Por memória, verdade e justiça

Por Maria Júlia*

Anteontem, dia 29 de janeiro, houve uma manifestação, organizada por diversos coletivos, partidos e militantes em geral, exigindo justiça e transparência no caso Viviane Alves.

Viviane Alves, 21 anos, suicidou-se após um “suposto” estupro, que “teria sofrido” após uma festa de confraternização no escritório em que trabalhavam. “Teriam-na” dopado, e então, estuprado. Em decorrência da depressão resultante da agressão, ela pôs fim à própria vida.

VIVIANE ALVES: ATO PELO FIM DO SILÊNCIO REALIZADO EM SÃO PAULO

Faixa do ato.
Fonte: R7

“Suposto” estupro, “suposta” violência. É assim que a mídia e a justiça brasileira tratam a violência contra a mulher no Brasil. Só pra ter uma ideia, o UOL, na legenda da foto do ato que publicaram no site, afirmou que Viviane “caiu” do prédio em que morava (agora já arrumaram, mas isso só mostra como estão pouco ligando para o caso).

Aqui é assim: a primeira coisa que fazem quando uma mulher afirma ter sofrido uma violência (qualquer uma delas) é: você provocou? Porque, se você foi estuprada, é óbvio que foi porque você provocou o cara (que aparentemente é um animal e não tem controle sobre o próprio desejo – segundo esse argumento), se apanhou, foi porque irritou o cara. Pra não ser estuprada basta você não provocar, afinal, a culpa é sua. Mas, será que você não tá exagerando? Ele só é um homem muito bruto, foi tudo um mal-entendido.

Existe uma enorme invisibilidade no que diz respeito à violência machista. Muita gente simplesmente acha que não existe, que é tudo paranoia das mulheres, e, se não existe, não tem porque combater. E é assim que está sendo tratado o caso de Viviane: estão descartando a hipótese de estupro, apesar do que foi afirmado pela própria vítima (à mãe e em anotações). Segundo a polícia, ela era uma depressiva, e em decorrência dos remédios que tomava, pode ter alucinado o estupro. É, é isso. Aliás, pode nem ter se matado, pode ter caído porque estava fraca (devido a dias sem comer por causa da depressão).

É por isso que na terça-feira nós fomos às ruas. Pra mostrar que não vamos ficar caladas enquanto ainda tiver violência contra a mulher. Porque não é possível que a gente não possa fazer uma denúncia na delegacia sem ser desencorajada a continuar. Não é possível que continuem achando que esse papo de violência é tudo exagero nosso. Segundo uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, uma em cada cinco mulheres no mundo será vítima ou sofrerá uma tentativa de estupro. Isso é exagero nosso?

A gente tá nas ruas pra que não tenham mais casos como o de Viviane, nem nenhum outro de violência. Ela pode não ter sido assassinada diretamente por um homem, mas perdeu a vida por causa desse sistema patriarcal e capitalista, que prefere por o dedo na cara das vítimas a ampará-las.

VIVIANE ALVES: ATO PELO FIM DO SILÊNCIO REALIZADO EM SÃO PAULO

Em frente ao escritório
Fonte: R7

Quando chegamos em frente ao escritório em que ela trabalhava, Machado Meyer, tinha um monte de gente com um sorrisinho no canto do lábio (além de uma galera filmando, e não acho que fosse para ajudar a divulgar a nossa causa). “Ih, essas feministas de novo”, devem ter pensado. Sim, de novo, de novo e de novo. A gente foi pra lá, ocupou as ruas, com caixa de som, palavras de ordem, intervenção artística, faixas e cartazes, e vamos continuar fazendo isso. Porque esse sorriso no canto da boca é cúmplice da violência, e não podemos admitir isso.

Estávamos nas ruas e continuaremos nelas pela memória de Viviane e de tantas outras que tombaram por causa do machismo; para exigir verdade, colocar o dedo na cara dos agressores, e conseguir justiça para as mulheres, porque viver sem violência é um direito de todas nós.

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da MMM de São Paulo

Fonte das fotos: http://noticias.r7.com/sao-paulo/fotos/grupo-realiza-ato-por-transparencia-nas-investigacoes-da-morte-da-estudante-de-direito-viviane-wahbe-29012013?foto=2#fotos

Mais fotos do ato: http://www.flickr.com/photos/fotosovermundo/8427968292/in/set-72157632639631377/

http://noticias.uol.com.br/album/album-do-dia/2013/01/29/imagens-do-dia—29-de-janeiro-de-2013.htm#fotoNav=56

Comments

  1. Maria Júlia, acho muito válido o movimento feminista e apoio muitas causas defendidas pelo movimento, mas acho de uma irresponsabilidade afirmar o envolvimento do escritório e de pessoas, quando não se tem certeza disso. O que as pessoas do movimento não pararam para refletir é que dentro do ambiente de trabalho há muitos amigos da Viviane que sofrem com essas besteiras que têm publicado sobre ela e sobre essas manifestações. Portanto, é um absurdo se utilizar dessa situação tão triste (e que ainda não se tem uma conclusão) como palco para discussões ideológicas feministas. Sair por ai escrevendo sobre meras suposições não faz do blog muito diferente do jornalismo estilo “record”, que expõe vítimas, famílias e amigos.

  2. Roger, entendo sua preocupação, mas o contrário tampouco pode existir: apesar da vítima ter afirmado ter sido estuprada, descartarem isso logo de primeira.
    A diferença entre nós e este blog, e o jornalismo da record, é que nós não vamos fazer brincadeiras com a situação da vítima, e que nós acreditamos na palavra dela, e o mínimo que exigimos são investigações sérias, coisa que a gente precisa insistir muito pra que tenha aqui no Brasil – o jornalismo da record fala que um cara que prendeu a mulher, a sogra e as filhas numa casa soltou a sogra antes porque não a aguentava mais, uma “brincadeira” machista (além de pouquissimo original). Não é isso que fazemos aqui.
    Honestamente, me preocupo mais com as estatísticas de morte e estupros de mulheres, e me preocupo mais com os sorrisos de canto de boca com os quais fomos recebidas ao chegarmos no escritório – ainda que o escritório possa não ter nada a ver (digo o escritório em si, e não um funcionário de lá), esse sorriso é, sim, cúmplice da violência.

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