Atentar contra o futuro. O assassinato de 3 militantes curdas.

por Ximena González *

curdasSakine Cansiz, fundadora do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), Fidan Dogan, representante do KNK (Congresso Nacional do Curdistão) e Leyla Soylemez, ativista, foram executadas com um tiro na cabeça. Estas três mulheres dão nome e rosto a todas as mulheres anônimas que lutam pela independência do povo curdo.

A execução destas três mulheres na França ocorre no momento em que o Estado turco e Abdullah Öcalan, líder do PKK encarcerado desde 1999, retomam as conversas para iniciar um processo de paz. Para isso, o PKK reivindica que o Estado turco reconheça os direitos políticos e culturais do povo curdo e melhore substancialmente as condições em que Abdullah Öcalan se encontra, como primeiro passo para iniciar um processo que possa por fim ao conflito.

Neste contexto, os assassinatos de ativistas curdas na França levantam todos os tipos de especulações sobre o “bando” que cometeu tal atrocidade e a finalidade da mesma. É preciso ter claro que o assassinato de mulheres independentistas que defendem os direitos políticos e culturais de seu povo só pode beneficiar o Estado opressor ou seus aliados. Não podemos perder de vista que estamos falando de uma guerra não declarada em que mais de 40.000 curdos/as já perderam sua vida.

Em junho de 2010 tive a oportunidade de viajar para Istambul como delegada da Coordenação da Marcha Mundial das Mulheres na Galícia e conhecer muitas ativistas curdas, incluindo algumas colegas do PKK. No Encontro Europeu da MMM, que fez parte da 3ª Ação Internacional, mulheres da Europa nos reunimos na Turquia para analisar a situação política e social dos diferentes povos. Entre todas as oficinas e palestras, a mais interessante que assisti foi a das ativistas curdas que expuseram, dentro do movimento feminista, as suas reivindicações políticas e culturais como povo.

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As mulheres curdas mostraram para as outras mulheres vindas de todos os cantos da Europa a força e a convicção de um povo que luta por sua independência, o papel fundamental que as mulheres desempenham nessa luta e sua coragem, saindo para as ruas todos os dias em um Estado, o turco, que nega sua identidade e cultura e proíbe todas as manifestações públicas que reconheçam a existência do povo curdo.

Durante aquela semana, como sempre fizeram e fazem todos os dias, mulheres desafiavam as leis e as autoridades e saíram para as ruas, com as imagens de seus familiares e colegas, arriscando suas vidas, para reivindicar a sua liberdade e os direitos políticos do seu povo. Arriscando a vida porque as mulheres curdas são presas por seu ativismo político e, devido a ação de forças policiais com poderes concedidos pelo governo no contexto do conflito, em muitos casos, são assassinadas.

Em várias conversas que tivemos, elas relataram a participação das mulheres tanto nos combates como na direção política dos partidos, como parte importante do movimento político, afirmando que a luta pela emancipação das mulheres é indissociável da luta pelos direitos políticos do povo curdo.

Uma das manifestações que aconteceu foi a das “Mães de Sábado” (Saturday Mothers of Turkey) um grupo de mulheres que desde 1995, a cada sábado, realiza concentrações silenciosas para denunciar o desaparecimento de familiares e amigos. Também na denúncia do/as desaparecido/as são as mulheres que lideram o movimento político curdo.

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O Encontro Europeu acabou coincidindo com o início do Fórum Social Europeu em uma grande manifestação. Naquela mobilização, uma das mais numerosas da história de Istambul, as ativistas curdas foram as protagonistas, vestidas com seus lenços tradicionais, o que é proibido fazer publicamente, e gritando as palavras de ordem no seu idioma, o que também é proibido. Desafiaram o Estado turco e encheram as ruas da cidade como nunca antes tinha sido feito para pedir liberdade para o povo curdo e liberdade para as mulheres curdas perseguidas, maltratadas, detidas e assassinadas por defender os direitos de seu povo.

Pensei em todas elas ao saber do assassinato das três ativistas em Paris. Mais três mulheres que deixam suas vidas lutando pela liberdade. Justiça é reconhecer e reivindicar a todas que, como elas, colocam sua vida em risco todos os dias ao defender a sua identidade e afirmar o papel protagonista que as mulheres têm na luta pelos direitos políticos do Curdistão.

*Ximena González é militante da Marcha Mundial das Mulheres na Galícia.

Texto publicado em Contrapoder.info, traduzido por Tica Moreno (MMM/SP)

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