Onde estão as mulheres na Virada Cultural 2013?

O que esperamos de um governo que elegemos por ser parte de um projeto comprometido com a mudança, com outro olhar para as demandas sociais, com outro jeito de (re)conhecer a população? O que esperamos de um governo que acredita na cidade, nas pessoas, e que, ao contrário do velho, acredita que de fato existe amor na cidade de São Paulo? Esperamos que este seja realmente uma outra coisa que não aquela que estávamos cansadas de saber, de questionar e de resistir. Por que dizer isso agora? Porque acreditamos realmente que as coisas, que por sinal já estão mudando, possam mudar em todos os âmbitos e lugares, pois para a construção de uma nova política pública requer diálogo, escuta, e, mais do que tudo, requer a troca e a incorporação das propostas dos movimentos sociais. Esse texto parte de um descontentamento, já antigo das mulheres, sobre uma das principais ações da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a qual, ao mesmo tempo em que possibilita a ocupação do espaço público, nos lembra qual o nosso lugar nesse mundo androcêntrico: a Virada Cultural de São Paulo.

Quando abrimos os jornais, ligamos a televisão, vamos ao teatro ou entramos na internet, a imagem que surge diante de nossos olhos é de mulheres nuas ou seminuas, mulheres com caras e poses sensuais, mulheres associadas a objetos de consumo e desejo, mulheres, elas próprias, objetos de consumo e desejo, super esposas e super mães, como se tudo fosse normal. Mulheres “siliconadas”, “popozudas”, mulheres “peras” e “maçãs”, como se tudo fosse natural. Mulheres sendo agredidas, mulheres sendo violentadas, mulheres sendo assediadas, mulheres sendo assassinadas, como se tudo, mais uma vez, fosse aceitável, porque já foi naturalizado, porque é a “norma”.

manifestação em frente ao estabelecimento do autor dessas frases como "piadas"

manifestação em frente ao estabelecimento do autor dessas frases como “piadas”

Todos os dias, nos deparamos com declarações sexistas, racistas e homofóbicas, como: “toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia”, ou então “homem que fez isso [estuprou uma mulher ´feia´] não merece cadeia, merece um abraço“. “Eu comeria ela e o bebê”, ou ainda, “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?“. São declarações, para nós, inaceitáveis.

Nas duas últimas edições da Virada Cultural, esse espetáculo da comédia (ruim, machista e de mau gosto) teve espaço privilegiado no palco. A nossa surpresa foi ver que, na Virada de 2013, esses mesmos “comediantes” terão novamente espaço para promover sua discriminação, “disfarçada” por eles em piadas ruins. Tais “humoristas”, já privilegiados por sua classe, sua cor e sua orientação sexual, também vão dispor de espaço privilegiado na Virada 2013, não em um ou em dois shows, mas em oito (!). O que há de mais machista, racista e homofóbico na comédia brasileira se repete não só uma, mas várias vezes!

MC Menor do chapa

MC Menor do Chapa

Logo após a prefeitura ter criado as secretarias de Políticas para as Mulheres e Combate ao racismo, a Virada Cultural 2013 escorrega em apresentar uma continuidade, neste quesito, com as gestões anteriores. É triste constatar que esse evento de grande dimensão para a cidade e de grande projeção da produção cultural brasileira continua a reproduzir a mesma lógica machista, racista e lesbofóbica e desigual da sociedade em que vivemos. Entre tantos exemplo, podemos citar um surpreendente e inédito. A programação do funk na Virada desconsidera a heterogeneidade desta cultura ao privilegiar apenas sua expressão mercantilizada e fomentada por um setor da indústria cultural, que reproduz a subordinação das mulheres de maneira violenta à exploração sexual, através da associação entre domínio e posse de nossos corpos a símbolos de poder e status.

Assim como carros de luxo e armas, enquanto propriedade privada dos homens, nossos corpos são usados e submetidos a diferentes formas de violência como objeto sexual, das mais brutais e violentas maneiras. “Ela é top de luxo, ela é sem limite. Socialight da comunidade curte o funk com sensualidade” (MC Menor do Chapa), “É que hoje elas tão sem limite, olha como ela vem, dançando como ninguém, os muleque doido pira” (MC Nego Blue), “Colar com nós, elas que fechar com nós. Não tem graça pros playboys. Elas quer tomar do uísque, quer fumar nossa maconha, vai pro baile uma santinha, volta do baile loucona” (MC Backdi & Bio G), “Nós arrasta todas elas porque o bonde joga sujo, esfrega na cara delas o poder e a condição. Então fogo no puteiro que o Boy chegou..” (MC Boy do Charme). São esses que aparecem na Pista Alfredo Issa, e são subsidiados por recurso público, que poderiam, de outra maneira, ser investidos em outros grupos do mesmo gênero musical que lutam por um espaço sem reproduzir estereótipos.

Repudiamos a disseminação desses conteúdos nas manifestações artísticas, sejam elas quais forem, pois sabemos que a sociedade se organiza a partir de uma base patriarcal que nos oprime enquanto mulheres, nos condicionando a uma situação de inferioridade e subordinação por meio da banalização da violência e da transformação dos nossos corpos em mercadoria.

Na história da arte não é diferente. As mulheres estão em lugares considerados “inferiores”, e suas manifestações artísticas sempre tiveram um lugar “menor” do que o lugar reservado aos homens. A elas, restava servirem de modelos, com seus corpos nus, ou de “musas inspiradoras” para poetas, escritores, escultores, pintores… Enquanto artistas, eram marginalizadas dos processos de criação, chegando até a adotar nomes de homens para se inserir em espaço majoritariamente masculinos e ter a sua arte reconhecida. Excluídas desse processo de criação cultural, as mulheres estiveram sempre submetidas à autoridade/autoria masculina.

Por outro lado, surge hoje um discurso triunfalista de que a mulher já conquistou seu espaço, de que “basta querer”, basta o esforço individual para se chegar onde deseja. Mas será mesmo que as mulheres ganharam espaço na produção artística? Onde está o protagonismo feminino na arte? Onde está o investimento público para que este protagonismo se manifeste?

Voltando para a Virada Cultural 2013, a programação do hip-hop representa bem o que queremos dizer. No “Palco Rio Branco” (“A Rua é Show”), dentre os convidados estão: Dj Ninja e MC Jack, Pepeu, A turma da São Bentro (DJs, b-boys e MC’s), KL. Jay, Nelson Triunfo, Emicida, Dj Hum, Edy Rock, João Paraíba, Dj Jack, Prodígio, De Elite, Causa P. MC’s Free Style, DJ’s residentes, Grupo Inquérito, Região Abissal, Banda Zulus, Oliveira de Panelas, Caju & Castanha e Carlos Dafé e banda. Onde estão as mulheres do hip-hop?

No Palco da Praça da República: Raça Negra, Leandro Lehart, Happin’Hood Futebol Clube, Lonnie Liston, Marcos Vale, Hyldon e Azymuth, Fabio Silva, Mario Sergio, Sobrinha, Almir Guineto, Jorge Aragão, Bira Presidente e Fundo de Quintal. Onde estão as mulheres do samba?

No Palco da São João: Lobão, Leslie West, Chorão Eterno – A Banda, Mondo Generator, Madame Saatan, Mão Morta, Soft Moon, Anjo Gabriel, James Chance & Lês Contortions, The Central Scrutinizer e Bobby, Martin, Nektar, David Jackson e ABC, Va der Graaf, além da Rebeca Matta. Onde estão as mulheres do rock?

Dentre as muitas vozes masculinas, poucas vozes femininas aparecem, como o Grupo Ilú Oba de Mim, Nega Duda, Sarau da Ademar, Rita Bennedito, Dona Inah, Ione Papas, entre outras. Ainda assim, é muito pouco, frente ao tanto que existe de produção feminina na cidade, e é menos ainda, frente ao que existe de produção feminista. As forças que representam a resistência feminina não se calam. “Mulher que pinta, mulher que grafita, mulher que canta, mulher artista; Mulher do dia dia… Mulher do dia dia da periferia”, todas devem estar presentes!

É por vivenciar a discriminação e o preconceito todos os dias, é por repudiar os padrões de feminilidade e masculinidade impostos e é por criticar a responsabilização das mulheres pelo trabalho doméstico, fazendo com que tenhamos menos tempo para nos dedicar à arte, à política e ao lazer, que reivindicamos mais espaço na cultura. Batalhamos, no dia-a-dia, para construir canais para as mulheres se expressarem e para incentivá-las, cada vez mais, a produzir arte. Queremos, além de tudo, democratizar o poder e a política em São Paulo, e isso passa também por democratizar a política cultural de São Paulo. Acreditamos que a Virada Cultural é um espaço político, e é por isso que também queremos ocupar as ruas, nas quais somos cotidianamente violentadas, rompendo com a cultura do silêncio para criar uma cultura feminista, democrática e cidadã.

Oficina de guitarra para as mulheres. Festival Mulheres no Volante, 2011.

Oficina de guitarra para as mulheres. Festival Mulheres no Volante, 2011.


*Ana Beatriz de Oliveira, Bruna Provazi e Tica Moreno, militantes da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

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  1. […] 16 de Maio de 2013  Por https://marchamulheres.wordpress.com/2013/05/16/onde-estao-as-mulheres-na-virada-cultural/ […]

  2. […] mas o depoimento de Maria, prestado por e-mail, coincide com o momento em que a Virada recebe uma lúcida crítica da Marcha Mundial das Mulheres, que considera insuficiente a participação feminina no evento deste ano. É um campo aberto para […]

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