A luta da juventude deve ser também uma luta feminista

Por Maria Júlia*

Entre o fim do mês de março e início de abril, diversas organizações irão para as ruas em todo o Brasil, na Jornada Nacional de Lutas da Juventude Essa é uma iniciativa de vários grupos, partidos, coletivos e movimentos, com o objetivo de reivindicar mais direitos e colocar a juventude brasileira em movimento. E nós, da Marcha Mundial das Mulheres, estamos participando dessa articulação.

Mesa inicial da Plenária. A MMM estava na mesa.

Mesa inicial da Plenária. A MMM estava lá.
Foto: Pedro Henrique Freitas

Sâo muitas as reivindicações e pautas da jornada. Temas como o genocídio da juventude negra, 10% do PIB para a educação, democratização dos meios de comunicação, cotas raciais e sociais, entre muitos outros foram discutidos sábado, dia 23 do mês passado, na Plenária Nacional da Jornada, que serviu para organizar nacionalmente a ação. O debate feminista também esteve presente, através de pautas como a igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho, direitos sexuais e reprodutivos, mercantilização do corpo das mulheres e a violência machista

Mas, porque a juventude deve pautar o feminismo, afinal?

Bom, basicamente, porque todas as mulheres foram, um dia, meninas e jovens. E o machismo não começa a agir somente quando as mulheres tornam-se adultas. Grande parte da juventude que sofre com baixos salários, por exemplo, é composta por mulheres, que ocupam os postos mais precários de trabalho, e recebem menos que os homens na mesma ocupação.

De certa forma, todos os problemas que afetam as mulheres em geral afetam as jovens, porém, é preciso pensar em como essas questões se manifestam no segundo grupo. A questão do trabalho doméstico, por exemplo, afeta a todas as mulheres, mas devemos pensar no porque isso diz respeito também às jovens. Muito se fala em trabalho infantil, mas raramente o trabalho doméstico é trazido para o debate. Sabemos que, na ausência de uma outra mulher na casa, são as meninas que ficam responsáveis pelo trabalho de cuidados. Não nos é familiar a história de jovens que precisam faltar na escola porque têm que cuidar do irmão ou da irmã mais nova?

Podemos citar, ainda, a questão da prostituição: sabemos que esse é um negócio principalmente de “mercadorias novas”, que ainda estão dentro do “prazo de validade”, portanto, afeta em grande parte as mais jovens (principalmente entre 13 e 25 anos). Com a aproximação da Copa do Mundo, sabemos que há uma intensificação do turismo sexual (em 2006, na Alemanha, cerca de 40 mil mulheres prostituídas foram levadas ao país), e não à toa brotam projetos de regulamentação da prostituição justamente às vésperas do evento. Ao contrário do que afirmam os legalistas, a prostituição não é um trabalho qualquer, muito menos uma demonstração da livre sexualidade feminina, e essa questão deve estar na ordem do dia.

Há, ainda, a violência machista, que afeta a todas nós, mulheres. Sofremos violência no transporte, no trabalho (pensando principalmente nas mulheres mais vulneráveis, mais novas, como estagiárias), pelo namorado, marido, e muitas vezes pai e padrasto. No que diz respeito à Lei Maria da Penha, ressaltamos algumas coisas: muitos têm dificuldade de entender a violência de um namorado como violência doméstica e que, portanto, deve ser tratado pela Lei Maria da Penha, já que não se trata oficialmente de uma “família”. Além disso, uma nova reforma no artigo 129 da Lei traz retrocessos às nossas conquistas, colocando a violência doméstica como um mal menor, e permitindo a substituição da pena por “prestação de serviços à comunidade”.

Por fim, pautamos os direitos sexuais e reprodutivos, e aqui, trazemos a nossa velha (porém muitíssimo atual) palavra de ordem: Educação sexual para decidir, contraceptivos para prevenir, e aborto seguro para não morrer! Apesar da enorme banalização do sexo na mídia, esse ainda é um assunto não discutido, principalmente com a juventude. Não há educação sexual nas escolas, e nem a distribuição gratuita de métodos contraceptivos, como preservativos (tanto masculinos como femininos). Para coroar, há a criminalização do aborto, que serve apenas para aumentar os índices de mortalidade materna – principalmente das mulheres jovens, negras e pobres, que não têm dinheiro para pagar uma clínica, e acabam por submeter-se a métodos inseguros para interromper uma gravidez indesejada.

E porque as feministas devem pensar a juventude?

Além de todos os motivos citados para debatermos a questão das mulheres jovens, há de se lembrar uma coisa: existe um mito de que a juventude não se mobiliza mais, e de que não há mais porque lutar, afinal, hoje vivemos em um país democrático e luta é coisa daqueles que enfrentaram os anos de chumbo. Aliado a isso, há um grande sentimento de descrença na organização e na ação política.

Com relação às mulheres, o primeiro ponto vem com grande força: há um falso consenso de que hoje temos plena liberdade, de que simplesmente colhemos o fruto plantado por aquelas que vieram antes de nós e que, portanto, o feminismo seria algo ultrapassado. É verdade que obtivemos grandes conquistas, mas é uma grande falácia afirmar que não precisamos mais lutar. O feminismo é extremamente atual, justamente porque o machismo continua aí e não vai desaparecer tão cedo.

É preciso, portanto, que acabemos com essa ideia, que serve somente à imobilização. Precisamos mostrar que o feminismo não é algo somente de senhoras que lutaram em um passado longínquo: muito pelo contrário, é uma luta que nós, mulheres jovens, devemos abraçar.

Colocamos como uma tarefa para o movimento feminista, portanto, chegar à juventude, e é isso que queremos ao participar dessa Jornada de Lutas. Queremos mostrar que pra mudar o mundo tem que mudar a vida das mulheres, e pra mudar a vida das mulheres a gente precisa mudar o mundo. E isso a gente só vai conseguir indo pra rua, fazendo muito barulho e conseguindo mais gente pra nossa luta.

jornada2

Unidade para mudar o Brasil
Foto oficial

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da MMM de São Paulo

Comments

  1. bianca barbosa says:

    bom dia, tenho uma pergunta para as militantes da MMM, por si a caso voces tem alguma estratégia para convocar as mulheres que estao fora dos coletivos, dos movimentos e das organizaçoes??
    Somos milhares de mulheres que estao fora desse mundo mas que sao atravessadas cotidianamente pela violencia machista e pelo patriarcado. Nossas primas, amigas, tias e maes que desconhecem a militancia de uma forma institucional, mas que batalham diariamente por uma vida digna e sem medo.
    Urge uma convocatoria massiva as mulheres brasileiras, cariocas, paulistanas, pernambucanas…!!
    Março e abril estao chegando e seria lindo ver todas misturadas por uma só causa!!
    Abraços a tod@s!!

  2. Maria Júlia says:

    Oi, bianca!

    O seu comentário é muito pertinente! Um dos desafios dessa jornada é mobilizar a juventude que não está em organizações, e, é claro, as mulheres também. Um primeiro passo, acredito, é ter mais organizações e coletivos de mulheres construindo a jornada, porque aí o nosso alcance aumenta. Outro ponto é realizar atividades (debates, atividades de agitação etc), fazer cartaz, lambe-lambe, e/ou panfletagens que dialoguem com as mulheres, pra que elas também participem da jornada, e continuem nessa luta depois.

    E vamo que vamo =) pra juntar um monte de mulher pra essa jornada, e pro resto da luta, que não se encerra nela!

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