Carta aberta às/aos estudantes da UFC e a comunidade

Nesta semana, um estudante da UFC espalhou um cartaz pelo campus do Pici da universidade (que trouxe indignação para nós mulheres). No cartaz, ele oferecia o que ele chamou de “um serviço de utilidade pública” nesse período que seria anterior ao suposto Fim Do Mundo, dia 21/12/2012. A informação do cartaz tinha um público-alvo: mulheres virgens! O serviço oferecido, pelo estudante, era o de resolver o tal “problema” da virgindade dessas mulheres.

O que pode parecer uma brincadeira para alguns, para nós, mulheres, que cotidianamente somos alvo desse tipo de piada, não passa de mais uma reprodução de uma ideologia que dá suporte e naturaliza a ofensa, o desrespeito e a violência contra a mulher.

Esse anúncio, ao tratar a virgindade como “um problema a ser resolvido”, “um serviço de utilidade pública” expõe as mulheres e as diferentes formas de vivência da sua sexualidade. Ao mesmo tempo em que a sociedade trata como atraso a manutenção do hímem valoriza a virgindade, e a tem como algo sagrado. Contraditoriamente, vivemos com o tabu do casamento virgem ao mesmo tempo que vemos leilões de virgindades. Nos dois casos, as mulheres são subordinadas ao poder patriarcal. A virgindade de um homem não se prova. E a de uma mulher, se tira.

A perspectiva do patriarcado e de domínio masculino é expressa através de práticas agressivas e atentatórias à dignidade feminina como essa. Não enxergamos essas brincadeiras como casos isolados, mas decorrentes do machismo de cada dia. A ideia de que o corpo da mulher pode ser usado para o prazer do homem e, portanto, a mulher deve ser submissa e subordinada contribui para reforçar a falta de autonomia das mulheres pelo seu próprio corpo das mulheres além de impor a heteronormatividade como obrigatória; é um reforço diário à violência, seja direta ou subjetiva, praticada contra as mulheres.

O cartaz que se propõe a ser “engraçado”, ao mesmo tempo que ridiculariza tal condição, submete as mulheres a uma violência sem tamanho, expondo a sexualidade feminina, algo que só diz respeito a elas mesmas. As mulheres, independente da sua opção sexual, devem exercer a sua sexualidade tal como desejam e a decisão sobre a perda ou a manutenção da virgindade deve ser resultado de uma decisão pessoal e não uma imposição. As mulheres precisam ter o seu direito de liberdade sobre os seus corpos respeitado! .

 

Nós, mulheres, não somos mercadorias nem objetos sexuais. Temos direito à ter autonomia sobre nossos corpos para dispor de nossa sexualidade como quisermos e com quem quiser, e devemos ser respeitadas! Não desejamos que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre elas mesmas.

Acreditamos que um mundo sem machismo é possível!

Entendemos que o verdadeiro papel da Universidade é ter o efeito transformador, responsável por contribuir na formação de indivíduos conscientes e capazes de agir criticamente sobre a realidade. Por isso, defendemos que haja não só a punição para esses casos, mas também, um processo educativo contínuo que contribua para desnaturalizar o patriarcado e romper com machismo.

Até no fim do mundo nosso corpo nos pertence!

Marcha Mundial das Mulheres do Ceará
Movimento Olga Benário
Levante Popular da Juventude

Comments

  1. Gabriele Kuyt says:

    Nenhuma apologia a violência foi feita, apenas um universitário meio babaca fazendo uma brincadeira, ressalto, inofensiva. Depois não sabem porque feministas não são levadas a sério. Não é suprimindo a liberdade de expressão que se combate o machismo. Aliás, só ressalta o conceito machista estereotipal feminino de não deixar o outro lado falar.

    • Gabriele, acreditamos que esse tipo de “brincadeiras” reproduzem um machismo que tem muita vez e voz em nossa sociedade, diferente das mulheres, e não tô dizendo com isso que nós mulheres não conquistamos espaço, mas que ainda falta muito o que ser feito pra mudar, falta! Outra coisa, machismo às inversas não existe, até porque nós não escolhemos a opressão. O feminismo quer a igualdade e não a guerra dos sexos.
      O feminismo nunca matou ninguém. O machismo mata todos os dias!

  2. Acredito que ninguém teve a sua liberdade de expressão cerceada, até porque se isso tivesse acontecido o rapaz nem teria colocado os cartazes e “oferecido o seu serviço”… Argumento “guarda-chuva” só camufla a questão central, e dispersa a atenção para as coisas que são mais sérias, que no caso foi/é a questão da violência… E aí se para alguns/algumas a violência é “só” agressão física, é o entendimento de cada um, mas ainda bem que existem entendimentos maiores e mais complexos, e que a própria Lei Maria da Penha sabe que existem outros tipos de violência…
    Duda – MMM

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