Outra vida para mulheres e homens

*Por Maria Fernanda Marcelino

DSC_1641Desde pequenas treinadas a competir uma com as outras. Na escola tem concurso de miss mirim, da rainha da primavera – e aqui agrega-se outro elemento, o econômico. A rainha da primavera não pode ser apenas a mais bonita (e branca, claro) ela deve também conseguir vender mais votos.

O tempo todo sendo julgadas por nossas aparências, como sentamos e vestimos, se estamos adequadas ou não aos olhares, se estamos enfeitando bem o mundo. Por isso somos “flores” e ganhamos bombons no dia das mulheres que, na real, trata-se de um dia de luta internacional das mulheres.

Brincamos com poucas amigas e desde cedo nos ensinam que não podemos confiar umas nas outras. Que aquela amiguinha, mais bonita, pode roubar o seu namorado. Por isso, faça tudo o que ele quiser, agrade-o ao máximo. Aceite usar a lingerie que ele gosta, faça as posições que ele quer, pois, se ele não encontrar em casa… E isso vale para as roupas, amizades e lugares.

Os homens podem treinar a sexualidade com quem eles quiserem, desde cedo são estimulados a se masturbarem, exercitarem, sabem o que dói e o que da prazer. Nós não tocamos na nossa vagina, fazer isso é feio, além disso, “cheira mal”, é delicada demais, tem que estar escondida e protegida. Quando vamos para a primeira relação sexual, estamos nervosas, com medo da dor e achando que deveríamos deixar isso para mais tarde e que estar com uma camisinha é um sinal de ser “vagabunda”.

Quando uma mulher é mais “liberta”, fica com vários homens, ela é mal vista pelas outras, é uma ameaça. Os homens também falam mal dela, mas querem usufruir e se ela diz não a difamação é certa.

Louca, puta, depravada, ela não é mulher para namorar nem casar, são apenas alguns dos comentários que se pode ouvir, ninguém pode confiar numa mulher com esse tipo de postura e quando ela diz não o cara se acha no pleno direito de sua masculinidade de violentá-la.

Se ela ainda assim tiver coragem de denunciar, ou ninguém acredita porque afinal como acreditar numa mulher dessas que dá pra todo mundo, ou dizem… ela procurou!

É no mínimo cansativo ver a história se repetir tantas vezes, a mesma! Só mudam os nomes. Dói, gera tristeza e indignação. Aumenta a certeza de que isso só muda se as mulheres disserem não!

Nenhum homem sairá da sua condição de conforto para dizer; “eu quero servir mais e ser menos servido”. Eles não aprenderão a limpar o banheiro tão bem como nós se eles não repetirem a tarefa tantas vezes como repetimos ao longo de nossas vidas.

Eles não cuidarão das crianças tão bem como nós, se a todo o momento tudo reafirmar (inclusive nós mesmas) que são as mulheres que já nascem com o instinto materno. Quantas são as mulheres que não têm jeito nenhum para cuidar de criança? Muitas! A maternidade é uma possibilidade para as mulheres, não um destino inevitável, menos ainda uma obrigação.

Eles não vão aprender a “adivinhar” (prever) as necessidades da casa, dos filhos, dos idosos, se eles continuarem a serem servidos a vida toda. Uns parasitas incapazes de se manterem sozinhos, sem um exército de mulheres ao seu dispor, mães, esposas, namoradas, filhas, empregadas domésticas, auxiliares de enfermagem, professoras, lavadeiras, babás… Todos serviços baratos e desqualificados porque não produzem mercadoria.

Trabalho árduo feito gratuitamente por mulheres, desvalorizado e ao mesmo tempo indispensável, tudo em nome do amor. Os homens são incapazes de amar? Não. Mas só será possível se deixarem de ser egoístas e dependentes das mulheres.

Os homens aos trinta anos estão no auge da maturidade sexual (as mulheres também) e o corpo ainda não está decadente. Eles querem namorar muito, com o máximo possível de pessoas, acumular muitas.

Nós também queremos namorar, também estamos na melhor fase da maturidade sexual, só que foi construído na nossa cabeça um ideal de felicidade que inclui casar, ter uma família (heterossexual) e um filhinho numa casinha fofa. Tudo bem sonhar com isso, não tem problema, mas acontece que nem sempre rola assim. Às vezes não temos uma relação bacana que o melhor é casar, -mas namorar sim – menos ainda ter um filho.

Mas estamos sempre pressionadas pelo tal relógio biológico, os médicos advertem, ter filhos saudáveis é até os 30! Agora estão nos dando até os 37 ou 40 e vendendo a ideia de que é possível com 50 ou 60! E é caro viu.

Nós querendo casar e eles só trepar. Nós podemos também querer só transar, mas para isso teremos que enfrentar a fúria de uma sociedade que diz que nosso destino inevitável é a maternidade, que se uma mulher diz não a isso, ela tem algum problema ou é mal amada. E se ela for lésbica, aí sim o sofrimento está garantido.

Quando os homens percebem, aos 40 ou 50 anos, que estão envelhecendo, começam a abrir a possibilidade para o casamento. E o óbvio! Vão nas de 30 anos, afinal, eles podem reproduzir até os 70!

Assim fica garantido: eles terão ao seu lado uma mulher jovem, bonita, saudável e uma família linda, de bônus ainda terão alguém para cuidar deles quando os resultados das extravagâncias e velhice chegarem. E chegam viu, e é rápido!

É sempre assim? Todos os homens são canalhas? Todas as mulheres vítimas? Não. Não. Não. Nem todos homens reproduzem na íntegra o machismo, e as mulheres também fazem patifaria.

Mas o comum é a reprodução do que vemos todos os dias, pois a sociedade é construída assim, e se foi feita assim, pode ser de outra forma. Tudo depende de cada uma individualmente e de todas agindo consciente, coletivamente. Pois o que acontece com uma pode perfeitamente acontecer com a outra (ou comigo).

O que é certo é que O MACHISMO MATA e que o feminismo nunca matou ninguém. Luta pela mais pura igualdade, não só a jurídica, mas a real, que nos permita exercer nossa sexualidade sem medo de julgamentos, uma profissão sem a sombra da dúvida da competência e sem a exploração que essa desigualdade favorece.

*Maria Fernanda Marcelino é militante  da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

 

Comments

  1. Muito bacana. Gostei bastante =]

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