Esse texto é só mais uma reflexão

*Por Clareana Cunha

FHoje cheguei em casa e fui conversar com a minha mãe que é profissional da Saúde. Uma fato raro devido aos desencontro das rotinas, porém hoje pude ouvir dela a seguinte afirmação, “assustada”:

“- Filha é muito ruim você continuar andando a noite sozinha, a filha da minha amiga foi estuprada voltando do trabalho, olha que era cedo, mas enfim, acharam o cara e descobriram que era um ex- presidiário, agora ela esta no Emílio Ribas, fazendo tratamento “psicológico”, por isso volte mais cedo!”

Após essa noticia impactante, iniciei minhas reflexões sobre o assunto, e sinceramente é inaceitável que sejamos oprimidos pela violência em nossa sociedade. E o que é mais contraditório é que nós, cidadãos comuns, termos de nos adequar as ineficácias da segurança que o Estado se propõe a nos fornecer após o nosso anual pagamento do Imposto de Renda e demais impostos, que no mínimo deveriam custear toda e qualquer medida de segurança prevista até na Constituição.

Neste caso sendo uma mulher e ela ter sido violentada, o discurso comum é mudem seus horários para que evitem um contato inesperado com um estuprador. O problema é que além das ineficácias do Estado brasileiro para um cidadão “comum”: homem, branco, heterossexual, cristão e etc, existem um enorme déficit político, social e econômico  relacionado a nós mulheres.

Desde sempre fomos uma sociedade patriarcal mesmo que por lógicas internas, em seguimentos, classes e estruturas menores a mulher conseguisse estabelecer alguma relação de poder frente ao homem. A sociedade desde os últimos 3 mil anos sempre foi majoritariamente patriarcal, essa relação se reflete em ambientes familiares e trabalhistas.

Diante dessa moral pré-estabelecida, me pergunto: e o nosso direito de liberdade previsto e “garantido” por leis expressas na Constituição brasileira? Vejo mulheres por ai dizendo: “ah essa historia de feminismo não existe, isso é coisa do passado, a sociedade é igual pra todo mundo”.

 Porém, porque a maioria dos empregos ainda pagam salários inferiores para as  mulheres, ou simplesmente usam o “fator gênero” como decisivo na contratação de determinados cargos?

Porque então nos espaços políticos ainda existem pouquíssimas mulheres atuando no âmbito legislativo – ainda que temos avançado tendo a Presidente Dilma como a primeira mulher presidente no Brasil -, nunca tivemos, no Congresso Nacional, uma mulher. Oras, se temos igualdade, porque até hoje não colocaram uma mulher na presidência da Assembléia Legislativa, por exemplo?

É interessante observar e frisar que todo esse ideal proposto pela igreja e pela burguesia para bloquear os instintos sexuais após a revolução francesa, impondo um ideal familiar colocando-o como moral inquestionável dentro da sociedade, não permitindo que nossas potencialidades instinvas relacionadas ao sexo pudessem ser exploradas de maneira livre.

Vemos na mídia machista de hoje a exploração da exterioridade do corpo feminino em propagandas de cerveja e não as qualidade internas das mulheres, como se fossem nada mais nada menos do que pedaços de carne a venda como eram os escravos de 1800, e isso diz muito sobre o perfil e o padrão dos consumidores.

Muitas vezes ouço as pessoas reclamando do movimento feminista, dizendo que é na realidade um movimento “femista”, que quer afastar o homem das lutas sociais. Sinceramente acho que não tem nada disso. Enquanto houver desigualdade de gênero, vamos sofrer as mazelas sim do capitalismo, afinal de contas a classe operára é formada, a muito tempo e na sua maioria,  por mulheres, entretanto a mulher sempre foi tratada como inferior ao homem, tendo papeis sempre muito inferiores ao homem.

As vezes penso que o machismo esta tão inserido na nossa realidade, que fica difícil combater, mas não é impossível. Esclarecer que a mulher tem sim, espaço no movimento social, no emprego, na vida, que ela pode sim sair na rua a noite, que nada deveria acontecer com ela, sem que precise obedecer a horário e que na saúde, educação e economia em todos os setores não só aqueles garantidos pelas cotas, que sempre estão em discussão nos órgãos .

Ser feminista é uma luta anticapitalista, e entende que as mulheres tem vez e voz, e não como um congresso religioso andou falando ultimamente nos noticiários, para nós sermos submissas ao homem, ter só o papel de servir.

Feminismo é uma luta política, psicológica e de vida, uma luta pela vida das mulheres, que são violentadas, muitas vezes pelo homem “gentil que lhe abre a porta do carro, ou por aquele cara que te da flores no 8 de março e dia das mães, dizendo : À mulher da “minha” vida, com amor e carinho que sempre cuida e protege, já colocando novamente a idéia de mulher que só deve ser a mulher,  lavando, passando, cozinhando e cuidando dos filhos. Sim a mulher pode fazer todas essas coisas, e as antifeministas mais desinformadas, vem com aquela habitual frase:

“Mas nossa que não acho nada demais, eu querer ser organizada e limpar a casa”

É claro que ai pra bom entendedor ou não, esclarecemos que não se trata da casa ou do ato, e sim do que há por trás disso. Perdemos a liberdade e essa a questão.

O questionamento se desenvolve por a maioria dos outros preconceitos no Brasil como por exemplo o racial contra negros. Isto se manifesta de forma cordial, portanto o mesmo homem que é cavalheiro, abre a porta do carro, puxa a cadeira para a mulher sentar, entrega flores nas datas comemorativas e se intitula um suposto romântico é o mesmo opressor.

Portanto chegamos ao ponto principal. A liberdade, o ser livre, todas as mulheres, independentemente de serem de movimentos políticos ou não, podem refletir sobre a liberdade.

No fim não sou eu quem tenho de voltar cedo, mas sim a sociedade civil que deve me respeitar e fazer com que os direitos que temos garantidos pela Constituição brasileira sejam devidamente cumpridos. Enquanto isso, havendo opressão, repressão e ausência de liberdade, seguiremos em marcha até que sejamos livres.

 *Clareana Cunha é estudante de Ciências Sociais ( FESPSP-Fundacão Escola de Sociologia e Politica de São Paulo) e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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