola e até a participação em debates sobre a prostituição.

Fuzarca Feminista em ação no 8 de março.

Fuzarca Feminista em ação no 8 de março.

Como uma rede de solidariedade cujo objetivo é viabilizar a participação e o protagonismo de todas, o movimento se constitui também como um espaço de construção de saber. A percepção registrada pelas mulheres é de que participar dele ajuda a politizar o cotidiano, questionar o trabalho doméstico, ir às ruas. Os caminhos de enfrentar o machismo, pouco a pouco, vão ficando mais nítidos. Assim, fortalecer a Marcha é fortalecer as mulheres, e fortalecer as mulheres é fortalecer a luta feminista.

Comitê da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

Comments

  1. Sarah Luiza says:

    Muito bonito nos ver como parte dessa história! Somos e fazemos história!

Trackbacks

  1. […] post faz parte da série “Marcha Mundial das Mulheres: trajetórias de luta e de vida“, que busca recuperar um pouco de nossa história a partir de nossas próprias […]

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