O 8 de março nosso de cada dia

Por: Bruna Provazi*

Há pouco tempo atrás, um amigo me perguntou se era eu quem fazia a página “Feminista Cansada”, que é pra mim uma das páginas mais legais do Facebook e do Twitter. Expliquei a ele que, infelizmente, não havia pensado nesse ótimo título antes, mas que era exatamente assim que eu me sentia. Hoje, devo dizer que me sinto uma feminista exausta mesmo. Faz sete anos que comecei a militar no feminismo de forma organizada (em um coletivo de mulheres), e seis anos que milito na Marcha Mundial das Mulheres, e é triste pensar que às vezes parece que nada mudou, nesse brevíssimo espaço de tempo. Ou talvez pouca coisa tenha mudado, pra ser mais justa com a gente que tá na batalha diária contra o machismo.

 Semana passada, passei pela infeliz experiência de ir até a rua Santa Ifigênia, no centrão de São Paulo. Bem… eu diria que me sinto mais confortável passando em frente a uma obra ao meio-dia do que tentando comprar um eletrônico na Santa Ifigênia. É incrível como os caras não tem pudor algum em falarem as coisas mais nojentas para nós mulheres na rua, simplesmente pelo fato de sermos mulheres na rua, não importa se estamos de moletom, se estamos “todas cagadas” ou de vestidinho. Pois é, violência sexual é questão de poder, não de sexo. E é um dispendimento tão grande de energia tentar provar pra um vendedor de uma loja de eletrônicos que 1) sim, eu sei o que quero comprar, apesar de ser mulher. 2) não, não estou interessada nele, apesar de ser mulher e de ele ser homem, que me sinto exausta só de pensar em repetir a experiência. E penso que a resposta pra isso é a gente se apropriar logo da técnica e da tecnologia. E todas as iniciativas que tenham como objetivo quebrar essa linha invisível que diz que esse não é nosso espaço são muito bem-vindas. Haja Girls Rock Camp… Haja Festival Mulheres no Volante

 Pra fechar o combo sexista da semana, na véspera do dia 8 de março, fizemos um ensaio de batucada da Fuzarca Feminista à noite, em uma praça, no centro de São Paulo: só mais uma prova do quão ousado e transgressor é para uma mulher, ocupar o espaço público, em 2013, segunda década do século XXI. A reação dos caras que passavam à desafiadora presença de mulheres na rua, naquele horário, fazendo algo por conta própria se refletia em olhares atravessados e comentários indesejados. Porém, nessa hora, contávamos com algo além do nosso discurso a nosso favor. Os próprios batuques e o fato de estarmos ali, juntas e organizadas, se transformavam em armas com a capacidade de nos empoderar diante da desvantagem histórica. Depois do ensaio, fomos colar lambe-lambes: nova prova de fogo.

 Na rua, ao lado de pichadores que circulavam tranquilamente acima dos muros e das fachadas dos prédios – até serem pegos pela polícia -, nós, sempre duplamente alertas, sabendo que o perigo maior são os caras nojentos pelo caminho, ouvimos os mais diversos pitacos: se pode ou não pode, se é certo ou errado, se está torto ou não está. Quem foi que perguntou mesmo? Não importa, somos mulheres no espaço público, à noite. O pressuposto já é que estamos erradas. Mas, no meio disso tudo, vivenciamos uma daquelas cenas que confirmam que estamos claramente do lado certo. Uma moça nos parou, interessada, pedindo alguns cartazes para colar no seu bairro (Grajaú). Seguimos mais felizes pra casa.

8 de março em São Paulo. Foto: FdE

8 de março em São Paulo. Foto: FdE

Motoqueiros tentam furar manifestação e são bloqueados pelas mulheres e pela polícia em São Paulo. Foto: FdE

Motoqueiros tentam furar manifestação e são impedidos pelas mulheres e pela polícia em São Paulo. Foto: FdE

E foi com toda essa bagagem de acontecimentos corriqueiros recentes que fui, ainda mais inspirada, pro 8 de março. Na bolha igualitária do meu Facebook, não havia uma só babaquice a respeito de flores e bombons para as mulheres. Imagens e palavras de luta brotavam na revolucionária timeline (linha do tempo) de quem tem mais companheiras feministas que amigos no Facebook. A realidade, sabemos, é bem diferente. Por essas e outras, fomos, mais uma vez, pra praça da Sé, coração de São Paulo, em pleno horário de almoço de sexta-feira – e não pras ensolaradas (e nem por isso menos dignas) manifestações de final de semana na avenida Paulista. Ali, conversamos com as pessoas dos mais diversos lugares, mostrando a importância de se trocar as infames rosas por palavras-de-ordem.

Fuzarca Feminista em ação no 8 de março. Foto: FdE

Fuzarca Feminista em ação no 8 de março. Foto: FdE

"Pode chover, pode molhar, sou feminista até o machismo acabar!". Foto: FdE

“Pode chover, pode molhar, sou feminista até o machismo acabar!”. Foto: FdE

 Seguimos em marcha pelo centro, batucando, cantando, cuspindo fogo e quebrando estereótipos, fizesse sol ou caísse aquele temporal que caiu. Tudo isso pra mostrar que estamos em luta pelo fim da violência machista, racista e lesbofóbica, pelo cumprimento da lei Maria da Penha, pela legalização do aborto para garantir a saúde das mulheres e a autonomia sobre seus corpos, contra a exploração das mulheres pela prostituição, pelo direito a recebermos salários iguais pelo mesmo tipo de trabalho, por creches públicas em horário integral e de qualidade, pela divisão dos trabalhos doméstico e de cuidado com a família, pela licença parental (alternada mãe e pai), pelo direito à amamentação no trabalho, pelo direito à moraria digna, pela ampliação do acesso à terra e pela democratização dos meios de comunicação.

Foto: Duda Carvalho.

Fuzarca Feminista na concentração. Foto: Duda Carvalho.

 Estamos em luta, no espaço público, pela ocupação do espaço público, que nos é cerceado diariamente pelo machismo e pela violência sexista. E continuaremos a recusar flores, bombons e mensagens bonitinhas no “nosso dia” enquanto nossa luta para sermos respeitadas enquanto mulheres ainda durar todos os dias.

*Bruna Provazi é militante da Marcha Mundial das Mulheres e organiza o Festival Mulheres no Volante.

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