Reflexões sobre a paridade

*Por Maria Júlia Montero

Uma das grandes discussões referentes à questão de gênero dentro das organizações mistas e movimentos sociais é a questão da paridade em cargos de direção, coordenação etc.

A questão pode ser polêmica por vários motivos: primeiro, é comum dizer que cotas para mulheres (qualquer que seja a porcentagem) significa nos dar um privilégio, entre outras coisas, assim como afirmam a respeito das cotas para negros nas Universidades Públicas (que seria o mesmo que tirar direito dos brancos, e, ó meu deus, pobres brancos).

Contra argumentos como esse, é preciso lembrar que as cotas são ações afirmativas, e de que não é possível tratar com igualdade aqueles que são tratados de maneira desigual na sociedade. É a velha história da criança rica e da criança pobre, e uma maçã: dividíriamos-na igualmente, ou daríamos a maçã toda para a segunda criança?

Além do mais, não se pode cair na ingenuidade (se é que há espaço para isso) de achar que mulheres deixam de ocupar cargos de direção por que o destino assim quis. Mulheres são consideradas “despreparadas”, mas as pessoas ignoram que ninguém nasce dirigente de nada, e é preciso que as e os militantes assumam tarefas para que possam aprender. Alguém só aprenderá a ser dirigente sendo (além de estudar a parte teórica, claro), e isso vale para mulheres e homens.

Há, ainda, outro fator: o trabalho das mulheres não é reconhecido. Então, ainda que uma mulher se destaque e fique à frente de outros militantes, ela será desconsiderada (e, assim, não terá o espaço necessário para aprender e tornar-se de fato uma dirigente, e então voltamos ao parágrafo anterior).

De qualquer forma, é preciso ter algumas ressalva ao tratarmos do tema, pois, dependendo da maneira como é encarada, a paridade pode virar-se contra as mulheres e seu esforço de inserir-se e manter-se na política, sendo utilizada de forma oportunista por aqueles que insistem em manter seus privilégios.

No último dia do Seminário Internacional da SOF (sobre o qual falei um pouco aqui), Magdalena Leon (REMTE – Equador) comentou algo a respeito de uma organização (ou uma comunidade, não me lembro ao certo) de seu país em que as mulheres perceberam que seria possível eleger mais do que 50% de mulheres para os cargos de direção. Prontamente os homens se levantaram e falaram que isso não seria possível, pois a organização/comunidade havia decidido pela paridade. Ou seja, não seria possível que as mulheres ocupassem 60, 70 ou 80% dos cargos, pois havia a obrigatoriedade de que fossem somente a metade. Nesse caso, a paridade acabou por congelar o processo de fomento à igualdade dentro da organização.

Em primeiro lugar, é preciso afirmar que a paridade não é um fim em si mesmo: ela é um mecanismo de superação de desigualdades. Ou seja, o que queremos não é simplesmente 50% de mulheres e 50% de homens em cargos de direção, e formar vários “casais”. A intenção é utilizar a paridade para fazer com que mais mulheres participem da política, e com que mais mulheres tenham seu trabalho reconhecido, para que, um dia, não sejam mais necessárias as cotas. Igualdade não é simplesmente dividir as coisas ao meio, mas sim superar as condições que fazem com que seja necessária essa divisão.

Alguns podem argumentar que o ideal é metade-metade, assim ninguém ficará sub-representado. Eu pergunto: porque afirmam que mais mulheres do que homens em cargos de direção resultaria numa sub-representação dos homens, mas quando é o contrário (ou seja, a maioria das vezes), ninguém levanta a voz? Por acaso ter uma diretoria composta majoritariamente por homens não faz com que as mulheres não sejam representadas?

Aí, entramos na seguinte questão: mulheres são historicamente oprimidas e exploradas pelos homens, e não o contrário. Ou seja, mais mulheres no poder não significa “virar o jogo” e passar a oprimir os homens, significa igualdade, passar a ocupar a política e mostrar que mulheres são tão capazes quanto os homens. Já o contrário não é verdadeiro: não dá pra afirmar, como disse antes, que o fato de ter mais homens em cargos de direção é mera obra do destino e que não tem nada a ver com machismo, pois isso significaria ignorar a sociedade em que vivemos, uma sociedade em que, numa relação oprimido-opressor, as mulheres ocupam o primeiro lugar.

O que quero dizer aqui é que uma diretoria composta somente por mulheres não significa oprimir os homens. Já o contrário é verdadeiro: uma diretoria composta somente por homens significa que as mulheres estão sendo ignoradas e tratadas como seres incapazes de fazer política.

Se levarmos para a questão das cotas raciais nas universidades, por exemplo, talvez fique mais claro: podemos afirmar que reservar 50% de vagas para a população negra significa proibi-la (digo proibir oficialmente, porque na prática isso acontece) de ocupar as outras vagas? Não, significa somente reservar 50% delas para essa camada da população. Ou seja, a população negra ocupará no mínimo metade das vagas das Universidades Públicas, e não no máximo. Se estudantes negros passarem sem cotas, eles não serão proibidos de entrar na Universidade, e isso não significa que os negros passarão a oprimir os brancos.

É dessa maneira que deve ser tratada a paridade. Não como algo congelado, que acabe por impedir uma maior participação das mulheres, mas sim, como já afirmamos, como um meio de superação de desigualdades. Um mundo justo e igualitário não é aquilo simplesmente dividido ao meio, mas sim um mundo em que haja igualdade de oportunidades, realidade esta que ainda estamos longe de alcançar em nosso país.

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

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