O Cadinho pode, mas a Carminha não?

Por: Raquel Viana*.

Tudo que está no sistema tem uma intencionalidade. Em se tratando das telenovelas da Rede Globo então, isso é bem mais forte. Acompanho de vez em quando a novela Avenida Brasil, e para mim é impossível não ter um olhar crítico sobre a mesma. Na última segunda-feira (08/10/12), numa das tantas cenas com a Carminha, personagem da Adriana Esteves, senti como a lógica cruel do machismo é reforçada nessa novela. Ao descobrir sobre as mentiras e a traição da Carminha, a reação do Tufão foi de muita violência, ameaçando inclusive de matá-la.

Fico imaginando: o que será que as pessoas pensam sobre isso? Como as pessoas reagem ao ver essas cenas? O que fica? Qual o recado ou a mensagem que chega? Mais que isso, imagino como um cara que pratica violência contra as mulheres sente-se ou reage assistindo a cenas como essas, ou como uma mulher que busca sua autonomia se sente.

Fonte: facebook.com/nosdenunciamos.

Reparem que após ser expulsa pelo Tufão, a Carminha ainda foi agredida pela Monalisa, o que reforça a ideia de que as mulheres reproduzem o machismo e a violência, que aliás tem sido uma característica muito reforçada nessa personagem, a tal Monalisa.  É como se o que quisesse passar para a sociedade é que as mulheres merecem, sim, ser espancadas, violentadas, humilhadas, principalmente quando fogem aos padrões de comportamento que a sociedade lhes impõe. Coitadinho do Tufão, homem de tão bom coração, não merece ser traído dessa forma, ele tem que dar o troco, tem que dar uma lição na Carminha, ele não pode deixar barato, ser desmoralizado diante da família, da comunidade. A questão é como a sociedade ainda estabelece um peso e duas medidas para mulheres e homens.

Vejamos então o Cadinho e suas “três mulheres”. A justificativa dele (Cadinho) é de que é genético, ele nasceu assim, é algo que ele nem consegue controlar. As pessoas, pelo menos é um pouco do que eu vejo, acham até muito engraçado. O cara tinha um “relacionamento” com três mulheres, mas quando estas descobriram fizeram um acordo e hoje convivem os quatro “numa boa”. E fico pensando sobre o comportamento das três personagens: três mulheres de classe média alta, estudadas, mas incapazes de sobreviver sem o cartão de crédito do cara pra pagar suas contas. Isso existe na vida real? Claro que existe. O problema é que dificilmente a gente vê em alguma novela algo diferente do que a maioria das pessoas considera como padrão, e, quando aparece, é sempre de forma muito deturpada.

O que eu quero dizer com tudo isso é que existem aí muitas mensagens, pelo menos é como eu interpreto: a de que os homens continuam podendo tudo, de que os homens devem, sim, lavar sua honra e agir com violência com as mulheres (principalmente quando estas são más), e de que as mulheres são, sim, subservientes, idiotas e incapazes de sobreviver de forma autônoma. Sempre um reforço de uma imagem das mulheres e dos homens que se pretende padrão de comportamento, e que não abre possibilidades para o diferente, para mulheres e homens que mesmo com contradições, buscam construir relações diferentes.

*Raquel Viana é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará.

Comments

  1. Raquel, excelente analise. E quero deixar minha contribuição, em minha casa somos 5 mulheres, minha mãe, duas irmãs, uma prima e eu. Minha irmã mais velha não assiste novela, eu as vezes fico na sala com com as restantes…e nessa semana de “grandes” emoções na novela, fica claro tudo isso que você expôs, eu presenciei minha mãe, que já foi vitima de violência domestica causada por meu pai quando tava bêbado, e minha irmã e esse minha prima, numa torcida frenética: “bate nela Tufão, bate nele Tufão” , e quando veio a agressão, foi como esse estivessem num final de copa Brasil x Argentina, houve uma grande comemoração, “essa safada mereceu!”, assustador não?! E naquele momento eu olhando para elas não sabia o que dizer ou fazer. Como é tão justificador a agressão quando a mulher é “má” ou quando não é “mulher honesta”. E percebo o longo caminho que temos que trilhar até que essa imagem machista que a maioria das mulheres tem, seja desconstruído. Enfim é isso.
    Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!!!

    • Concordo com tudo o que disseram as duas companheiras Raquel e Maggie. Eu já senti isso na minha própria pele, pois vivia com um homem violento, que bebia muito, andava com outras mulheres e quando eu ia reclamar, ele me respondia que se eu não estivesse satisfeita, que fosse embora, o que ele duvidava muito, pois eu dependia dele para sobreviver e um dia resolveu espancar – me . Só então, resolvi tomar uma atitude. Fui embora cuidar de minha vida e percebi que podia perfeitamente trabalhar para sustentar – me e também ao meu filho, de quem eu estava grávida quando fui embora.

  2. Parabéns companheira Marlene, seja firme no seu proposito querida.

  3. Edna Albuquerque says:

    Querida seu texto é lindo,seu cometário é comovente,parabéns pela sua força e história
    de vida inspiradora

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