O direito à cidade também é uma luta feminista!

por Alana Moraes*

Nesse período de eleições municipais em todo país o debate sobre nossas cidades ganha centralidade na agenda pública.  Para nós, feministas, disputar um projeto de cidade é de extrema importância e em diversas regiões do país, de norte à sul,  nos organizamos de muitas formas para que nossas cidades possam ser construídas a partir de bandeiras que nos acompanham em nosso dia a dia: justiça, igualdade, participação e radicalização da cidadania.

O que as feministas têm a ver com o debate sobre a cidade?  Muita coisa. No entanto gostaríamos de destacar dois elementos que muito tem impactado a vida das mulheres e que merecem reflexão nesse momento de disputa de projetos: o problema do acesso à cidade e a crescente mercantilização dos espaços e dos serviços.

A questão do acesso à cidade é uma questão central no que diz respeito à radicalização da cidadania e que muitas vezes parece ser esquecida nos debates públicos. Possuir acesso à cidade significa poder vivencia-la, significa a possibilidade de integração com o espaço público, significa ter a possibilidade de se locomover pelo espaço em que se vive a qualquer hora, sobretudo, significa a possibilidade de intervenção e diálogo com a cidade, de expressão, de encontros, descobertas.

As mulheres são as que geralmente trabalham em lugares mais distantes da moradia. Por isso são as que levam mais tempo nos transportes públicos, o que nas grandes metrópoles tem se mostrado como estruturas esgotadas e que não oferecem qualquer dignidade para os trabalhadores e trabalhadoras. Além de trabalharem mais horas, de permanecerem mais tempo nos transportes, as mulheres ainda precisam acordar mais cedo e dormir mais tarde para que as tarefas domésticas possam ser realizadas. Não é de se estranhar que nos finais de semana, além de continuarem a jornada doméstica, as mulheres optem por descansar. O que queremos dizer é que o acesso ao espaço público, o acesso à cidade, o direito de usufruir das expressões culturais, dos encontros, do espaço público, é muito restrito para nós, mulheres. Sem falar da violência que sofremos nas ruas diariamente e que muitas vezes torna nossa mobilidade ainda mais restrita. Nossa sociabilidade é na maior parte das vezes restrita ao espaço doméstico, ao ambiente familiar ou conjugal.

Os homens, ao contrário, conseguem constantemente instituir seus lugares de sociabilidade masculina: o chope com os amigos, o futebol com a rapaziada, o pagode com os parceiros do bar, o domingo de Pacaembu ou Maracanã, constituindo-se também como sujeitos que transitam, “conhecem mais a cidade”, se apropriando dos espaços públicos e sem questionar que para isso as mulheres precisam estar em casa, muitas vezes impedidas de produzir outras vivências e de experimentar nossas cidades.

O outro problema que nos afeta cotidianamente é a questão da mercantilização das cidades, intensificada pelos grandes projetos da copa e das olimpíadas e por uma concepção urbanista higienista que para se realizar precisa expulsar os pobres cada vez mais para as margens. Uma cidade mercantilizada é uma cidade onde quem domina é a especulação imobiliária, os serviços pagos, a cultura e os espaços públicos privatizados, as empreiteiras e investidores do grande capital. Quando o mercado avança o estado e os serviços públicos são atacados e mais uma vez quem paga a conta somos nós, mulheres. Sem creches públicas e de qualidade, sem um serviço público de saúde e de educação de qualidade nós sofremos o impacto diretamente: somos ainda as responsáveis pelos filhos, velhos, pelos doentes e temos que dar conta de todos esses cuidados fundamentais para a reprodução da vida humana.

Quando nós falamos em igualdade, entre outras coisas, é porque sabemos que somos afetadas de maneira desigual por problemas comuns. Sem acesso à cidade e ao espaço público nós ficamos cada vez mais aprisionadas aos espaços do trabalho e da casa, do mercado e do lar, da produção e da reprodução. Pouco nos resta e nos é permitido vivenciar nossa cidade, ruas, museus, reuniões do bairro, a peça de teatro que acontece na esquina, a ocupação da praça. Precisamos de uma cidade onde possamos nos reconhecer e para isso é fundamental um sistema de transporte publico de qualidade, ciclovias seguras, precisamos de ruas seguras e de uma cidade sem violência, precisamos ter mais acesso à cultura e também à produção de cultura, todos os dias, em todos os lugares. Precisamos ter acesso aos encontros que a cidade possibilita, às pessoas, a uma vida criativa e feliz: livre de opressões. Porque a restrição à cidade também é uma face da opressão.

Cidade é gente pensando, produzindo lugares, memórias, ideias. Não é à toa que todos os regimes ditatoriais tiveram a preocupação de manter a “ordem” a partir do esvaziamento dos espaços públicos. A cidade possibilita os encontros e os encontros são uma das coisas mais importante para processos radicais de mudanças.

Para nos reconhecermos como cidadãs, como parte constituinte da cidade, como sujeitas dos encontros de ideias é preciso também que o Estado fortaleça os serviços públicos em detrimento dos interesses do mercado. Queremos creches públicas, uma saúde publica de qualidade, restaurantes populares, lavanderias públicas para que possamos dividir com nossos companheiros e companheiras os serviços domésticos, mas também com o Estado. Só assim teremos mais liberdade.

O que o feminismo tem a ver com as cidades?  Tudo!

Continuaremos em marcha por uma cidade livre, uma cidade nossa, uma cidade que produza justiça, encontros e amor!

Alana Moraes é mestra em Antropologia e militante da Marcha Mundial das Mulheres Rio de Janeiro.

Comments

  1. Edna Albuquerque says:

    Alana,que texto tão forte e tão significativo,onde me encontro e sei que todas as mulheres se encontrarão.Vivo na pele todos esses dilemas.Um exemplo triste que deixo aqui é que próximo a minha casa há uma área verde,levei minha cadela lá e ela vibrou com o espaço,mas não pude mais leva-lá por que é uma área (Que apesar de ter um Quartel militar)É perigoso por falta de segurança pública.Então eu apenas transito por minha rua e isso é péssimo para quem cria filhos ou animais.Até para nós mesmo poder dá um passeio,fica difícil.Entre muitas coisas que você fala no texto,a falta de opções para a mulher e seus entes vivenciar os espaços públicos é muito triste.

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