Quem o machismo matou hoje?

* por Thandara Santos

Acompanhamos, de perto, no último ano, o desenrolar do caso da morte de Mércia Nakashima, a advogada guarulhense de 28 anos que desapareceu em 23 de maio de 2010 e foi encontrada morta em junho, na represa de Nazaré Paulista.

Em dezembro de 2010 foi decretada a prisão preventiva de Mizael Bispo, o ex-namorado de Mércia que, segundo testemunhas, era o principal suspeito de ter atirado no rosto de Mércia e depois jogado seu carro dentro da represa. Mizael fugiu.

Em janeiro de 2011 seus advogados entraram com um pedido junto ao Superior Tribunal de Justiça para que o caso fosse julgado na comarca de Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, e não em Guarulhos, cidade da vítima e do réu, alegando que a “comoção popular” seria muito grande na cidade natal de Mércia e isso poderia atrapalhar o julgamento.

Os advogados estavam certos, afinal, a “comoção” seria mesmo grande. Seria grande em Nazaré ou em Guarulhos. E em fevereiro de 2011 a “comoção” estava lá, na frente do Tribunal de Justiça de São Paulo, no dia em que o STJ negou a remoção do caso para a comarca de Nazaré Paulista e manteve o pedido de prisão preventiva, pra dizer ao covarde foragido que onde tem violência contra a mulher a gente mete sim a colher.

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Integrantes de Marcha Mundial das Mulheres fizeram protesto em frente ao Tribunal de Justiça (Foto: Letícia Macedo/ G1 )

Foragido desde 2010, em fevereiro de 2012 Mizael se entrega no Fórum de Guarulhos. Entra pela porta da frente, acompanhado de seu advogado, e é escoltado por policiais militares até a Corregedoria da Polícia Militar de onde, por ser policial militar da reserva, seria encaminhado para o presídio militar Romão Gomes (Muito “militar” numa frase só, não? Pois é).

No dia 10 de março de 2013 começa o julgamento de Mizael, submetido a júri popular. Ele tenta convencer o júri de que nunca esteve na represa de Nazaré, de que seria incapaz de atirar em qualquer pessoa e de que estaria com uma prostituta no mesmo momento em que Mércia era assassinada. A bota que tinha vestígios da alga da represa levam ele pra lá, as duas armas que ele tinha em casa botam o dedo dele no gatilho e a prostituta, que nunca existiu, compõe a misoginia que faz dele uma pessoa, sim, capaz de assassinar uma mulher, especialmente, uma mulher sobre a qual tem um “instinto de propriedade”, como caracterizou o juiz do caso.

Às 17h38 do dia 14 de março foi lida a sentença final. Mizael Bispo foi condenado a 20 anos de prisão em regime fechado pela morte de Mércia Nakashima.

Entre as perguntas que deveriam ser respondidas pelos jurados para que chegassem a um veredicto uma me chamou mais atenção: “O crime foi cometido por motivo torpe, em razão da insatisfação com o rompimento do relacionamento amoroso?”

A palavra “torpe” tem, entre outros sinônimos: infame, vergonhoso, obsceno, indecente, sórdido, ignóbil, asqueroso e desprezível. É curioso que essa seja a palavra usada para caracterizar o motivo pelo qual Mizael assassinou Mércia, afinal, apesar dos sinônimos fortes e inteligíveis pelo senso-comum, chamar de “torpe” parece mascarar o real motivo pelo qual Mizael assassinou Mércia.

Não se trata de “insatisfação” com o fim do relacionamento. Assim como Bruno não assassinou Eliza por “insatisfação” com o relacionamento que levavam. Lindemberg também não assassinou Eloá por “insatisfação” com o fim do namoro ou por qualquer outro motivo “torpe”. 

O motivo pelo qual 1 em cada 4 mulheres assassinadas no DF entre 2006 e 2011 ter sido morta por seu atual ou ex-companheiro não é simplesmente “torpe”. A razão pela qual 1 mulher é agredida a cada 5 minutos no Brasil não é a “insatisfação” de seus maridos/namorados/companheiros com seus relacionamentos.

Esses homens não são loucos, desequilibrados emocionalmente ou tomados por uma raiva momentânea que os leva a cometer um assassinato. NÃO. Esses homens estão plenamente cientes do espaço que ocupam no mundo e, principalmente, do direito que julgam ter adquirido sobre o corpo e a vida de qualquer mulher com a qual se relacionem.

O motivo não é só vergonhoso, obsceno, sórdido e desprezível. Ele é muito mais do que isso. Ele tem nome, tem raízes estruturais na nossa sociedade, se manifesta na forma como o trabalho doméstico é dividido, na forma como homens e mulheres ocupam o espaço público, na forma como acessam o mercado de trabalho e é amplamente conhecido, apesar de dificilmente nomeável pela impressa, pelo senso-comum e, nunca, pelo sistema de justiça. 

Chama MACHISMO! Tem cara e nome.

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Fonte: Estadão

Achei curiosa também a fala do juiz Leandro Bittencourt Cano que afirmou, após a leitura da sentença, que Mizael só pode ser solto ou liberado para o regime semi-aberto após passar por “exames que comprovem que está apto a ser reintegrado à sociedade”. Fico aqui pensando em quais “exames” seriam esses capazes de mostrar que Mizael não é mais um misógino e que está apto a se reintegrar a essa sociedade e a interagir com mulheres sem que acredite ter posse sobre seus corpos e suas vidas. E, mais do que isso, fico aqui pensando em quais “exames” seriam necessários para provar que essa sociedade está curada do machismo que faz com que casos como esse se repitam a cada segundo, em todas as cidades do país, e está então apta a se reintegrar ao ideal de igualdade e liberdade para tod@s. 

O machismo não é diagnosticado por exames e muito menos curado como doença. Ele é vivenciado todos os dias por todas as mulheres nas ruas, na universidade, no ambiente de trabalho e dentro de suas próprias casas e só será transformado por essas mesmas mulheres, todos os dias, nas ruas, na universidade, em seus ambientes de trabalho e dentro de suas próprias casas, até que todas sejamos realmente livre.

*Thandara Santos é cientista social e militante da Marcha Mundial das Mulheres – São Paulo

 

Comments

  1. Cadeia perpetua para todos eles!

  2. Me pergunto o que se passa na cabeça de algumas mulheres que se encantam por homens assim, mas não como no caso de Mércia. Mulheres que começam a enviar cartas e tentar estabelecer um relacionamento amoroso com um criminoso como este depois que ele é condenado e preso…

    Será a sensação de “poder”? De conquistar um bandido, machista, assassino? A ideia de que se pode “curar” este homem de seu ciúmes doentio, de sua raiva desmedida, de seu machismo extremo? =/

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