Descolonizando as eleições: um assunto de mulher

Por: Ana Cristina Pimentel*

Em tempos de plastificação dos debates televisivos e maquiagem das propostas, as defesas genéricas de grandes temas borram as nuances e diferenças das perspectivas ético-políticas nas eleições. Os compromissos estão acomodados abaixo dos limites colocados pelo marketing eleitoral, restritos a ambientes privados. Faz-se necessário evidenciar o debate político, descolonizar esse espaço e construir compromissos públicos. Nesse sentido, esse também é um convite para ocupar o debate eleitoral, dar visibilidade às propostas, aos desafios que estão colocados e possibilitar que as candidaturas e @s futur@s eleit@s ecoem perspectivas menos blindadas e assumam compromissos públicos.

A cada eleição, abre-se a possibilidade de recolocar questões centrais para o alargamento da democracia e a desmercantilização dos direitos. Mesmo que transbordem as eleições, alguns temas ainda demandam discussão, e valem um esforço nesses dias que antecedem as eleições.

A cidade, local de moradia, de se viver a vida, abre perspectivas de se repensar politicamente a tomada de decisões políticas, bem como de se repensar inovações nas políticas públicas que consigam reverter a desigualdade entre homens e mulheres. É necessário, para tanto, que sejam consideradas as dinâmicas e trajetórias de vida, além das novas expressões das desigualdades entre homens e mulheres.

A construção de políticas sociais, nesse sentido, tem o desafio de caminhar para a des-familiarização da proteção social, assim como de considerar o papel da dimensão interativa da reprodução das desigualdades, bem como seu redimensionamento, a partir das organizações e das próprias políticas. Ao mesmo tempo, ao município, cabe também incidir sobre o processo de autonomia econômica feminina. O conteúdo desse processo deve considerar a modificação dos percursos biográficos das mulheres. Portanto, a dimensão participativa na construção das políticas é um elemento que deve integrar sua própria formulação.

Desonerar a carga de trabalho invisível realizado pelas mulheres, assim como promover a co-responsabilização dos homens pelas tarefas de cuidado é uma demanda real para os próximos executivos e legislativos municipais. Um passo importante para isso é a construção de serviços sociais que incidam nos cuidados com as crianças e pessoas dependentes, tais como construção de creches e ampliação dos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, é fundamental retomar propostas como criação de restaurantes populares e lavanderias públicas, além de serviços de saúde que possibilitem a auto-determinação sexual e reprodutiva das mulheres.

Por fim, as políticas de saúde devem acolher a mulher na vivência de sua sexualidade e reprodução. Além disso, é necessária uma alteração do modelo assistencial. A normatização dos cuidados e a medicalização da vida social têm transferido a responsabilidade de cuidado da sociedade para o ambiente doméstico, logo, significa uma sobrecarga extra às mulheres. Portanto, uma esfera do cuidado diz da negociação de projetos terapêuticos, no encontro entre profissionais e usuários.

Neste sentido, os debates gerais da educação, da saúde e da melhoria dos transportes precisam conhecer outros temas, igualmente importantes, que têm sinalizado novos desafios para as políticas públicas, sobretudo para os municípios. Esse é apenas um debate inicial que, obviamente, não se limita ao momento eleitoral, mas que é necessário ser evidenciado.

Ana Cristina Pimentel é mestranda de saúde coletiva e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

Comments

  1. A mulherada tem mesmo que participar da vida pública e ser de fato a maioria,para mudar esse sistema machista e tão desumano!

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