Um pequeno desabafo

*Por Débora Mendonça

Não sou muito boa com as palavras, mas tentarei socializar com vocês, minhas companheiras de luta, minha experiência pessoal com o feminismo, experiência essa que mudou completamente minha vida.

Esse ano faço 7 anos de militância na MMM e digo de antemão que não foi fácil assumir essa postura libertadora. Sofri muito internamente e hoje me lembro desses conflitos com muita alegria, porque foram as dores de meus pensamentos que ajudaram o meu fortalecimento enquanto feminista. E fico a pensar e compreender como é difícil para nós, mulheres, percebermos como somos oprimidas na sociedade. Eu não tinha clareza, mas existia algo em mim que me trazia muita revolta. Mas eu não sabia o que fazer, engraçado, né? Como ir contra a toda a educação (família, igreja, escola) que dita a todo o momento seu papel, suas atribuições, suas obrigações, seus deveres, suas responsabilidades? Eu imaginava que, indo contra isso, jamais seria feliz.

Mas eu também não era feliz com o que diziam que eu tinha de fazer. E me culpava muito por isso, por achar que eu estava desperdiçando a chance que a vida me oferecia. Passei muitos anos fingindo uma felicidade que eu não vivenciava. Só eu sei como era cruel comigo, me submeter a padrões que eu não concordava. Era uma real violência que eu suportava.

Tive um período de “normalidade”. Casei, tive filhos e era uma boa dona de casa. Vivia no mundo privado tentando aceitar que ali era meu lugar. Chorava e não sabia por quê. Presenciei meu ex-companheiro no mundo público. Ele era conhecido e eu assistia de longe, com certa inveja, o que eu gostaria de viver.

Um dos meus maiores e mais dolorosos conflitos foi com relação aos meus filhos. Sentia horror do pensamento que às vezes me vinha de não querer ser mãe, de não estar naquela condição meramente materna. Eu sabia que tinha outras capacidades que eram imputadas por uma cultura que anulava até meus pensamentos. Foi na decisão de separação que se iniciou uma tempestade em minha vida. Minha família, a família dele, meus/as amigos/as não aceitavam e a todo o momento, mesmo que não claramente, jogavam na minha cara as minhas “responsabilidades”, que eu insistia em renegar.

Mas o conflito maior mesmo foi quando, junto com o ex-companheiro, decidimos que os filhos ficariam sobre sua guarda. Aí sim o céu ou o inferno desabaram. Foram dias difíceis e foi nesse momento que a MMM surgiu na minha vida. Conheci companheiras que foram e são importantes até hoje, não por me ajudarem na decisão, mas por me acolherem e amenizarem a culpa que eu ainda carregava. Foram muitas conversas e textos compartilhados quando resolvi me jogar na minha decisão e procurar ser feliz. E fui, carregando o peso enorme nas costas, mas com a certeza que estava fazendo o que eu queria, pela primeira vez na minha vida. Enojei-me com posicionamentos conservadores de companheiras e muitos, mas muitos, companheiros.

F

Eu me sentia testada a todo o momento. Tudo que eu assumia (quando conseguia) tinha que ser muito bem feito, sem erros e sem deslizes. E foi no cotidiano que fui me fortalecendo. E uma das coisas mais belas que aprendi é que eu jamais teria conseguido sozinha. Foi na MMM que aprendi que é fundamental estarmos juntas, que a luta é nossa, mas o sonho de um mundo justo e igualitário é para todas e todos.

O feminismo mudou minha vida e foi a MMM que trouxe o desejo de mudança real de um mundo onde toda mulher exerça com plenitude seus desejos, suas vontades, suas capacidades e busquem, cotidianamente, fortalecer outras que possam encontrar seu próprio caminho, sem medo, sem culpa e sem vergonha.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

*Débora Mendonça é militante da MMM em Fortaleza, Ceará.

Comments

  1. Como é bom, saber que tem mulheres muito parecida com a gente, me senti uma parte dessa historia.Obrigada!

  2. Reblogged this on Cosmopolitan Girl.

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