Por que nem Amsterdã quer as casas de prostituição legalizadas

*Por Julie Bindel

Germany's Escort Girls Anticipate Increasing Demand During World CupVocê se lembra da comédia brilhante com Harry Enfield e Paul Whitehouse em que ambos interpretavam policiais descontraídos em Amsterdã, que se gabavam por não ter mais que lidar com o crime de homicídio na Holanda, pois os holandeses haviam legalizado o homicídio? Não ria. Em 2000, o governo holandês decidiu facilitar ainda mais a vida de cafetões, traficantes e fregueses, legalizando o já enorme e altamente visível mercado da prostituição. A lógica da legalização era tão simples quanto enganosa: para tornar as coisas mais seguras para todos. Tornar esse um trabalho como outro qualquer. Uma vez que as mulheres fossem libertadas do submundo [através da legalização], os bandidos, traficantes de drogas e traficantes de pessoas iriam automaticamente se afastar.

Doze anos depois, podemos ver os resultados deste experimento. Em vez de proporcionar uma maior proteção para as mulheres, a legalização simplesmente expandiu o mercado. Ao invés de limitar as casas de prostituição a uma parte discreta (e evitável) da cidade, a indústria do sexo se espalhou por toda parte de Amsterdã – inclusive na rua. Ao invés de terem adquirido direitos no “local de trabalho”, as prostitutas descobriram que os cafetões eram tão brutais quanto sempre foram. O sindicato financiado pelo governo e criado para protegê-las tem sido evitado pela grande maioria das prostitutas, que permanecem assustadas demais para reclamar.

Cafetões, sob a legalização, foram reclassificados como gestores e empresários. Os abusos sofridos pelas mulheres são agora chamados de “risco ocupacional”, da mesma forma que uma pedra que cai no pé de um pedreiro. O turismo sexual cresceu mais rápido, em Amsterdã, do que o turismo regular: como a cidade se tornou o local de prostituição da Europa, mulheres são importadas por traficantes da África, Europa do Leste e Ásia, de modo a suprir a demanda. Em outras palavras, os cafetões permaneceram, mas tornaram-se legítimos – a violência ainda é prevalecente, mas se tornou mera parte do trabalho e o tráfico aumentou. Suporte para que as mulheres deixem a prostituição é quase inexistente. A obscuridade inata do trabalho não foi desmanchada pela benção legal.

O governo holandês esperava jogar o papel de cafetão honorável, ao tomar sua parte no lucro da prostituição, através da taxação. Porém somente 5% das mulheres são registradas para essa taxa, pois ninguém quer ser conhecida como uma prostituta – por mais legal que seja. A ilegalidade simplesmente tomou uma nova forma, com o aumento do tráfico, das casas de prostituição não licenciadas e da cafetinagem. Com o policiamento completamente fora de cena, foi fácil quebrar as leis que permaneceram. Agenciar mulheres dos países não pertencentes à União Européia, desesperadas por uma nova vida, continua sendo ilegal. Mas nunca foi tão fácil.

A legalização impôs casas de prostituição em áreas por toda a Holanda, independente de quererem ou não. Mesmo que uma cidade ou vila se oponha ao estabelecimento de bordéis, ela deve permitir a instalação de pelo menos um – caso contrário, estaria contrariando o direito básico federal de trabalhar. Para muitos holandeses, legalidade e decência foram irremediavelmente divorciados. Isso tem sido um fracasso social, jurídico e econômico – e a loucura, finalmente, está chegando ao fim.

O “boom” das casas de prostituição terminou. Um terço das casas de prostituição de Amsterdã foi fechado devido ao envolvimento do crime organizado e de traficantes de drogas, e do crescimento do tráfico de mulheres. A polícia agora reconhece que o bairro da luz vermelha se transformou em um centro global para o tráfico de pessoas e lavagem de dinheiro. As ruas foram infiltradas por gangues aliciadoras em busca de meninas jovens e vulneráveis, para serem vendidas a homens como virgens que farão tudo o que lhes for pedido. Muitos dos envolvidos no comércio turístico regular de Amsterdã- os museus e canais – temem que seus visitantes estejam desaparecendo junto com a reputação da cidade.

Eu estive lá com Roger Matthews, um professor de Criminologia na Universidade de Kent, e renomado especialista em comercio sexual. Os políticos com quem ele falou confessaram que a legislação provocou uma grave confusão em uma situação já sem salvação. O trabalho de reparação está começando – a ver qual beneficio isso trará. As mulheres que alugam as vitrines em breve serão obrigadas a se registrarem como prostitutas. Isso será tão ineficiente como obrigá-las a pagar taxas. Quando o falso sindicato fundado pelo governo para supostamente para representar as pessoas envolvidas na prostituição fez um recrutamento massivo de filiações depois da legalização, apenas cem pessoas aderiram, em sua maioria strippers e dançarinas de ¨lap dancing¨.

Ao invés de remover a marginalidade do distrito da luz vermelha, a área se tornou mais depressiva que nunca, cheia de turistas bêbados e em busca de sexo, que agem como consumidores que gostam de olhar vitrines, apontando e rindo das mulheres que eles vêem. As mulheres locais passam pelas ruas com as cabeças baixas, tentando não ver as outras mulheres expostas nas vitrines como cortes de carne em um açougue. Homens podem ser vistos entrando nas casas de prostituição ou tentando pechinchar o preço do programa. Outros são vistos levantando o zíper da calça. Muitas das mulheres parecem bastante jovens, todas elas entediadas e a maioria sentada em um banquinho, usando roupa íntima e jogando com seus celulares.

Em nenhum outro lugar do mundo a prostituição de rua é legalizada porque as pessoas não a querem à vista. Onde há uma rua para o comércio sexual, mulheres são abordadas à caminho de casa por fregueses e, geralmente, camisinhas, instrumentos de drogas e cafetões são visíveis. Mas a Holanda decidiu em 1996 que a prostituição de rua era um modo decente de ganhar dinheiro e criou várias “áreas de tolerância” para homens alugarem, com segurança, uma vagina, ânus ou boca por alguns minutos. Carros dirigem para dentro de cubículos. Sendo a Holanda, há uma área especial para ciclistas. Mantenha a prostituição verde!

No dia depois da zona de Amsterdam abrir, centenas de residentes da vizinhança ocuparam as ruas em protesto. Foram precisos 6 anos para o prefeito admitir em público que o experimento tinha sido um desastre, um imã para mulheres traficadas, traficantes de drogas e meninas menores. Zonas em Rotterdam, The Hague e Heerlen foram fechadas por circunstâncias similares. A direção desta viagem é clara: a legalização será revogada. Legalização não tem sido emancipação. Tem resultado, pelo contrário, no tratamento terrível, desumano e degradante das mulheres, porque declara aceitável a compra e venda da carne humana. E, enquanto o governo holandês se reforma de cafetão para protetor, este terá tempo para refletir sobre os danos causados ​​às mulheres apanhadas nesta experiência social calamitosa.

*Texto originalmente publicado em The Spectator, traduzido coletivamente por Bruna Provazi, Clarisse Goulart, Rafaela Rodrigues, Thandara Santos, Tica Moreno e Sarah de Roure. 

Comments

  1. Então a solução é manter a prostituição ilegal?
    Acho que não! Porque um modelo de legalização falhou, não quer dizer que o atual modelo de proibição é bom – até porque proibir a prostituição, que não é só de mulheres, nunca fez com que ela deixasse de existir. E as mulheres que querem de prostituir? E os homens que se prostituem?
    Por que ser anti-prostituição desse jeito?

    • Maria Fernanda says:

      Bom, assassinatos acontecem desde de que o mundo é mundo, vamos legalizar então?
      É preciso se questionar quanto a esse “querer”… imensa maioria das mulheres que se prostituem – e homens – fazem isso porque estão em situação de pobreza e tão logo conseguem uma brecha saem dessa vida.
      Não falo aqui das prostitutas modelo globo que se colocam nessa condição para manter padrões de consumo. Essas quando saem do auge da juventude e portanto dos padrões de beleza, tem que mudar de ramo porque já não servem mais para o mercado…
      Não quero um mundo onde a sexualidade é uma mercadoria.

  2. Sou a favor da legalização e gostei muito dos argumentos apresentados. Não conhecia a realidade de Amsterdã e realmente o texto me fez pensar sobre o assunto. Obrigado por compartilhar essa experiência.

  3. Achei o texto sensacionalista e moralista. Desculpa, mas a situacao na Holanda nao eh bem assim.

    Tem um problema de trafico de pessoas? tem. Como tem no mundo inteiro, seja a prostituicao legalizada ou nao. Onde houver patriarcado, capitalismo e leis racistas de imigracao, havera trafico de pessoas. As prostitutas nas vitrines sao em sua maioria imigrantes do leste europeu, africa e america latina, e nao holandesas? Sim. O que tb demonstra que machismo esta interconectado com a exploracao capitalista mundial. Tem turista bebado olhando as vitrines como quem olha um zoologico? Tem.

    Porem, esse texto sensacionalista exagera as coisas, dando a entender que em amsterdam ta cheio de prostituta na rua, que a cafetinagem foi de certo modo tb legalizada. E nossa, nao eh bem assim MESMO. Eh obvio que a legalizacao nao elimina os riscos de violencia, nem o estigma, nem a exploracao, nem o machismo inerente a essa atividade. O patriarcado e o capitalismo nao deixam de existir se a prostituicao eh legalizada, o que a legalizacao faz eh tentar estabelecer parametros minimos para que as mulheres sejam menos exploradas — e nao nao exploradas at all. Por exemplo: em uma perspectiva marxista, as leis trabalhistas eliminam a exploracao do proletariado? Nao. Mas alguem ai gostaria de viver sem leis trabalhistas? Elas estabelecem parametros minimos para essa exploracao, tentar impedir trabalho escravo, etc. Quem espera que legalizacao traga emancipacao eh ingenuo, ponto.

    O que esse texto faz eh pegar uma onda conservadora, moralista mesmo, que rolou na Holanda devido ao governo mais a direita que eles elegeram nas penultimas eleicoes (o que deve mudar agora, ja que a coalizao eleita ano passado esta mais pro centro) e tratar como se fosse uma reacao feminista, pra resolver os problemas de trafico e cafetinagem. Nada a ver.

    E outra: o que a autora oferece como alternativa a esses problemas? Proibir tudo de novo e jogar o trafico e a exploracao ainda mais pra debaixo do tapete, como eh no Brasil e em diversos outros paises? “Deslegalizar” a prostituicao vai fazer com que a cafetinagem e o trafico parem? Vai fazer com que a prostituicao deixe de existir? Nao.

    Todo o apoio a discutirmos como a prostituicao eh uma relacao de objetificacao. Todo o apoio a nao tratarmos a prostituicao como uma transacao entre iguais, porque nao eh mesmo. Mas nao curto esse feminismo que flerta com o moralismo, que simplesmente trabalha no plano ideal das coisas (“nao deve existir prostituicao, ponto”), sem se importar com as mulheres que estao nessa situacao. Na minha opiniao, essa linha de pensamento nao eh muito diferente daqueles que defendem que as leis brasileiras sobre aborto permanecam como estao, porque acham que, num plano moral, aborto nao deveria existir. Soh que a questao eh que existe, e proibi-lo na lei nao vai impedir que exista.

    • Marjorie, bacana sua ponderação sobre a realidade política imediata da Holanda, acho que vale como aprendizado pra gente quando vai traduzir textos, ficar ligada nesse tipo de coisa.

      No entanto, considerando outros materiais, incluindo pesquisas, sobre o “depois” da legalização acho difícil encarar o texto como simplesmente sensacionalista e absolutamente longe da realidade. Além disso, acho que temos que tomar cuidado com as perspectivas que assumimos no debate…

      Nesse sentido têm algumas questões que vc levanta com a quais quero dialogar e que embora apresentada em tópicos, estão, a meu ver, estritamente articuladas…

      1) Sobre a importância de saber o que se passou na Holanda…
      É fato – e vc parece concordar com isso – que a legalização não trouxe as benesses para as mulheres que foram anunciadas por aqueles/as que as defenderam. E isso não é pouca coisa, mesmo diante da constatação resignada – e ao meu ver equivocada – de que é melhor do jeito que está agora do que era antes. Isso porque num contexto, como o brasileiro, em que o lobby pela legalização aumenta por conta dos grandes eventos, é sim muito importante que a realidade de experiências como a Holanda – e as reflexões sobre elas – sejam amplamente tratadas, conhecidas e debatidas por nós.

      2) Dos males o menor….
      Acho equivocado a gente se pautar pela linha do “prostituição sempre existiu e sempre vai existir” e a única forma de lidarmos com as mulheres nessa situação é legalizar a profissão. Tal ideia mascara uma questão muito importante – e que frequentemente as pessoas se esquecem nesse debate – que é o contexto de cada país. No Brasil, as prostitutas não são criminosas, não é crime prostituir-se no Brasil. Crime e tirar proveito pecuniário de quem o faz. Isto é, o cafetão/tina é que são criminosos.

      3) Legalizar a prostituição é não fechar os olhos para essas mullheres…
      Aqui a gente vê a expressão de resignação cínica que procura justificar, com migalhas para as mulheres, a formalização de sua exploração, porque parece mais fácil – e útil e lucrativo – usar a política pública e o Estado para regulamentar esse mercado, isto é, deixar que o mercado se “auto- regule” do que pensar políticas públicas que promovam autonomia econômicas das mulheres – e portanto que não perpetue a divisão sexual do trabalho – para que mulheres prostitutas, e as que ainda não são, não vejam a prostituição como “alternativa”.

      4) Criminalizar a prostituição não impede que ela ocorra, tal qual com o aborto….
      Acho extremamente imprudente para o movimento feminista tratarmos a prostituição como o aborto, apenas invertendo o sinal. Para a nós a legalização do aborto tem a ver com autonomia dos nossos corpos e vidas. É simplesmente o oposto da prostituição, pelo que li, vc concorda que esta estamos falando de tudo menos de autonomia e liberdade, não é?

      Sigamos no debate….

  4. sem citacoes, sem referencias a estudos, nem mesmo a nomes dos politicos, que em outra reportagem sao identificados como ministros cristaos conservadores. pura conjectura e especulacao sem fundamento.

    “At the expense of meaningfully engaging with sex workers, EWL presents an ideological and moralistic agenda that is dangerously ill-informed. Attempting to end the sex industry, the call presents an appraisal of the ‘Swedish Model’ of criminalising demand. Evidence of the success of this approach is limited and whilst EWL present one side of the argument, there is substantial evidence to suggest that in reality, the Swedish model has significantly reduced the safety and well-being of sex workers in Sweden. Simultaneously, the sex worker groups in Sweden have made clear that the legislative framework has resulted in increased vulnerability of sex workers to violence and abusive practices. Furthermore, the absence of a rights-based legal framework for sex workers in Sweden has meant that in cases where rights are violated, sex workers have little or no recourse to justice. By giving stigma a legal stamp in the context of further criminalisation, sex workers are further pushed to the margins of society. It is within this climate of fear and repression that the rights of sex workers are more open to being breached.”

    http://www.nswp.org/news-story/nswp-statement-reponse-ewl-call-prostitution-free-europe

  5. Reblogged this on Poética de Botequime comentado:
    Por que nem Amsterdã quer as casas de prostituição legalizadas

  6. Venho acompanhando de perto toda a discussão sobre os projetos de descriminalização envolvendo a atividade das Profissionais do Sexo. Todo o projeto de Asterdam sempre foi muito complexo. Tratava-se de uma lei Regulamentarista – e não descriminalizatória como a de Jean Willys – que tinha como objetivo “controlar” a prostituição. Ela tinha um fundo progressista, mas no final virou uma foma de isolar e confinar a prostituição. O texto publicado, entretanto, parte da análise de que tal lei iria diminuir a prostituiçao, sendo que esta nunca foi um dos objetivos dessa lei, evidentemente. Nesse sentido, é óbvio que ela não alcançou os objetivos. A reportagem está correta em dizer que ao contrário, aumentou de forma significativa a prostituição. E isso também é obvio. Várias mulheres que exerciam a prostituição de forma clandestina em outros paises, sujeitos a violencia da policia migratória, viu na cidade vermelha a possibilidade de maior segurança. O foda é que, por um embaralhamento político de concepções, considera-se que se alguma mulher migra para se prostituir, ela é considerada automaticamento “traficada”. Por isso cresce tanto o número de reportagens sobre mulheres “traficadas”. O termo correto, na grande maioria dos casos, deveria ser “mulheres migrantes”. Nesse sentido, vários estudos vem mostrando na verdade, que o recuo de Amsterdã sobre esse assunto tem a ver com um problema que os europeus detestão mais do que tudo: a invasão de africanos e latinos. Nesse sentido, as leis conhecidas como “anti-trafiquistas’ funcionam nesses países, como políticas anti-migratórias, ou anti-pobres. Engraçado que essa discussão começou em vários países europeuus junto com a resseção econômica. Eu não defendo que um projeto de lei trabalhista vá mudar automaticamente a situação de vulnerablidade ao qual as prostitutas estão submetidas. Também acho que pode correr o risco de dar mais poder ao empresário. entretanto temos que tomar cuidado para não fazer essa crítica de forma moralista, ou seja, continuar pensando em termos de acabar ou nao com a prostituição. Elas se reconhecem como trabalhadoras e lutam por isso, e é no mínimo leviano esses movimentos que não levam em consideração a opinião dos movimentos organizados de trabalhadoras sexuais.

  7. Será que alguém que considera a defesa do fim da prostituição como “moralista” poderia me explicar o que tem de moral no argumento de que nós mulheres não queremos mais ser tratadas como mercadoria? Sinceramente, eu não entendo a relação.

    E de quais direitos trabalhistas estamos falando? Pelo que li, o tão falado projeto do Jean Willys, por exemplo, não garante melhoria de vida nenhuma pra essas mulheres, só dá brecha pra aumentar a exploração por parte dos cafetões e bordéis.

    • Bruna… quando você usa “nós mulheres” está incluindo as prostitutas? Se você conversou com algumas que são a favor do fim da prostituição como um todo, tem outro lado, tem aquelas que acham que prostituição não é uma mercantilização… a Monique deu entrevista para a Lola, por exemplo, não acha assim. Veja só o que ela pensa:

      “Consideramos, por evidente, que todo o trabalhador aluga seu tempo e sua força de trabalho. Temos uma visão diferente em relação à prostituta. E por quê? Porque ainda temos uma visão romântica do sexo, do despir-se, do encontro. Porque ainda temos aquela visão arcaica, que eu combato incessantemente, de que a prostituta deve abrir mão de seu prazer, de seu desejo, em detrimento do desejo do outro. Mas eu vejo a cada dia mais acompanhantes dizendo não àquilo que não desejam, enquanto percebo que mulheres que não fazem sexo pago cedem cada vez mais em suas relações, estáveis ou casuais, para agradar ao parceiro.

      “Transito pelos dois meios, recebo relatos todos os dias, e sei bem do que estou falando. É falha, portanto, a ideia de quem contrata uma prostituta está comprando um corpo e dele pode dispor como quiser. Para isso, existem (e não estou ironizando) as bonecas infláveis e, sim, há gente que as compra. Há um mercado em franca ascensão de bonecas cada vez mais realísticas. Deste modo, posso dizer que talvez nem todo o homem que contrata uma prostituta saiba exatamente o que quer, e aos clientes que ainda insistem na ideia de que a prostituta vende o corpo eu recomendo enfaticamente que comprem uma boneca dessas. Embora o investimento inicial seja bem maior, vão servir-lhes para uma vida toda. Vida, a do comprador, sejamos claros. Mulheres de plástico não morrem.

      “Ainda sobre a ideia de alugar o tempo, lembro que todos os encontros têm sua duração pré-determinada e que, no meu caso, não ultrapasso as duas horas jamais. Também sou constantemente convidada para almoços, jantares, cafés, viagens, shopping… Eu cobro por isso, a não ser nas raras oportunidades em que eu mesma convido.”

      Isso não sou eu falando, não é minha opinião, é a de uma prostituta feminista. Eu tendo a aceitar a opinião das envolvidas, sabe… o link:

      http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/02/o-feminismo-e-empoderador-para.html

      • Desculpa mandar mais uma vez a Monique, mas olhem só:

        omos nós, meretrizes, também, donas e 
senhoras de nossos corpos, mesmo durante nosso período de trabalho. Percebam:
 alugar seu tempo não é equivalente a alugar ou vender seu corpo, como pensam 
tantos/as. Quem contrata os serviços de uma prostituta não tem direito ao abuso 
ou à violência. Há uma diferença sensível, porém importante, entre um conceito e 
outro.
        Alguns, com boa intenção talvez, mas desconhecendo a realidade, dizem que é uma atividade “indigna” e, portanto, não passível de direito. Dignidade é liberdade. Exercer seu ofício de modo digno e ter seus direitos de trabalhador respeitados, isso é libertar o profissional do sexo. Exigir que um profissional abandone seu trabalho não o liberta de 
nada. É, sim, interferir vergonhosa e autoritariamente na vida de pessoas adultas e com
 condições de decidir. Eu, como você.

        http://www.socialistamorena.com.br/o-direito-de-existir-eu-como-voce/

      • Sharon, vamos lá. Eu digo “nós mulheres” incluindo as prostitutas, claro, porque o tal do outro mundo possível que nós feministas da Marcha queremos é um mundo mais justo e igualitário pra todas as mulheres. Acredito que é por sermos mulheres numa sociedade machista e patriarcal que estamos submetidas à opressão, à mercantilização e à violência sexista. E é pensando em tudo isso que nós queremos que sejam dadas possibilidades reais de escolha de vida pra todas as mulheres. Não dá pra pensar na prostituição sem levar em conta que é, na imensa maioria, a venda do corpo de mulheres pra homens – que exercem um poder econômico, político e cultural na sociedade. Antes de tudo, é muito importante pra gente ter a questão de gênero como ponto de partida nesse debate.

        Então, respondendo ao seu questionamento: sim, eu, como mulher que sofre discriminação e violência por andar à noite na rua, por usar determinado tipo de roupa, por ocupar certos espaços ainda predominantemente “masculinos” e por exercer a minha sexualidade, me sinto na condição de argumentar sobre esse assunto, porque acho que faz parte da nossa vida também, como mulheres, e acho que a prostituição está ligada a todo esse cenário aí.

        A Monique tem todo o direito de expressar o posicionamento dela e de ter orgulho do que faz, como muitas, mas desconfio que essa não seja bem a realidade do conjunto das prostitutas no Brasil. Basta trocar uma ideia com outras garotas de programa pra ver que a situação não é tão tranquila assim… A gente na Marcha tem contato com mulheres que já passaram por essa situação de prostituição por conta de necessidades financeiras e que concordam que liberdade é algo que passa BEM longe… No interior do país, fora dos grandes centros urbanos e nas beiras de estrada, a realidade é ainda mais cruel. Dando um exemplo meio besta que me ocorreu agora, pensei nas mães solteiras: muitas têm orgulho de conseguirem criar @s filh@s sozinhas, de terem batalhado e aberto mão de muita coisa na vida pra isso. E, com certeza, tem uma parcela delas que optou por não ter um companheiro ou companheira. Mas, na maioria das vezes, essa não parece ter sido uma escolha autônoma e deliberada delas, mas sim fruto de uma situação de falta de opções.

        Segundo, como já foi dito pela Camila aqui nos comentários: “No Brasil, as prostitutas não são criminosas, não é crime prostituir-se no Brasil. Crime e tirar proveito pecuniário de quem o faz. Isto é, o cafetão/tina é que são criminosos”. Legalizar a prostituição não vai dar mais dignidade pra elas automaticamente. Eu não sou contra dar melhores condições de vida pras prostitutas. A questão é que o projeto do Jean Wyllys, por exemplo, não faz isso. Ao contrário, abre brecha pra exploração delas. Então, que esse projeto seja, no mínimo, construído junto com o conjunto das prostitutas, das mais diversas realidades, e que traga, de fato, benefícios pras elas.

  8. A questão da prostituição, sua definição e a forma de lidar com ela. É um tema bem polêmico até entre as feministas e as divide mesmo. Por isso acho que ele deve ser bastante discutido. Gostei do post, me instigou a pesquisar mais sobre o assunto.

  9. Maitê Maronhas says:

    Compreendo e compactuo com diversos argumento críticos à legalização da prostituição no Brasil, em especial aqueles relacionados aos grandes projetos ou eventos. Entretanto considero este texto com um pé na direita, no moralismo e na xenofobia europeia. Assim como a Camila Furchi, considero a comparação com o aborto inadequada, prefiro a esta a comparação da prostituição com o trabalho doméstico. Duas situações em que são em sua maior parte atividades exercidas por mulheres, com nenhum ou poucos direitos trabalhistas reconhecidos, os poucos que existem, conquistados com muita luta. Ambos são trabalhos que nós, feministas, consideramos que não deveriam ser mercadoria. Deveriamos ter tempo de cuidar da reprodução da nossa vida e não de secundarizá-la para mulheres precarizadas. Entretanto não nos recusamos a estar do lado das empregadas domésticas quando estas lutam pela conquista de direitos trabalhistas, mesmo considerando que a atividades que elas exercem não deveria ser uma mercadoria. Por que o posicionamento com as prostitutas é tão diferente? Se mesmo alguns, ao menos, de seus setores organizados se posicionam a favor da legalização. É uma pergunta sincera para a qual sigo no aguardo da resposta.

    • Lourdes Maria says:

      Imagina se os abolicionistas da escravidão dissessem que queriam fazer da escravidão algo mais prazeiroso ao negro ao invés de aboli-la….defender prostituição é a mesma coisa e nem tem como comparar ao trabalho doméstico,nenhuma mulher sai traumatizada fisiscamente ou psicologicamente por fazer trabalho doméstico,o que não acontece coma prostituição.E ser vendida é “trabalho”? É é “moralismo” não querer que que corpos femininos sejam tratados como mercadorias? Creio que sua visão sobre prostituição está muito fantasiosa.Será que também é moralismo querer que negros não sejam mais vendidos e tratados como escravos?

      E me diga,legalizando a prostituição,dividindo as mulheres em “para trepar x para casar”,como o patriarcado sempre fez conosco,nos liberta em alguma coisa? vc seria prostituta? aceitaria ver seu marido,pai irmão,sendo cliente de prostitutas?Se ofenderia se ao pasar na rua,um homem a importunasse com cantadas baixas? Legalizar prostituição é tudo isso,é oficializar a total coisificação de todas nós.

      O feminismo brasileiro tem que se empenhar mais,a mulher brasileira continua acreditando que ser liberal,moderna,bem resolvida é aceitar a mercantilização de sua imagem e de seus corpos,além de achar que diversos tipos de violência machista são uma questão de opinião.

      • Maitê Maronhas says:

        Lourdes Maria, parto do que li e ouvi de prostitutas. De artigos acadêmicos sobre o tema que as ouviram, enfim, mesmo de forma indireta, de seus relatos. Uma prostituta não vende seu corpo, vende serviços/favores sexuais. O corpo continua sendo dela, por isso mesma ela pode continuar realizando esse serviço sucessivamente. Carole Pateman no livro O Contrato Sexual também nos esclarece um pouco sobre a diferença entre uma coisa e outra. A partir de seus relatos posso perceber também que nem todas as prostitutas são pessoas traumatizadas fisica ou psicologicamente. Quanto ao moralismo, creio que não me expressei bem, de forma alguma sou a favor que mulheres sejam tratadas como mercadoria, meu questionamento e comparação é outra. Também não creio que o trabalho doméstico deva ser mercadoria, entretanto o fato é que ele é e enquanto lutamos para mudar isso também permitimos em nosso meio, apoiamos, outras lutas que permitem a melhoria na situação de mulheres que exercem esse trabalho.
        Nós mulheres já estamos divididas entre “para trepar x para casar”, não é preciso ser prostituta para entrar nessa divisão, ou mesmo para estar em meio as “para trepar”. Uma saia curta, beber, sentar em buteco, beijar mais de uma pessoa na mesma noite já é suficiente para isso. Meus pai, parentes, irmão podem ser clientes de prostitutas independente de eu aceitar e/ou gostar disso. Me ofendo com frequência com homens que me importunam com cantadas baixas e não compreendi o que a prostituição tem a ver com isso. Ela não é legalizada e isso ocorre, diariamente, comigo e com outras.
        Por fim, não aceito a mercantilização do corpo das mulheres e nem creio que machismo é uma questão de opinião. Acredito que as protagonistas da luta pela legalização ou não são as prostitutas, que precisamos ouvi-lás e dialogar com elas, acima de tudo. E de forma alguma entrarmos em um embate entre mulheres, pois isso nos enfraquece. Quero dignidade e melhor possibilidade de vida para todas as mulheres, quero redução da jornada de trabalho para que possamos ser responsáveis pela reprodução da nossa vida, quero divisão do trabalho doméstico com os homens com os quais convivemos, entretanto são lutas mais amplas que travamos todos os dias e para as quais as empregadas domésticas não podem ficar aguardando para que tenham alguma melhoria de condição de trabalho. O mesmo para as prostitutas. Quero que o corpo das mulheres, nossa sexualidade não seja mercadoria, travamos essa luta todos os dias, entretanto, não topo que algumas mulheres não conquistem melhores condições de trabalho e de vida enquanto não formos completamente vitoriosas.

  10. concordo com a bruna e com a camila. prostituiçao nao é crime no brasil e parece q as feministas daqui tem uma preguiça danada de abrir o codigo penal e se informar uma vírgula sobre Direito antes de se manifestarem com base na realidade europeia ou americana. a tal lei do jean willys só beneficia o cafetao, o explorador de mulheres, pq garante q legalmente ele pode tomar METADE dos rendimentos das prostitutas. nao garante nenhuma contrapartida a elas, nao determina obrigaçoes q as casas de prostituiçao devam cumprir, nao garante segurança, nao garante beneficios trabalhistas especificos, NADA. as prostitutas brasileiras sempre puderam contribuir para a previdencia como autonomas, isso nao é uma inovaçao dessa tal lei, como estao dizendo. se informem antes de tacharem os outros de moralistas (?).

    • Maitê Maronhas says:

      Maria Luiza, creio que as feministas que aqui frequentam estão interessadas em se informar sobre o assunto. Nem todas tem domínio sobre a linguagem do código penal, interesse e ou tempo para lê-lo e interpretá-lo. Por isso o importante exercício de ler sobre em outros espaços, ter contato com interpretações e reflexões. Não vejo no que acusar outras mulheres que tem os mesmo interesses que você de preguiçosas pode contribuir para o debate. Eu considero o texto moralista e mesmo que minha posição fosse firmemente contra a legalização teria tato em usá-lo, ao menos teria selecionado partes. Um texto que em diversos momentos aponta que o problema da prostituição é que ela saiu de uma parte evitável da cidade, que não deveria ser legalizada porque as pessoas não a querem a vista, porque suja a reputação da cidade ou porque abala a decência da legalidade e não porque torna as mulheres e sua sexualidade mercadoria para mim é moralista. Afirmo isso com tranquilidade e também porque sei que as feministas que aqui escrevem teriam feito um texto muito melhor e não moralista do que esse sobre Amsterdã.

      • ¬¬ Engraçado você não ver qual seria a “contribuição para o debate” ao se acusar de “preguiça” o fato das pessoas virem aqui debater sem conhecer nem as diferenças da lei do Jean para as leis atuais, mas e acusar as outras de moralistas porque não pensam como você? Qual a contribuição para o debate?

  11. Lourdes Maria says:

    Bom,a julgar pelos comnetários,até mesmo as mulheres se enxergam como mercadorias sexuais,para defender algo idefensável.Homem,então,nem se fala…

    Será que estas mulheres se imaginam como prostitutas? se não,por que querem para outars? È muito fácil defender algo destrutivo quando não se corre o risco de ficar ne mesma situação.E comos empre,a discussão é levada na base de “pontos e vistas” e “opinião”,como se não existissem mulheres reais sofrendo violências reais.

    E vale klembrar que a internete está cheia de “shanons”,defensores do sex trade que se passam por “profissionais so sexo” para defender seus interesses,com argumentos vazios baseados no moralismo do sesno machista comum,mascarando todo um processo social de violência machista e objetificação de todas nós mulheres como um todo.E também,cheia de prstsitutas que,seja por meio de ameça,ou seja por resignação,acabam defendendo a situação em que se encontra.

    Além do mais,que liberdade sxeual é essa? homem sempre teve liberdade sxeual e nunca quis estar na condição de mercadoria,por que para nós liberdade é nos auto-mercantiliar?Se prostituição é tão legal assim e da´ tanto poder,por que os homens não a defendem para si?

    Prostituição não é polêmica,é bem explítica a redução de nossos corpos em mercadorias desfrutáveis.Se queremos ser vistas e tratadas como seres-humanos,não tem como ainda permitirmos que tal violência exista.Como espéram que os homens nos considerem humanas se eles tem o “direito” de nos comprar? E por que ninguém aquoi no Brasil discute a deamnada que os homens criam para a prostituição?Não precisa ser gÇênio nem PHD em nada para se chegar á tal conclusão.E é lamentável como as feminsitas brasileiras caem fácil em discursos machistas dissimuladores.

  12. caramba..fico impressionada com a inteligencia dessas feministas! voces são o máximo. (feministas de verdade que defendem que mulher não é mercadoria.) As que gritam ” A nossa luta é todo dia mulher não é mercadoria..” dá boca pra fora e depois defende a prostituição ao lado dos clientes e cafetoes dizendo que prostituicao é liberdade sexual, desculpa.. mas voces não sao feministas de verdade. Falta coerencia no discurso.

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