Não se nasce mulher, torna-se mulher*

Por: Pâmela Cervelin**

A palavra cantada, de rima lavrada, abre passagem para uma prosa sobre histórias da caminhada. Na procura de indícios, o possessivo inerente aos escritos sobre histórias de vida não implica somente em uma, pelo contrário, chama para a sua prosa várias histórias, algumas conjugadas, outras desencontradas e todas à mercê de loucuras possíveis, abertas ao ato de perceberem os fios condutores das suas construções com os discursos sociais e culturais, arquitetados, requintados e (de)organizados historicamente. Devorei as palavras de Michelle Perrot e a antropofagia, enquanto processo cultural que me pauta, fez-me deglutição de letras. Comê-las, assimilando a essência e devolvê-las transformadas e transgredidas com os fragmentos do meu corpo. O ato de escrever e arremessar palavras escritas ao público é um fio de algodão que pede licença ao seu silêncio [este ainda destinado às mulheres]. É no silêncio que as palavras germinam. E são nos questionamentos e na subversão deste silêncio que emergimos oralidade e atravessamos as ondas. Ao transcrever vestígios do meu corpo como uma construção política e cultural, integro-o com as marcas da educação destinada às mulheres. Ainda hoje há silêncios, que mesmo silêncios, estão sujeitos à vigilância [tem muita vigilância vestida de certezas, privilégios e autoridade].

Diários/correspondências: Quando criança e adolescente, a escrita privada e íntima praticada à noite, no silêncio do quarto (p.28) constituiu-se como um dos atos cotidianos. Na pauta, amores, novelas mexicanas, amigas, primas chatas, novelas mexicans, amigas, histórias de eu e os meus gatos bichanos, novelas mexicanase episódios da escola e personagens da literatura.  Perrot conta que o diário íntimo era um exercício autorizado para o controle pessoal das mulheres, já que tal prática exercia uma excessiva introspecção.  As cartinhas para o círculo de amigas na escola e na catequese era outra prática rotineira, me perguntando se a sociabilidade das palavras meigas e com canetinhas coloridas constituem-se como a expressão feminina recomendada pela sociedade.

Educação: O processo de sexuação, com a educação destinada às meninas e a instrução dedicada aos meninos, persiste ainda? Mesmo requisitadas para todo o tipo de tarefas domésticas, a menina é mais educada do que instruída, mais vigiada, mais cuidada, afinal sentar de pernas abertas é uma afronta!  Na construção das identidades, a glória é masculina e a felicidade, feminina (p.99). Assim, desde pequena, como uma aprendiza de dona-de-casa, fui marcada pelos líquidos simbólicos desta estrutura de identidade feminina que nos é imposta: a água e o leite. Estes líquidos encaixam-se no ciclo mecanizado da vassoura, do pano, da colher e da panela [podemos ainda citar o tanque, o detergente, o rodo, a esponja].  Quando entram em ação, após a prévia das propagandas televisivas dos alvejantes e amaciantes floridos e rosados e das dicas de cozinha dos programas da manhã, protagonizam juntos o varrer, o lavar, o cozinhar, o arrumar, o limpar, o encher-a-pança do marido, dos filhos, dos irmãos, do pai. Lavar a louça é uma terapia e cozinhar uma dádiva cotidiana irresistível, afinal a sedução pela comida é ainda requisitada para o funcionamento da família.

Menstruação: Além da água, do leite, há um terceiro líquido simbólico: o sangue. A menstruação é tida como um incômodo, logo o sangue tem como destino o lixo do banheiro.  E, se a histeria era considerada doença de mulher nervosa pela sua própria natureza, hoje a TPM é a linha contínua e requintada do controle que a medicina masculinizada e o mundo exercem sobre o nosso corpo.  Mas geralmente o que se vê é o silêncio do pudor, ou mesmo da vergonha, ligado a sangue das mulheres: sangue impuro, sangue que ao escorrer involuntariamente é tido como “perda” e sinal de morte. O sangue macho dos guerreiros “irriga os sulcos da terra” de glória. O esperma é sementeira fecunda (p.44). Pois é, cresci em espaços que o sangue da mulher é impuro, sujo, com odor ruim e colocado no esquecimento do absorvente plástico.

Como extrapolar as escritas noturnas, a água, o leite e o sangue e re-significá-las num movimento de construção de autonomia dos nossos vidas? Parto para percorrer páginas úmidas das escritoras femininas e da ciranda pelos direitos das mulheres.

* O título da prosa é memória-palavra da Simone de Beauvoir. A prosa multiplicou-se a partir do livro Minha História das Mulheres, escrita por outra francesa, Michelle Perrot.

**Pâmela Cervelin é estudante de História e militante da MMM no Rio Grande do Sul.

Comments

  1. Nathália Nunes says:

    Parabéns pelo texto e pela poesia.

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