Meteremos a colher até que todas sejamos livres!

Por Maria Júlia*

Hoje, 25 de novembro, é o dia Latino-americano e Caribenho de combate à violência contra a mulher. O dia foi instituído como tal no Primeiro Encontro Feminista Latino-americano e caribenho, realizado em 1981, em homenagem às mulheres que protestarem contra a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, e foram brutalmente torturadas e assassinadas por isso.

Mas hoje não vou falar de nenhuma de nenhum regime político autoritário, e nem das torturas ocorridas nos porões das ditaduras que passaram pela América Latina. Vou falar das torturas (sim, torturas) pelas quais passam todas as mulheres, todos os dias, no Brasil e no mundo.

Toda mulher tem uma história de horror para contar. Não sei onde li essa frase, se foi título de algum outro texto, só sei que a autora está completamente certa: toda mulher tem uma história de horror para contar. 

A realidade da violência contra as mulheres é extremamente dura, além de epidêmica. Todos os dias, inúmeras mulheres sofrem violência, seja psicológica, moral, física ou sexual. Para se ter uma idéia, no Estado de São Paulo, além das denúncias feitas ao 180 (nas quais somos liderança), a esmagadora maioria das ligações feitas ao 190 são em decorrência de violência contra a mulher.

Na última sexta-feira, dia 23, nós, da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo, junto com outros coletivos e movimentos, saímos às ruas, em virtude do dia 25, para denunciar essa situação. Denunciamos não somente a existência da violência, mas a precariedade em que se encontram os órgãos destinados a atender as mulheres agredidas. Não há delegacias da mulher em número suficiente para todo o Estado, e as que existem não funcionam 24h por dia todos os dias (a Delegacia da Sé, que funcionava todos os dias, ininterruptamente, diminuiu seu tempo de  atendimento  para o horário comercial aleagando “não haver demanda”). O Estado de São Paulo conta com 29 Centros de Referência e, também, como se não bastasse a pouca quantidade, estão completamente precarizados: A Casa Viviane dos Santos, em Guaianases, foi assaltada diversas vezes, colocando em risco as próprias funcionárias, e o Poder Público simplesmente cruzou os braços. Diversas outras casas estão prestes a fechar por falta de funcionárias/os, e nenhuma providência é tomada.

A conivência do Estado é crucial na perpetuação da situação de violência em que vivemos hoje. Por isso, é preciso denunciar e fazer pressão para que os agressores sejam devidamente punidos, e para que haja campanhas de prevenção à violência contra a mulher.

O núcleo Negra Zeferina, da MMM lá de Salvador, a exemplo dos escrachos realizados contra torturadores e outros colaboradores da Ditadura Militar, fez um escracho contra Eduardo Martins, o vocalista da banda New Hit,  cujos integrantes (9 homens) estupraram duas garotas no ônibus do grupo. A denúncia pública é essencial para constranger o agressor, acabar com a cultura de culpabilização da vítima, e trazer a discussâo para o âmbito público, já que a violência contra a mulher é tratada sempre como um problema particular (principalmente quando se dá no espaço doméstico), além de pressionar para que o Poder Púbico tome as devidas providências.

Uma pesquisa realizada pelos Institutos Pro-mundo e Noos indicou que “25% dos homens afirmaram ter usado violência física ao menos uma vez e cerca de 40% afirmaram ter usado violência psicológica contra sua parceira também ao menos uma vez. No total, 51,4% dos homens entrevistados usaram algum tipo de violência (física, sexual ou psicológica), sendo que 2% afirmaram ter forçado uma parceira a ter relações sexuais. Dezessete por cento informaram já ter usado um dos seguintes comportamentos: ‘forçar a ter sexo, comparar a companheira com outras mulheres, ridicularizar o corpo ou desempenho sexual da parceira, chantagear ou pressionar psicologicamente para obter sexo’”

Ou seja, a violência machista existe, todos sabem que ela está lá, mas muitos se recusam a reconhecê-la. Nosso papel é escancará-la, mostrar quem são os agressores, e quem são aqueles que compactuam com eles. E é preciso que denunciemos a violência que acontece em todos os espaços, na casa, no trabalho, nos movimentos mistos dos quais participamos.

 É preciso, ainda, se solidarizar com as vítimas de violência. Há uma série de motivos que podem levar uma mulher a não denunciar, e uma delas é justamente a falta de apoio. Nossa sociedade culpabiliza as mulheres, enquanto o agressor sai livre (a exemplo dos integrantes da banda New Hit, que estão em liberdade, enquanto as meninas são julgadas pela sociedade). É preciso, também, cobrar que o Estado se responsabilize pela proteção das mulheres em situação de violência. Nós temos a Lei Maria da Penha, uma conquista do Movimento Feminista, mas não adianta somente a mulher ter vontade de denunciar. É preciso que sejam garantidas as condições para que essa denúncia seja feita e levada adiante, se não a lei não sairá do papel. 

É por isso que estamos nas ruas. Vamos denunciar todos os Eduardos Martins, goleiros Brunos e afins que estão por aí, impunes, enquanto suas vítimas são excluídas da sociedade, ou nem têm mais a possibilidade de exigir justiça.

Dizem que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Ah, se mete sim, e muito. Até que todas sejamos livres!

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da MMM São Paulo.

Comments

  1. Sãozinha Menezes says:

    Continuaremos sonhando e lutando até que sejamos livres!

  2. Que texto inspirador! É necessário desfazer uma série de consensos e destruir a força do patriarcado para que seja diminuída a opressão e a violência. É preciso refletir e cobrar mesmo do Estado as soluções, não só de punição aos agressores das mulheres, mas cobrar prevenção, educação de qualidade. Talvez um dos maiores agressores da mulher seja a ignorância, tanto a sua, quanto a ignorância que leva à sua agressão!

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