Jacinta Saldanha: palmas para uma trabalhadora de cuidado

Por:  Érica Dumont-Pena*

Jacinta Saldanha.

Jacinta Saldanha.

Iniciamos o último mês do ano de 2012 com uma intrigante notícia nos jornais. Vocês hão de concordar que surpreenderia o fato do mundo inteiro ter se reportado à morte de uma enfermeira indiana, se não fosse a ligação desta morte com a família real britânica. Referimo-nos às reportagens sobre Jacinta Saldanha, a enfermeira que, enganada pel@s locutores de uma rádio australiana, teria facilitado o acesso à informações referentes à gravidez de Kate Middleton, a esposa do príncipe William. Salvo alguma exceção[1] essas notícias, num tom de “justiça”, ora condenavam @s jornalistas, ora falavam sobre as indenizações ou sobre mau tratamento recebido pelos colegas de trabalho após o trote e as providências a serem tomadas pelo hospital.

Na nossa opinião, o problema permaneceu intocado. Rui Rocha (2012) perguntou no seu artigo: “Se a enfermeira Jacinta tivesse facilitado informações relativas a qualquer outra pessoa internada no hospital, o desfecho seria o mesmo?” Possivelmente não seria, mas ainda sim, concordamos com ele, que é muito difícil acreditar que alguém acaba por suicidar-se por uma situação dessas. Nesse sentido, ao ler a notícia, atormentou-nos a terrível imagem dos frangos que morrem de susto ao serem surpreendidos por barulhos de palmas na granja. Tanto os frangos quando Jacinta, não morrem de susto. Morrem do estresse a que estão submetidos.

As notícias sobre Jacinta, uma “Ninguém” que cuidava dos “Alguéns” diz respeito a uma proporção significativa de mulheres que migram para o Hemisfério Norte. Lá, como notou Hoschschild (2012)[2], cada vez mais as atividades dos (as) imigrantes, deixam de ser a tarefa física de construir estradas ou erguer edifícios, para se tornar o trabalho de cuidar de pessoas. Jacinta e outras mulheres são cuidadoras e realizam uma atividade fundamental para que todos (as) nos possamos manter, continuar e reparar nossas vidas. Acontece que, se por um lado, todos (as) nós precisamos de cuidados, por outro lado, nem todos realizamos as atividades de cuidado. Tendo sido essas atividades historicamente designadas aos/às subalternizados/as: as mulheres e os demais escravos e pobres  (TRONTO, 1993)[3].

Assim, mantemos o tom, para lembrar que exploradas pelo trabalho e “dominadas pela própria dominação” (BOURDIEU, 2000)[4], essas mulheres trabalham sob condições extenuantes, impondo a si mesmas a prova de ocupar o lugar que lhes é destinado no trabalho de cuidados, que faz parte, ao mesmo tempo, das estratégias de sobrevivência das mulheres imigrantes e da “libertação” do destino de ser “dona-de-casa” para poder construir a própria vida. Realidades que refletem a ausência do estado, a exploração do trabalho e a desigualdade de classes e de gênero. Só falando nesses termos, inscreveremos as situações como as de Jacinta, sempre invisibilizadas, numa trama em busca de mais justiça.

 

 *Érica Dumont-Pena é militante da Marcha Mundial das Mulheres de Minas Gerais.

 

 


[1]     ROCHA, Rui. Ainda sobre o suicídio da enfermeira Jacinta Saldanha. Disponível em: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5044422.html. Acesso em: 28 de dezembro de 2012.

[2]     HOSCHSCHILD, Arlie. Nos bastidores do livre mercado local: babás e mães de aluguel. In: HIRATA, Helena; NADJA, A. Guimarães (Org.). O cuidado e cuidadoras: as várias face do trabalho de care. São Paulo: Atlas, 2012. p.02-p.11.

[3]     TRONTO, Joan. Moral boundaries. A political argument of care. New York: Routledge, 1993

[4]     BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

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