Sobre mulheres, guitarras e autonomia

Por: Bruna Provazi*

Pense num sonho. Pense num acampamento de férias em que você possa aprender a tocar bateria, baixo e guitarra, conviver com musicistas inspiradoras e assistir a vários shows, tudo isso na companhia de outras minas com as quais você se sinta confortável e livre: pra errar, pra acertar e pra se divertir. Em janeiro de 2013, vai rolar a primeira edição de um projeto inédito na América do Sul: o Girls Rock Camp, acampamento de vivências musicais para meninas. As inscrições pra voluntárias se encerraram nessa semana, somando mais de 80 inscritas. Agora, estão abertas inscrições pra campistas, meninas de 7 a 17 anos que queiram viver essa experiência que é pra toda a vida.

Girls Rock Camp nos Estados Unidos.

No projeto original, que rola nos Estados Unidos, as meninas têm aulas de instrumentos, participam de oficinas diversas, assistem a jam sessions, trocam ideia com as artistas convidadas, montam bandas e, ao final da semana, se apresentam em um show para pais/mães/responsáveis e convidad@s. Mas o acampamento é muito mais que isso. O objetivo principal é empoderá-las – no sentido mais libertador da palavra – para fazerem o que quiserem na vida, independente do que se convencionou a chamar “coisa de menino” e “coisa de menina”, e tem como objetivo ajudar a desenhar para elas noções de coletividade, de apoio, de colaboração e de solidariedade entre mulheres, antes mesmo que os meios de comunicação ou o senso comum lhes digam todas essas merdas sobre “rivalidade feminina” e afins.

A infância e adolescência são momentos difíceis na vida de todos, especialmente para meninas, pois cada vez mais cedo, exigências de padrões de beleza e comportamento aparecem na televisão, na internet, revistas de moda, fazendo com que muitas meninas se sintam inseguras e infelizes consigo mesmas. A experiência no acampamento visa proporcionar um suporte que caminha por fora destes modelos, valorizando a diversidade, os saberes diferenciados, as habilidades e competências diferentes, favorecendo a grupalização, a troca de experiências, a expressão de ideias, anseios, temores e vontades através da música, elevando assim a autoestima e promovendo os saberes com ações afirmativas e referências positivas do gênero feminino, no campo da música, da crítica social e das artes em geral.
http://www.girlsrockcampbrasil.org/

2008 foi um ano em que muita coisa mudou na minha vida, principalmente porque fizemos a segunda edição do Festival Mulheres no Volante, na cidade de Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais. Foi, sem dúvida, uma das edições mais significativas do festival, e grande parte disso se deve à participação da banda que convidamos pra encerrar o evento: a Biggs.

Nessa segunda edição do evento, tínhamos uma pequena lista de grandes desafios, entre eles, ultrapassar os limites do nosso círculo de amig@s que tinham ido no primeiro festival, em 2007 – os quais foram obrigad@s gentilmente convidad@s a comparecer à série de churrascos que se sucederam, a fim de tirar nossas contas do vermelho e acabar com o estoque não-consignado de cerveja que havia sobrado. Se hoje, em 2012, muita gente de vários cantos do Brasil chegam até nós querendo tocar no festival, querendo ajudar na organização, divulgar o evento, doar grana no Catarse, vestir a camisa do volantinho, ou mesmo querendo só entrar de graça (embora o preço da entrada nunca tenha chegado a mais de 7 reais. Risos), lá em 2007, a gente tinha que explicar pras pessoas o que era um festival-cultural-feminista-independente, em Juiz de Fora. E nunca foi fácil. Ainda mais porque escolhemos um nome que, só de pronunciá-lo em voz alta, já implica, no mínimo, na tarefinha militante de rebater a piada machista, velha e sem graça do “perigo constante”. Sem contar no sem-número de outras questões usualmente levantadas (“mas homem pode entrar também?”, “nossa, feminista? não sou feminista, sou feminina”, blá-blá-blá).

Fato é que, em 2008, a gente decidiu chamar a Biggs pra viajar 8 horas, de São Paulo a Juiz de Fora, e tocar num festival feminista totalmente desconhecido, sem dinheiro algum em caixa e sem ter a menor ideia se iria alguém além d@s noss@s própri@s amig@s que foram no ano anterior. E elas e ele toparam. E deu tudo absolutamente certo. E foi incrível. E pagamos as contas. E, na real mesmo, isso é o que menos importa.

Às 14 horas do domingo começava o festival, com uma roda de conversa sobre mulheres na música e com várias oficinas: de bateria, de guitarra, de malabares, de grafite, etc. E daí eu chamei a Flávia, vocalista e guitarrista da Biggs, atração principal e, portanto, última banda a tocar, pra participar do debate, que era a primeira atividade do festival. Depois de viajar a noite inteira de busão, às 14 horas, Flávia e Mari (roadie da banda e guitarrista) estavam sentadas no chão, na roda, Brown (baterista), estava assistindo à “oficina” de guitarra – que até então era mista – e Mayra (baixista) estava lá fora, trocando ideia com a galera, montando a banquinha de cds e camisetas e pagando sua própria primeira cerveja do dia.

Elas e ele podiam só ter tocado, o que, por si só, já teria sido incrível. Mas estavam lá, desde as 2 da tarde, compartilhando experiências que confirmavam que a tal da discriminação das mulheres na música não era um delírio coletivo de todas nós, muitas das quais nem se atreviam a pensar alto em um nome pra isso (opressão), ao mesmo tempo em que davam dicas de sobrevivência na cena e macetes pra virar o jogo, o que inspirava a todas nós. Então gravamos um documentário, que, com todas as muitas limitações técnicas que tivemos, também foi um passo definitivo pra gente pensar no sentido daquilo tudo a partir das vozes das próprias musicistas participantes do festival.

 

 

O workshop de guitarra foi dado por um cara, que passou tipo uma hora no palco, solando virtuosamente e falando pra galera lá de baixo sobre escalas pentatônicas, gregas e egípcias. E daí, um tempo depois, eu estava no camarim, mega nervosa porque tinha acabado de sair do palco com a minha banda (Big Hole), certa de que tinha cagado o show inteiro, quando a Flávia virou pra mim e disse: “por que você não dá a oficina de guitarra?”. “Quê?”. “É, você toca legal, por que você não dá a oficina?”.

O objetivo principal aqui não é formar musicistas, mas despertar um novo olhar para si mesmas, a partir da conscientização do “poder fazer” e da desmistificação do que pode ser considerado intransponível, preparando de maneira lúdica, para o enfrentamento das muitas questões encontradas pelas mulheres na sociedade, almejando assim a formação de cidadãs críticas e conscientes de suas potencialidades.
http://www.girlsrockcampbrasil.org/

Três anos se passaram até que eu viesse, de fato, a dar minha primeira oficina de guitarra. E não é que, três anos depois, eu viesse a achar que tocava bem, ao ponto de dar uma oficina. É que, de alguma forma, eu me senti confiante, simplesmente porque eu entendi que o mais importante em uma oficina de guitarra dentro de um festival feminista é que ela seja feminista. É que ela transmita auto-confiança, solidariedade, cumplicidade, que seja colaborativa. Que seja um momento de troca de experiências, de dar voz e de dar uma guitarra na mão de minas que nunca pegaram numa palheta, e deixar que liguem os amplificadores, que pisem nos pedais, que façam barulho, que se sintam livres e “empoderadas”: pra errar, pra acertar e pra se divertir. E o melhor jeito de fazer isso, é colocando uma mulher pra dar oficina pra mulheres.

 

Oficina “rock para meninas” no 4º Festival Mulheres no Volante (2011).                         Foto: Thais Thomaz.

Oficina “rock para meninas” no 4º Festival Mulheres no Volante (2011).                             Foto: Thais Thomaz.

Por que meninas? Porque somos meninas, sabemos o quanto é difícil ser uma menina, e como somos criadas para não confiarmos umas nas outras e até em nós mesmas, e na importância em acreditarmos que podemos ser quem quisermos, que podemos romper com barreiras impostas pela sociedade e por nós mesmas. Especialmente sociedade contemporânea, onde características como o atitude, solidariedade, trabalho em grupo, mediação de conflitos, enfretamento de situações problema, baseados na autoestima entre outros, tem sido cada vez mais valorizadas. Sendo assim a vivência no camp buscar proporcionar estas experiências.
http://www.girlsrockcampbrasil.org/

A gente não tinha uma receita pronta pra fazer o festival. O Mulheres no Volante é um processo. A gente aprendeu, na prática, que não adiantava fazer oficina mista, que tinha que ser só pra meninas pra que funcionasse de verdade. Porque, se a gente abria 10 vagas pra meninos e meninas, 8 meninos e 2 meninas se inscreviam. Mas, se a gente abria só pra meninas, tinha fila de espera. E teve. E foi libertadora pra todas nós. E o show da Biggs fechou a noite, rasgando a nossa alma naquele dia tão definitivo nas vidas de todas nós. E que venha o Girls Rock Camp!

 

 

Matéria que rolou sobre a oficina de guitarra no Festival Mulheres no Volante 2011:

As meninas que fazem rock
Com intenção de quebrar estereótipos e preconceitos relativos à ocupação feminina em alguns segmentos, mulheres participam da oficina Rock para Meninas

*Bruna Provazi é militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres, jornalista e organizadora do Festival Mulheres no Volante.

Comments

  1. Ai Bruna que emoção!! Muito Obrigada mesmo querida! Você não sabe o quanto é importante saber disso!Fico infinitamente honrada e desejo vida longa ao Mulheres no Volante e estamos juntas no Girls Rock Camp Brasil!! e tod@s meninas e mulheres estão super convidadas a caminhar conosco ombro a ombro, horizontalizadas, plurais, sem lideranças icônicas, mas unidas vivas e na luta! Bjo enorme! We Rock! (Flavia Biggs)

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