O que é ser lésbica?

por Célia Alldridge

Esse texto foi inspirado nas reflexões coletivas durante a oficina “O que é ser lésbica?” organizada por militantes da Marcha Mundial das Mulheres em Sao Paulo, no dia 9 de março de 2013 na cidade de São Paulo.

O que é ser lésbica?

foto - terezinha vicente Quando nos fizemos essa pergunta, coletivamente, durante a oficina de mesmo nome no sábado passado, nosso objetivo não era de “essencializar”, encaixotar, reduzir… Ao contrário, nossa ideia era de compartilhar e debater a diversidade de experiências que vivemos como lésbicas e bissexuais em casa, na rua, no trabalho, na nossa militância…

No contexto atual, temos avanços importantes em relação ao reconhecimento de alguns de nossos direitos formais, tais como o direito ao casamento civil homoafetivo no estado de São Paulo desde o 1º de março de 2013, e também assistimos a uma crescente mobilização em favor dos direitos da população LGBT, como exemplo mais recente, a manifestação na Avenida Paulista no mesmo dia da nossa oficina: cerca de cinco mil pessoas na rua contra a eleição do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Ao mesmo tempo, e de forma contraditória, aumentam as reportagens na mídia de agressões lesbofóbicas, muitas vezes acompanhadas por impunidade (agressão no metrô de São Paulo, estudante espancada na UnB, etc); o mais recente caso sendo em Santa Bárbara D’Oeste (SP) onde um casal de mulheres recebeu, esse sábado passado, uma carta do grupo Movimento Homofobia Já com ameaças e conteúdo homofóbico. Lembrando que a violência contra a população LGBT ainda não é considerada crime, uma vez que, em 2011, os congressistas e deputados/as conservadores conseguiram bloquear a votação do PLC122/06, um Projeto de Lei que visa criminalizar a descriminação motivada pela orientação sexual e identidade de gênero.

Nesse cenário de ofensiva moralista e conservadora (muitas vezes ligado às instituições religiosas fundamentalistas), a heterossexualidade obrigatória continua sendo reforçada como um dos pilares que sustenta a sociedade patriarcal e capitalista. A sexualidade é padronizada conforme os papeis ‘naturais’ de mulheres e homens, perseguindo e estigmatizando como “minoria” qualquer um/a que fuja desse padrão.

Made by Samsung DVC Mas nós recusamos o rótulo de “minoria”… Somos sujeitos políticos, protagonistas das nossas histórias e da construção do mundo que queremos. Somos rebeldes, questionando e desconstruindo a heteronormatividade na teoria e na prática. “Ser lésbica, é antes de tudo, um ato político [reflexão unânime das participantes da oficina!]. É ser revolucionária por se portar contra o padrão pré-determinado para você. […] Ser lésbica e demonstrar isso, é remar contra a maré heteronormativa, que te julga – te culpa – te condena – te violenta – te massacra pelo simples fato de você querer exercer sua liberdade bem como todas as outras pessoas que o fazem diariamente” (Jéssica Ipólito, companheira da oficina, em reflexão nas redes sociais).

Recusamos a redução da nossa sexualidade às fantasias e fetiches masculinos. Nossa sexualidade não se constrói em função dos homens. Não somos objetos sexuais e não precisamos de um homem para sentir prazer. A nossa sexualidade não é uma ‘opção’, nem uma ‘preferência’. Ela é válida e lutamos para vivenciá-la com autonomia!

 “Se o corpo, se o corpo, se o corpo é da mulher,
Ela dá para quem quiser, inclusive pra outra mulher!”

Vivenciamos nossa lesbianidade de mil maneiras. Ela “faz sentido”, é “natural”, “sentimento”, “emoção intensa”, é “ser livre”, é um caminho diferente para cada uma, que começou na adolescência ou na fase adulta, “desde sempre” ou depois de um tempo de relacionamentos heterossexuais.

Ao longo desse caminho, experimentamos o isolamento, a invisibilidade, a “não-aceitação” por parte de família, amigos/as, colegas de trabalho. Sofremos preconceito dentro do sistema de saúde, especificamente quando temos que ir ao ginecologista (é expressivo o número de lésbicas que não vão regularmente ao ginecologista), onde o moralismo e falta de capacitação de profissionais dificulta nosso acesso. Toda vez que temos a coragem de dizer que nos relacionamos e / ou transamos com meninas, seguramos o fôlego em preparação para o estranhamento e o momento de silêncio que geralmente seguem. Toda vez que seguramos a mão de outra mulher na rua, nos preparamos para as reações “normais” – olhares curiosos, xingamentos, “piadas” machistas (do tipo “Está faltando alguma coisa? Precisam de ajuda?”) e ameaças.

 “Sou feminista, não abro mão,
Da liberdade do meu tesão!”

O feminismo é a base que nos sustenta nas nossas vidas. Ele permite que façamos o vínculo entre nossas cabeças e corações, dando sentido racional à aquilo que sentimos fisicamente e emocionalmente, o tesão e o amor por outra mulher. O feminismo nos oferece explicações estruturais para a opressão que vivenciamos por sermos mulheres e lésbicas, baseada na divisão sexual do trabalho e na violência como ferramenta de controle das nossas vidas, nossos corpos e nossa sexualidade. E nos mostra o caminho da luta coletiva na construção das nossas alternativas e demandas.

Somos lésbicas e bissexuais. Somos negras, brancas, indígenas. Somos trabalhadoras, estudantes e militantes. Temos 20 anos e 50 anos. Somos solteiras, casadas e companheiras.

A próxima oficina da Marcha Mundial das Mulheres – São Paulo, para debater para debater a in-visibilidade lésbica, será no 13 de abril às 10h. Todas estão muito bem vindas! Para maiores informações: marchamulheres@sof.org.br

*Célia Alldridge é militante da Marcha Mundial das Mulheres, São Paulo

Comments

  1. “um Projeto de Lei que visa criminalizar a descriminação motivada pela orientação sexual e identidade de gênero.”

    Nesse caso, a grafia correta é DISCRIMINAÇÃO, com I.

    😉

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