Existe amor na diferença

* por Thandara Santos

Você, jornalista da Folha, quer repercutir o assunto do momento (o novo relacionamento da Daniela Mercury) e não sabe como, afinal você não tem nada a acrescentar ao fato de que duas pessoas se amam e estão juntas (ponto!).

O que você faz?

Você joga no Google “Daniela Mercury” + “lésbica”. Nada de novo. Só aparecem as notícias que seus amiguinhos já publicaram antes de você.

Ai você tem a brilhante ideia de tentar a variação “Daniela Mercury” + “lesbian”. BANG!!

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Você é um gênio e aposta que todos os seus amiguinhos das redações vizinhas vão ficar mordidos de inveja, afinal, você conseguiu o furo da repercussão da semana: Daniela Mercury já era lésbica desde muito antes da notícia da semana!! E de quebra você ainda faz questão de dizer que era uma “feminista” a mulher “apaixonada” por ela, afinal, toda feminista é lésbica.

Parabéns. Você acaba de publicar uma matéria estúpida! (que pode ser lida aqui).

Para além da estupidez comum a todos os sites e colunas que se dedicam a escancarar diariamente as vidas pessoais das ditas “celebridades” (entenda-se: pessoas que aparecem a TV, por quaisquer motivos), a notícia acima se insere em um processo mais amplo e histórico, que vem sendo cada vez mais escancarado nas últimas semanas, que é o da incapacidade da grande mídia e dos veículos de comunicação formuladores da opinião pública em lidar com questões relacionadas à sexualidade e, principalmente, à homossexualidade, sob uma lógica minimamente informada pela valorização da liberdade e do respeito.

A eleição de um pastor evangélico, representante de um partido (in)formado a partir de ideais cristãos aplicados ao mundo político, que se manifesta publicamente com declarações homofóbicas, racistas e machistas para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados de um estado formalmente laico é uma contradição flagrante gerada e sustentada pelas contradições estruturais que constituem nosso sistema político e eleitoral. A eleição de Marco Feliciano é politicamente legítima. A criação de partidos a partir de grupos religiosos (de qualquer confissão/matriz religiosa) é constitucionalmente garantida. A representação dos interesses de grupos religiosos (de qualquer confissão/matriz religiosa) em espaços políticos constitucionalmente laicos, no entanto, não é legítima. Essa é a contradição estrutural e histórica que, desde o começo desse ano, foi “descoberta” pela grande mídia, gerou protestos na rede e nas ruas e, finalmente, colocou o bode no meio da sala, tornando evidente o fato de que não sabemos, ainda, lidar com a homossexualidade.

Quando Daniela Mercury expressa sua orientação sexual abertamente e essa não condiz com o padrão heteronormativo que povoa o imaginário coletivo, amparado por novelas, músicas, literatura, diferentes formas e expressões da produção cultural e comunicação social, abala-se o discurso pronto do senso-comum, que coloca a homossexualidade ao lado das patologias e os homossexuais ao lado dos indivíduos “desviantes”, causadores da desordem social, doentes e imorais. Daniela é nacional e mundialmente reconhecida por seu talento, tem filhos, tem casa, já teve marido, ganha seu dinheiro legalmente, anda na rua, passa cheque e muda plantas de lugar.

Fonte: Instagram

Fonte: Instagram

A única diferença entre ela e sua esposa e aquele casal que foi agredido em Salvador no ano passado, em São Paulo em 2011 ou há dois meses no Rio de Janeiro é o fato de que elas podem falar mais alto sobre sua sexualidade. Podem publicar na capa da Folha que ser gay é ser normal. E, como disseram em nota oficial, em uma época em que proliferam Felicianos no silêncio, nas falas abertas e nas violências diárias, falar abertamente sobre a homossexualidade é dizer também que a invisibilidade não nos representa e que a violência não será tolerada.

Espero que a visibilidade dada a Daniela sirva também para visibilizar o fato de que a homofobia mata todos os dias, de que o respeito e a liberdade não servem a todos no Brasil e de que os sistemas públicos de saúde e segurança não estão preparados para lidar com as diferentes expressões de sexualidade.

Em entrevista no dia 07/04/2013 ao Fantástico, da Rede Globo, sobre a publicização de sua relação, Daniela fez questão de cantar a música Sonho Impossível, da Maria Bethânia:

“é minha lei, é minha questão
virar esse mundo
cravar esse chão
não me importa saber
se é terrível demais
quantas guerras terei que vencer
por um pouco de paz”.

Espero ainda poder viver em um mundo em que esse não seja um sonho impossível, em que Daniela e Malu não tenham que vencer mais guerras, em que tod@s possam amar livremente e em que as vítimas da violência homofóbica possam ter também o seu pouco de paz.

A entrevista termina com Daniela dizendo “Viva o amor!”.

E não há nada que se possa acrescentar a isso.

*Thandara Santos é cientista social e militante da Marcha Mundial das Mulheres – São Paulo

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