Isso não é sobre fé, é sobre violência

* Por Mariah Aleixo e Rafaela Rodrigues

Impossível não ter reação – qualquer que seja – após assistir o vídeo “como ser submissa a uma pessoa omissa?” do II Congresso de Mulheres Diante do Trono. Aliás, é impossível não deixar de se indignar ao assistir qualquer vídeo deste Congresso. As atividades desse grupo de mulheres são transmitidas pela “Rede Super de Televisão”, um canal ligado às igrejas evangélicas.

É importante deixar claro que a discussão que se propõe aqui nada tem a ver com religião, com a defesa de uma igreja A ou B, mas com política. Se é certo que “o pessoal é político”, acreditamos que os argumentos que defendem a submissão da mulher à Deus e ao marido, que reiteradamente são pregados por esse grupo, não tem relação direta com a fé, mas com a desigualdade entre mulheres e homens. São argumentos frequentemente suscitados para justificar uma conduta violenta do marido, pai, padrasto para com as mulheres.

No vídeo citado acima, as pastoras conversam sobre o papel da mulher na família, comentando que nos dias atuais as meninas estão sendo criadas mais para a carreira que para o lar. Dizem as pastoras que é preciso educar as mulheres para o casamento e, principalmente, para a submissão, não somente a Deus, mas ao marido. O marido, segundo elas, é o chefe da casa e é preciso honrá-lo e, ao que parece, honrá-lo significa parar tudo o que se está fazendo quando ele chega em casa para fazer somente as vontades dele. A educação dos filhos também deverá ser diferenciada com o menino aprendendo desde cedo que o seu papel é (supostamente) central (e estanque) na família.

Além disso, afirmam também: “A menina não sabe cozinhar, não sabe pregar um botão, não sabe passar, nunca arrumou uma cozinha”, “ela não está sendo preparada para o lar”, “a submissão é um princípio que abrange algo muito mais profundo e maravilhoso… sonhem em ser esposas… sonhem em ser mães…e que possamos preparar nossas meninas para o casamento.”

Em outro vídeo do culto de Mulheres Diante do Trono, chamado “A mulher deve respeitar o seu marido” pregado pela Pra. Ana Paula Valadão, a mesma afirma que o casamento é uma decisão definitiva e que a felicidade do casamento e da família é somente responsabilidade e (ou na falta de) culpa da mulher: “Você (mulher) não precisa amar seu marido, você precisa somente respeitá-lo”(sic).Por diversas vezes a Pastora Ana Paula dá exemplos extremos e afirma que a mulher não deverá desistir do casamento e deverá “pagar o mal, com o bem”, “Não caminhe pelos seus sentimentos, caminhe pela sua decisão”(sic).

A indignação é enorme quando se ouve isso de mulheres, pois são muitos anos de resistência do movimento feminista lutando contra a desigualdade e a submissão. Temos inúmeras vitórias e avanços. O papel da mulher na sociedade do século XXI é central, com máxima participação no mercado de trabalho, aumento significativo das líderes mundiais, maior representação legislativa, direito ao voto, entre outros tantos exemplos. Porém ainda vivemos sob os pilares do machismo, onde nosso modo de ser, de pensar e nossa sexualidade são moldados segundo padrões impostos, não nos dando o direito de decidir nosso próprio destino! Ter filhos, casar, ser dona de casa, não tem problema algum, contanto que seja uma escolha, não uma imposição. Se essa for a única possibilidade colocada às mulheres, conforme pregam as Mulheres Diante do Trono, aí está o grande problema.

Outro grande problema – aliás, o problema central – é que o discurso da submissão pregado por essas mulheres guarda íntima relação como o problema da violência contra as mulheres. Nossa vivência no movimento feminista tem mostrado que geralmente os agressores das mulheres dizem que tem razão em fazer o que fizeram/fazem porque elas não estão/estavam cumprindo o seu papel dentro da família, que é o de ser submissa ao marido, fazendo sempre as vontades dele, ou seja, colocando-se em último lugar na escala de prioridades. Não é de hoje que pesquisas como a que resultou no famoso livro “Cenas e Queixas – um estudo sobre mulheres, relações violentas e a prática feminista” e o recente artigo “As políticas de combate à violência contra a mulher no Brasil e a ‘responsabilização’ dos ‘homens autores de violência’” publicado na revista Sexualidad, Salud y Sociedad mostram que a violência sofrida pelas mulheres é justificada – pelas que sofrem com o problema e por seus algozes – como uma punição aceitável em face do não cumprimento do “papel de mulher.”

A doutrina do dever de submissão a Deus não pode ser transformada, por analogia, no (suposto) dever de submissão das mulheres aos homens, conforme este grupo prega. Isso é perigoso pois propaga os argumentos justificadores de todo o tipo de violação da dignidade das mulheres, e é por isso que afirmamos isso não é sobre fé, é sobre violência!

Perguntamo-nos se por acaso essas mulheres não estão sendo beneficiadas pela luta feminista, ao serem reconhecidas enquanto pastoras e debaterem sobre a palavra de Deus num congresso tão grande, que reúne cerca de 6 mil mulheres. Não seria uma incoerência pregar a submissão ao marido (e tantas outras ideias retrógradas que vem a reboque) nesse contexto de protagonismo dentro da igreja? Certamente, há uma enorme contradição nesse discurso, pois muito dos avanços que elas mesmas desfrutam advém do duro embate às ideias anacrônicas que elas pregam.

Importante lembrar, por fim, que faz pouco mais de quatro séculos que as mulheres conquistaram, em nossa sociedade, o direito de falar em público, de emitir suas opiniões, de se alfabetizar… A bíblia, no entanto, tem passagens escritas a mais de dez mil anos, que foram traduzidas muitas vezes e para as mais diversas línguas. Há de se fazer a devida adequação da leitura bíblica à realidade atual. Estamos certas de que isso é possível, uma vez que se o cristianismo sobrevive até hoje é porque leu as escrituras sempre à luz do tempo presente. Nossa sociedade corre para frente, direitos já conquistados pelas mulheres não podem sofrer golpes como esses. A emancipação das mulheres é necessária e justa e envolve o direito de decidir, de ter autonomia e o direito de não sofrer violência, até porque somos gente!

O debate está colocado. Esse assunto, ao que parece, está na ordem do dia e merece ser cada vez mais amadurecido. De todo modo, esperamos que possamos estar juntas – mulheres, negras, lésbicas, evangélicas, indígenas, ubandistas e católicas – diante de toda a sociedade, lutando por igualdade.

Mariah Aleixo é Advogada e Mestranda em Direitos Humanos pela UFPA
Rafaela Rodrigues é Mestranda em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela Puc-Rio

 

Comments

  1. Eu mostrei o vídeo para o meu marido. Achei curioso o comentário que ele fez, além das críticas óbvias: ele disse, sobre a parte do “a mulher não sabe cozinhar, pregar um botão e arrumar a cozinha” que, em âmbito doméstico, essas habilidades não precisam ser “aprendidas”. Qualquer um faz. Vc tem uma linha, uma agulha e um botão com dois buraquinhos. Qualquer um consegue imaginar o que fazer. Achei interessante, porque quase todo o trabalho “doméstico” quem faz é ele. Então obviamente ele não estava desmerecendo o trabalho doméstico. Sobre isso ele comentou que o trabalho doméstico é muito trabalhoso, mas é completamente sem mistérios, qualquer um dá conta. Daí eu me pergunto: Por que existe esse discurso dessa complexa ciência do arrumar a cozinha? É pra tentar fazer a gente se contentar com a vida super-complexa do dentro de casa e largar a mão do espaço público “do homem”? Ou é um tiro no pé que as mulheres acabaram dando para dizer que o homem “não consegue” fazer do jeito certo, do jeito bom, do jeito “que minha avó me ensinou”?

  2. Realmente é decepcionante escutar este tipo de argumento que só fomenta a violência as mulheres vindo de outras mulheres. Para mim, esse fato serve de exemplo para demostrar que a questao da opressao a mulher nao é somente uma questao de gênero, como o movimento feminista (sem quitar todas as vitórias que conseguiu este movimento) afirma. A questao da opressao as mulheres é uma questao de classe. Nao é por que hoje temos mulheres em altos cargos executivos, governos etc que vivemos em uma sociedade menos patriarcal. A presenca de mulheres em altos cargos de poder, mantendo a mesma ideologia patriarcal, demostra que enquanto nao lutarmos por um cambio real que transforme a sociedade desde suas raízes, nós jamais seremos verdadeiramente livres.

    Este sistema, para funcionar, necessita reproduzir a idèia de família patriarcal, aonde antes o “pai” representava a autoridade maior e a mulher e os filhos seus “serventes”. Repetindo assim, em modelo micro, o modelo macro de sociedade que necessita o capitalismo: O patrao e seus serventes. Os filhos dos trabalhadores sao criados para manter a cadeia alimentar do sistema, para serem novos trabalhadores e ao mesmo tempo, ascender a patrao. Os filhos da burguesia sao criados para ser patroes.

    Seguindo esta lógica controlam nossos corpos (nao temos direito ao aborto) e nossa sexualidade (tudo que saia da heteromartividade é tido como perversáo).

    Me parece necessário comecar ver “além da caixa”, que a questao de gênero une todas nós mulheres na luta, pero a questao de classe nos separa. Sao as mulheres pobres as que morrem por abortos clandestinos, sao as mulheres pobres que recebem menores salàrios, que sofrem em suas próprias carnes as mais terríveis opressoes impostas pelo patriarcado.

    “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”, já dizia Rosa Luxemburgo.

  3. Ana Clara Gurgel says:

    É lamentável que as próprias mulheres prestem-se ao papel de darem esses conselhos a outras que foram para o evento buscando orientação e ajuda. A ideia, nem tão cristã assim, de que a mulher deve ser sempre santa, pura, obediente e paciente diante de qualquer situação deveria ser impensável; é como se a mulher tivesse que trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, do marido, ter tempo para a igreja e atividades sociais e tivesse que ser perfeita em todos esses momentos e não pudesse nunca “explodir”, estar cansada, insatisfeita com sua vida, ao contrário, tem que se conformar para não ser alvo dos ais críticos comentários dentro de seu grupo religioso. Lendo esse texto, lembrei-me de Mulheres de Atenas, uma das mais geniais composições de Chico: qual a diferença destas mulheres do texto para aquelas escravas de seus companheiros na Grécia antiga? Quase nenhuma! E o que mais espanta é que o tom de ironia e revolta, tecido com tanta maestria pelo mestre, seria repudiado por essas que chamam a si mesmas de líderes espirituais, responsáveis pelo auxílio na busca da felicidade.

  4. Cristine Busch says:

    Contradição Nenhuma, pelo visto a senhora não sabe o que significa submissão = estar debaixo de uma missão, Primeiro a pessoa (cristã) esta submissa a Deus e a sua vontade pra vida dela. Se isto inclui um casamento, um parceiro, entra o “estar debaixo de uma mesma missão com este parceiro”! Deus é amor acima de tudo, e não apoia qq tipo de violência ou opressão sobre as mulheres, muito menos dentro do casamento. Essa mesma Bíblia, explica o pq da submissão, explica o que Deus fala dos deveres do marido e da esposa num relacionamento. Por exemplo dizendo que o marido deve amar a esposa como Cristo amou a igreja, a ponto de dar sua vida por ela, que deve amar como parte dele, como seu próprio corpo, (pois quem quer se ferir, ou sentir dor, ou ser machucado?), assim devem respeitar as esposas como se fossem UM só Corpo!
    E as mulheres que vão assistir essas palestras JÁ CONHECEM a Bíblia e JÁ sabem disso Tudo (ou parte disso). Talvez se vc soubesse e já tivesse lido a Bíblia, não estaria polemizando o assunto!!!

    • Cristine,
      seu comentário me gerou algumas dúvidas.
      Submissão é estar debaixo de uma missão? Isso é o que tá no dicionário ou e a definição da biblia? Qualquer um dos dois que seja eu gostaria que você me enviasse a referência ou o versículo, porque eu não achei essa definição nem no dicionário nem na bíblia. Alias, a definião do dicioário que eu achei foi bem diferente.
      E outra parte do seu comentário que eu não entendi foi essa: “Se isto inclui um casamento, um parceiro, entra o “estar debaixo de uma mesma missão com este parceiro”. Eu não entendi se a mulher é submissa a missão ou ao parceiro. E se esse parceiro está debaixo dessa missão com a sua esposa, então quer dizer que o homem também deve ser submisso a mulher?
      Obrigada!

  5. Rachel Oliveira says:

    Liberdade, cada um vive a sua como quer! Não é?? É essa a luta néh?

  6. Não é questão de fé mesmo! Sou evangélica e sou completamente contra esse tipo de pensamento.

    • São opiniões daquelas pastoras. As pessoas esquecem que a igreja é formada por pessoas. E, da mesma forma que existem mulheres fora da igreja que pensam assim, existe dentro. E, da mesma forma que existem outras como nós, feministas, existe dentro.

  7. Me desculpem as mulhers que ficaram descepcionadas com os comentários da Ana Paula, mas um dia já compartilhei da mesma opnião das senhoras e senhoritas, mas estudando a PALAVRA DE DEUS; (isso é uma questão de crer), comecei a refletir e ao passo que colocava em prática algmas atitudes que aprendia de acordo com os estudos sobre o papel da mulher conforme a Bíblia meu pensamento foi mudado.Hoje, sou uma mulher feliz no meu casamento, pois muitas das coisas que a pastora falou eu busco trazer para meu casamento, antes não era assim.Eu sempre queria ter a razão nas decisões, cheguei a jogar na cara do meu marido que ele era culpado pelas crises financeiras, pois não sabia adminstrar. enfim, não respeitava o papel do meu esposo como o cabeça do lar. O problema não estar em admitir o lugar do homem e da mulher dentro da casa, mas em primeiro conhecer na realidade o que isso significa para estruturar a família de forma harmoniosa.Dessa forma, meu casamento é uma bênção, meu marido cuida de mim, procura me agradar, me ouve, se preocupa comigo, enfim se fosse para me casar novamente seria com ele. Precisamos aprender como lhe dar nos relacionamentos porque o que temos aprendido é de forma distorcida, deturpada.Eu não tenho que seguir o que diz as mulheres modernas, só preciso ouvir a palavra do Senhor, e tenho sido surpreendida, pois desde que me posicionei mudando meu foco dentro do lar, meu marido também tem respondido com sua dedicação ao nosso casamento.

    • Ao ler um comentário como esse, no primeiro impacto vem a revolta, mas depois eu sinto muita piedade por alguém que escolhe ter uma vida baseada em conceitos desse tipo, de uma mente e vida em geral tão pequena e que quase que certamente levará todos os seus dias assim, só posso sentir piedade por tamanha alienação, no mais, isso é só uma representação e continuidade de alguns dos tantos elementos que diminuem a capacidade humana, da ignorância, da perspectiva pobre e cômoda. Mas em tal momento talvez seja melhor que você siga sua vida acreditando nos benefícios de todas essas coisas (o que você hoje você crê), porque se você realmente passasse a enxergar os reflexos dessa tarja, desse placebo se tornasse uma pessoa sim infeliz, mas por ter percebido as escolhas tão rasteiras que fez pra própria vida.

  8. “As mulheres são tão responsáveis quanto os homens pela perpetuação da cultura machista, mas com uma grande diferença: só os homens se beneficiam.

    Nenhum homem é inocente dos crimes do machismo.

    Mesmo que nunca tenha feito nada de errado, todo homem se beneficia da estrutura de dominação criada pelo machismo.”
    E a gente só pode fazer uma coisa por essas pobres criaturas que seguem esse tipo de conselhos, lutar para que todas nós ainda possamos viver em um mundo onde não importa o que você tem entre as pernas, mas o seu caráter, respeito, sabedoria…
    Mal sabem elas que centenas de mulheres morrem no mundo vítimas de machismo, desse machismo que elas mesmas pregam.

  9. mais uma vítima desse machismo disfarçado de boas intenções que essas “moças de Deus” apoiam!
    https://br.noticias.yahoo.com/suspeito-de-matar-a-mulher-no-rio-de-janeiro-anuncia-crime-em-rede-social-170739337.html

  10. Triste, muito triste. Essa família Valadão me provoca indignação. Acho, no mínimo, muito estranho uma família enriquecer muito além do necessário para seu sustento e vida digna usando o nome de Cristo para isso, o mesmo que disse que, se tivermos duas túnicas, devemos dar uma a quem necessita; que não se pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo; que disse a um jovem rico que, para segui-lo, ele deveria vender tudo o que tinha e dar aos pobres. Entendo que todos somos humanos, que temos inúmeros defeitos,que a graça é imerecida, mas pregar algo tão distinto do que se vive é muito incoerente. Cristo instituiu o amor como mandamento primeiro, o amor a Deus, o amor ao próximo como a ti mesmo. Como vamos amar ao próximo se não nos amarmos? Como é possível amar nosso companheiro ou companheira se a todo tempo nos mutilamos em um relacionamento abusivo? Alguém me diga em que momento Jesus disse que as tarefas domésticas cabem à mulher ou pregou qualquer ideal de feminilidade ou masculinidade. A mensagem Dele é tão superior a isso, que esses ideias perdem completamente o sentido.

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