Diálogos das vaginas

Por: Sarah Luiza*

Prefiro diálogos a monólogos. Pensar e falar sozinha sempre me pareceu mais difícil. Mas conheci um diálogo que falou com muitas, com várias, de todas: “Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler. Quando li pela primeira vez o título do livro, o primeiro pensamento que me veio à cabeça, devo admitir, foi: pra que nos expor dessa forma? Ao lê-lo, entendi: expor exatamente para não esconder, para mostrar que ela (a vagina, isso mesmo) existe, que ela é importante, para não mais fingir que ela não existe. Mas preciso explicar como cheguei a essa conclusão.

Já no prefácio de Glória Steinem, no qual ela se remete a uma geração do “lá embaixo”, me perguntei: será que essa geração já passou? Será que ainda não é assim que tratamos no cotidiano as partes íntimas das mulheres? Como vejo nossos órgãos sendo tratados? E as próprias questões foram me dando indícios das respostas: sempre temos uma forma indireta, discreta, sutil para falar do corpo, da vagina das mulheres.

Lembrei-me, então, de momentos que tive com alguns grupos de agricultoras rurais no Semiárido do Ceará, em 2012, onde conversávamos sobre violência contra as mulheres. As participantes tinham desde 25 até 60 anos, filhas, mães, avós. É sintomático perceber como que, através do tema, acabávamos por falar sobre sexo. O objetivo nem era tratarmos sobre sexo, mas ao falarmos sobre a importância do desejo mútuo para que a relação sexual fosse prazerosa, parecia que estávamos dizendo algo absurdo, algo muito distante do real. Algumas até perguntavam, para entender do que eu estava falando, “e você é casada?”, “Não pode ser…”, pensavam.

A ideia – que parece simples para algumas de nós – da necessidade do consentimento das mulheres ou da vontade do casal para uma relação saudável e prazerosa parecia estranha. Muitas comentaram: “Quando eu digo que não quero, que estou com dor de cabeça, ele vai logo dizendo que eu tenho outro”. E elas acabam “cedendo” para agradar aos maridos e não gerar conflitos. Ver o quanto a violência sexual, o estupro, é parte do cotidiano das mulheres, dentro de suas casas, é algo chocante, impactante. Não podemos nos calar.

Não poderia, no entanto, deixar de lembrar que, paralelo aos estupros domésticos, ainda vimos, nesse ano, casos absurdos de estupros coletivos, como das jovens que foram estupradas e até mortas pelos próprios “amigos”, como presente de aniversário na Paraíba, e de estupros “corretivos”, que tratam as lésbicas como mulheres que precisam “saber o que é um homem” para se regenerarem. Assustador!

Desejo e prazer, para muitas delas, pareciam palavras ainda sem significado real ou algo que não dizia ou deveria dizer respeito a elas, como algo “que não é coisa de mulher”. Para outras, admitir que gostam de sexo é algo vergonhoso, como se fosse algo para mulheres vulgares. Isso ficou muito explícito em comentários em que algumas afirmavam, como que em segredo: “Mas tem mulheres que gostam… Absurdo!”, em um posicionamento explicitamente de cunho religioso, em que o sexo ainda é considerado como pecado. Mas expresso também em piadas nas quais algumas eram citadas, apontadas como “aquela que gosta daquilo”, tornando-se chacota, piada para as demais.

Esses comentários me trouxeram a lembrança de um livro de Mary Del Priori, onde ela se refere ao Brasil colonial como um período do ideal do amor domesticado. Deu-me a sensação de que ainda vivemos um retrato desse ideal, onde o amor e o sexo ainda são tratados como algo que precisa ser contido, reservado, um serviço. E mais do que isso, algo que legitima o desejo e o prazer apenas para os homens.

Tal como o Historiador Edward Shorter para a Europa do Antigo Regime, os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar perante o outro. Os maridos deviam mostrar-se dominadores, voluntariosos no exercício da vontade patriarcal, insensíveis e egoístas. As mulheres, por sua vez, apresentavam-se, como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas mulheres como máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais mecânicas e despidas de expressões de afeto. Basta pensar na facilidade com que eram infectadas por doenças venéreas, nos múltiplos partos, na vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei (PRIORI. Mary Del, 2006, pg.37).

Falar sobre o sexo e o corpo das mulheres ainda gera incômodo, ainda é, em pleno sexo XXI, algo constrangedor. A vergonha se expressa pelo fato de pouco se falar sobre o assunto e, portanto, ser ainda um mistério para muitas. Como nos relatos das mulheres em 1953, no livro “Monólogos da vagina”, ainda hoje, muitas dessas mulheres não conhecem seu próprio corpo, poucas se tocam, se sentem. Falar na vagina, por exemplo, é algo que ainda causa desconforto, estranhamento e até mesmo nojo, como se estivéssemos falando de algo sujo ou que devesse continuar escondido. As risadinhas desconcertadas e os olhares desconfiados pareciam perguntar: como ela pode falar desse jeito? Será que ela falou mesmo esse nome?

É claro que existe uma diferença entre o olhar das jovens, das adultas casadas e das idosas: para as idosas o sexo remete a dor, a sofrimento. Elas lembravam e comentavam, quanto às relações sexuais, que foram forçadas, por obrigação, para servir ao marido. Para as adultas casadas, o sexo é visto como uma necessidade para se conservar o casamento, para que os homens não busquem mulheres “lá fora”. Para as jovens solteiras, ainda há a vergonha de admitir o desejo, de se falar das vontades, são cheias de dúvidas, mas também de razões e certezas de que querem ter direito a sentir prazer.

Falamos sim de muitos avanços, de diversas conquistas que as mulheres têm tido nas últimas décadas no campo dos direitos, ampliando sua participação no mercado de trabalho e na política. Mas ouvir essas mulheres falando sobre sua vida pessoal, íntima, me deixou os seguintes questionamentos: quando teremos de fato autonomia sobre nosso corpo? Quando conseguiremos realmente ter prazer e não precisar ter vergonha disso? Quando não mais trará constrangimento falarmos da nossa vagina? Pois é, companheiras, a luta continua. Continuemos em marcha!

*Sarah Luiza é mulher, feminista, anti-capitalista, cientista social e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

Referência bibliográfica:
DEL PRIORI, Mary. História do amor no Brasil. 2. ed. São Paulo : Contexto, 2006.
ENSLER, Eve, 1953. Os monólogos da vagina. Tradução Fausto Wolff; prefácio Glória Steinem. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

Comments

  1. Excelente texto!!! É preciso falar de sexo, prazer, violência e vagina sim!!!

  2. Edna Albuquerque says:

    Muito assunto,para que nós continuemos nos nossos monólogos,os diálogos são mesmo um grande ponto de partida para desmistificar esse pudor sobre a naturalidade do nosso corpo.

  3. Texto excelente!

  4. Jamille Narciso says:

    A importância da articulação dos ideais do movimento emergem ao olharmos a necessidade do diálogo aberto e acessível. Mas devemos sempre ter a responsabilidade de sermos sutis na hora das abordagens, certo?!
    Acredito que devemos entender esse moralismo consolidado e a partir disso, com trabalho de equipe, montarmos mais pontos de atuação. Diversificando e encontrando métodos brandos para se obter o entendimento coletivo do que é esse movimento necessário para a sociedade.

    A luta é longa… Vamos atuar!

  5. Amanda Nobre says:

    Parabéns pelo texto! Excelente reflexão sobre a sexualidade de nós mulheres!

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