Apagar a luz vermelha, acender a chama do feminismo!

*Por Ana Karoline de Oliveira

Algumas de nós, mulheres, nos sentimos muito mal de pensar qual seria nossa atitude com esses questionamentos: “Quanto cobrar para fazer sexo?”, “Cobro a mais para fazer anal?”, “Aceito essa grana extra para ele por sem camisinha?”.
Repulsa, negação, indiferença, pena. Mesmo diante desses sentimentos, parece mais fácil a aceitação de que a venda do sexo é uma escolha própria da mulher. Uma situação a qual ela pode, ou deveria, negar-se. Muitas vezes, com a ajuda da mídia energecida de machismo, vincula-se a ideia de que as mulheres que se prostituem gostam do que fazem e, até mesmo, podem chegar a sentir prazer.

E porque nos parece tão fácil acreditar nessas ideias? A construção midiática de uma vida com aventuras e prazer, a negação do Estado em concretizar políticas de mudança estrutural da vida das mulheres e o grande crescimento da indústria do sexo, aliando-se ao grande capital, nos cega os olhos para perceber que a prostituição nada mais é que a manifestação real da exploração da mulher pelo homem, representação de poder intrínseca do sistema patriarcal e, principalmente, para a grande humilhação e sofrimento que essas sujeitas, privadas de fazer uma história diferente de suas próprias vidas, estão expostas todo dia, toda noite, em todo bordel ou ruas da cidade.

Imagem postada no Blog da diretoria de mulheres da UNE

Imagem postada no Blog da diretoria de mulheres da UNE

Aliando os fatores de mercantilização do corpo da mulher, base de um sistema patriarcal e capitalista, e da prerrogativa de aliar as necessidades de muitas mulheres pobres e sem perspectiva à crescente demanda do capital por mercados e a falta de interesse real do Estado por políticas públicas de melhora da condição social e material de vida, justifica-se a necessidade de regulamentar o “trabalho” das “profissionais do sexo”.

Red Light District,ou bairro da luz vermelha, em Asmterdam, seria o exemplo mais “exitoso” de tal proposta. O deleite de turistas e amantes do sexo ao passear pelos belos canais, com suas luzes vermelhas e néon, e com mulheres expostas em vitrines. Não pode haver melhor caracterização de como o mercado do sexo pode ser mais brutal e humilhante para essas mulheres. Além de terem que vender seu sexo, devem estar na sua mais bela forma e com a mais bela aparência para serem expostas como um produto de qualidade a ser vendido, por um preço talvez nem tão barato, mas que com certeza elas pouco ganham na realidade, pois no caso, grande parte do dinheiro fica com o chefes dos bordeis. Não pode haver pior sistema de opressão e degradação da vida das mulheres.

E o mais brutal, ingenuamente, ou não, acredita-se que a regulamentação da prostituição, com sua entrada no marco legal, daria, por fim, dignidade as mulheres que vendem seu corpo e, até mesmo, a diminuição do tráfico de mulheres e crianças para a prostituição. Quando, na verdade, fecham-se os olhos para o que de fato acontece: o grande beneficiamento a indústria do sexo, legalização do trabalho de cafetões e a legitimação dos homens como consumidores de mulheres. Não havendo mudança real e significativa na vida das mulheres que se prostituem ou de crianças que são exploradas sexualmente.

É tarefa do movimento feminista, movimento antipatriarcal e anticapitalista, a luta contra as varias e diversas formas que o sistema opressor usa para mostrar o seu poder de dominação e aliar isso ao seu crescimento. Nossa tarefa é a conscientização de que a apropriação mercantil do corpo das mulheres nada tem a ver com a sexualidade livre, que prostituição não é trabalho, é exploração e violência.

Há que lutar pelo fim do sistema de dominação da mulher pelo homem, há que lutar pela construção de uma sociedade de iguais, há que lutar até que todas sejamos livres.

*Ana Karoline de Oliveira é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Ceará

Comments

  1. Adorei =]

  2. Mas que belo!!

  3. Concordo com a leitura de que a prostituição se ancora em um sistema patriarcal e heteronormativo, tendo em vista a predominância de clientes homens. Também concordo que, assim como na grande maioria do serviços exercidos por mulheres, existe uma alta mercantilização do corpo feminino, e nesse caso, da sexualidade.

    Entretanto, sempre me questiono porque o argumento da estrutura patriarcal e machista só paralisa a discussão sobre o trabalho sexual – sim trabalho, pois é assim que a grande maioria das minhas colegas prostitutas se definiem. Explico melhor: é comum na bandeira feminista a idéia de que devemos combater as separação entre a esfera da produção e da reprodução, e dentro disso, a delegação exclusiva da esfera da reprodução as mulheres. Nesse sentido, colocamos esse problema dentro de um recorte de classe e criticamos ainda mais a delegação da esfera dos cuidados feita por mulheres brancas e ricas para mulheres geralmente não brancas e pobres via trabalho doméstico assalariados.

    Cansamos de estudar as relações de servidão ou de submissão no qual se encontra o trabalho doméstico – remunerado ou não- e a vinculação dessa situação com uma estrutura mais geral de desigualdade de classe e de gênero.

    Mesmo assim, nos posicionamos ao lado das trabalhadoras domésticas, lutando por direitos e por reconhecimento. Estamos lado a lado, discutindo juntas, e tentando ajudar as eventuais contradições que surgem no processo de luta.

    Porque não fazemos isso com as trabalhadoras sexuais? Onde elas estão nos congressos feministas?. Kd a representação organizada, que existe? Por isso eu concordo com um discurso – as vezes senso comum- de que a discussão da prostituição em segmentos do movimento feminista é pautado por moralismo. Pois há um julgamento a Priori tão intenso que não possibilita nem a aproximação para se discutir com mais seriedade esse tema, que é muito sério.

    Deixo claro aqui que detesto o argumento de que tem umas que gostam ou que é uma escolha. Acredito que na atual sociedade que vivemos, poucas de nós, mulheres populares, possui uma relação pouco alienada com o trabalho que executa.. Seria estranho perguntar para uma operadora de telemarketing que trabalha seis horas por dia e demora 4 hs de locomoção por dia se ela “gosta” ou “escolheu” aquele trabalho. Pior ainda é nos contentarmos com a explicação, e nos encerramos no: “tá vendo? É uma opção”.

    No entatno, eu acho que somos omissa a questão das mulheres prostitutas. Ancoradas bastante em senso comum moralistas vamos nos distanciando de entender aquilo que as mulheres prostitutas estão falando.

    Conversando com mulheres prostitutas, talvez vamos perceber que mais violento e ofensivo que o trabalho sexual é esse discurso que utiliza expressões como “trazer dignidade as mulheres que vendem seu corpo”. Dignidade para quem? Esse tipo de argumento sim que é humilhante e parte de uma secularização e idealização do que significa a sexualidade femina

    • Concordo que o discurso de “dar dignidade as mulheres as tirando da prostituição” é sim humilhante para as prostitutas. Nós devemos empoderá-las, não rebaixá-las, humilhá-las e taxá-las de ‘pobres vítimas’. Mas não concordo com a legalização das casas de prostituição porque isso dá o direito do cafetão/cafetina e do Estado de se apropriarem dos ganhos obtidos pelas prostitutas, as colocando numa situação de vulnerabilidade ainda maior! (E nós sabemos o que acontece com as prostitutas quando elas estão em posição de maior vulnerabilidade). É ilusão acreditar que essas casas facilitam o trabalho delas e as protege da violência. Pelo contrário.

      Quanto ao serviço doméstico, há sim segmentos do movimento feministas que tratam da abolição do serviço das empregadas domésticas. …agora, há uma diferença enorme entre o serviço doméstico, de fazer faxina, arrumar a casa, para o da prostituição. Não atentar para isso é ver o sexo de forma, no mínimo, mecânica.

      Para mim, é mais uma questão de ética. Há um motivo pelo qual é proibida a comercialização de sangue, de órgãos, o aluguel de barriga, doação a brasileira etc. Porque é uma forma de comercializar o ser humano, de tratá-lo como instrumento ou objeto de alguém.

      Há algo de muito perturbador em nós permitimos que alguém – porque tem dinheiro, porque Pode – compre sexo, sangue, órgãos, alugue ventres, etc.

      [De qualquer forma, esse assunto precisa sim ser mais debatido.]

  4. Me explica direito essa parte: “há sim segmentos do movimento feministas que tratam da abolição do serviço das empregadas domésticas”

  5. Tá certinha, só esqueceu de perguntar a opinião das meninas sobre isso.

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