Culto à beleza

Ana Carolina Radd*

foto-post-clareanaAlguns fatos ocorridos recentemente, como o caso do assédio sofrido por Nicole Bahls, essa tal moda de barriga negativa, a polêmica em torno do projeto de mestrado da estudante Mariana Gomes aprovado na UFF sobre funk e feminismo, me retomaram algumas reflexões que venho fazendo há algum tempo sobre estereótipos e padrões de beleza. O que eles têm em comum? A utilização do corpo da mulher como público, como mercadoria, com a sociedade querendo ditar sobre como a mulher deve ser e pior, definindo o que é ser mulher, no modelo de mulher que é vendido pela mídia. No corpo perfeito, no cabelo perfeito, no culto a beleza e ao corpo que por décadas rondam a sociedade.

Bom, não é de hoje, que transformar o corpo é algo comum, não é algo exclusivo da civilização ocidental contemporânea. São vários os casos exemplares de hábitos comuns de alterações estéticas, como a redução dos pés das chinesas, o alongamento do pescoço com anéis de metal, entre as tribos asiáticas; perfurações de algumas partes do corpo em algumas tribos indígenas. São várias as formas de modificar o corpo em diversas culturas. No entanto, está bem claro que as sociedades contemporâneas sofrem de uma exacerbação da construção do corpo, em contrapartida a uma desvalorização do natural, basta ir da sua casa ao centro da cidade e contar as inúmeras academias de ginásticas, clinicas de estéticas, dar uma olhadinha nas capas de revistas femininas na banca, que estará o modelo escancarado do que é “ser belo” (será que o universal, e sem conceito como disse Kant? Obviamente não era desse belo que o filósofo dizia). “Viajando” um pouquinho mais, pode-se dizer que as sociedades contemporâneas não se livraram do fetichismo das mercadorias que Marx analisou ao tratar sobre as relações sociais no capitalismo, pressupondo a valorização das coisas sobre o sujeito, constatando uma inversão nas relações entre os homens tomam a forma de coisa.

É essa fragilização do indivíduo e a valorização das coisas que permitiu a Freud falar sobre a generalização de uma cultura narcísica onde o corpo está diretamente relacionado com a expressão de poder, não só pela sua capacidade de transformá-lo, mas também pelos possíveis controles e avanços na pesquisa genética. É em consequência a esse excessivo “cuidado” com o corpo, que se justifica o aumento absurdo de academias de ginástica que encontramos em toda esquina, dos spas, dos centros estéticos, clínicas e salões de embelezamento e claro os conselhos que levam as pessoas a procurá-los: “perca tantos quilos”, “dica para o corpo ideal”, “combata a celulite e a flacidez”, etc.

E nessa lógica de exaltação do corpo e culto a beleza quem coordena é o capitalismo, as regras são ditadas pelo mercado de consumo e o surgimento das novas tecnologias, no intuito de que a busca do indivíduo pela imagem perfeita nunca cesse, sempre haverá uma nova busca e o um outro modelo ideal para se alcançar.

No Brasil, a estética de beleza já é um padrão nacional, independente de classe, idade e gêneros. A beleza se tornou uma indústria, e a mercadoria estética é vendida para tod@s aqueles/as que desejam comprar. E assim, enquanto o Brasil vem sendo conhecido internacionalmente pelo culto à beleza, se instaura internamente uma epidemia de insatisfação com tipo físico. De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo sobre imagem e aparência no Brasil, constatou-se que:

86 % das mulheres e 76 % dos homens brasileiros preocupam-se em melhorar sua aparência. Além disso, 62 % das mulheres gostariam de parecer mais jovens, e 56% homens, também. Só 30% das mulheres  brasileiras disseram gostar das próprias rugas; entre os homens, 41% têm a mesma opinião.

 Assim, não há dúvidas de que a sociedade brasileira está diante de uma cultura que tem o corpo como uma dimensão importante, se não fundamental para a felicidade das pessoas. O Brasil já ocupa o terceiro lugar no consumo de produtos de beleza, se tratando de cirurgias estéticas são realizadas uma média de 350 mil cirurgias por ano, o que quer dizer uma a cada três minutos, sendo a metade delas para fins estéticos. Somos ainda o segundo país do mundo na aplicação da toxina botulímica, (método para evitar as rugas).

Bom, e o que os casos acima têm com esses dados? Primeiro, quando se fala que a Nicole Bahls, sofreu o assédio porque se presta a “esse papel” e vende seu corpo na televisão, então mereceu, ela nada mais está fazendo do que o que foi imposto pela sociedade, se ela tem um corpo escultural, é linda e “vende” a beleza dela, ela está apenas reproduzindo o que lhe foi imposto por uma sociedade capitalista e machista. Penso ser um tanto quanto paradoxal, essa busca desenfreada pelo corpo perfeito a La Bahls, e quando a repórter sofre uma violência machista como essa é culpabilizada, por ter um corpão e usar roupas justas. Segundo, barriga invertida, novo padrão que a mídia tenta disseminar, isso pra mim é anorexia, não é padrão de beleza, e um brinde a beleza renascentista. E por último, o objeto de estudo sobre o funk e feminismo que a mídia insiste em dizer que é sobre a Valesca Popozuda, começo parabenizando a Mariana, pelo tema e pela a carta à Rachel Sheherazade, e dizer que assino embaixo, principalmente, na questão colocada da dualidade entre cérebro e corpo, ou seja, uma coisa não exclui a outra e se uma pessoa usa mais uma parte do que outra isso não faz dela uma pessoa melhor ou pior, e se uma mulher (ou homem, embora eu não veja esse dualismo existente quando se trata do sexo masculino) quer cuidar da beleza e usar o corpo para sei lá o que, isso não faz dela uma pessoa menos inteligente, embora ainda há uma insistência em padronizar as mulheres, para vender em uma prateleira como um pedaço de carne, já somos a maioria das universidades brasileiras, e nos viramos em mil horas de trabalho para dar conta das infinitas jornadas, de trabalho, estudo, atividades domésticas, família, e ainda corresponder minimamente com os padrões de beleza que a sociedade covardemente nos exige.

Ana Carolina Radd é mestranda em sociologia e militante da MMM.

Comments

  1. concordo com tudo as mulheres não são mercadorias o mundo pode até ser um mercado

  2. Excelente texto! 🙂

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