As mulheres na mídia: discursos discriminatórios como agenda política

Por Maria Júlia*

Em setembro, participei, junto com outros convidados, de uma mesa redonda na III Semana de Gênero e Sexualidades da Unifesp, organizada pelo MAPÔ – Nùcleo de Estudos de Gênero, Raça e Sexualidade da Unifesp,  com o tema Discursos discriminatórios como “agenda política”? Casos recentes de uso da mídia como meio de subordinação de sexualidades dissidentes e movimentos de enfrentamento Discursos discriminatórios como “agenda política”? Casos recentes de uso da mídia como meio de subordinação de sexualidades dissidentes e movimentos de enfrentamento. A mesa conseguiu, ainda que em pouco tempo, incentivar um debate extremamente necessário, por pelo menos dois motivos: um, por ser dentro de uma Universidade, lugar de produção de conhecimento e, portanto, campo para a perpetuação de determinadas ideologias, entre elas, o machismo. O segundo, obviamente, pela importância do próprio tema, os discursos discriminatórios na mídia, tema este sobre o qual resolvi fazer esse texto.

Quando fazemos um debate sobre os meios de comunicação, e a mídia em geral, é preciso lembrar que todo discurso é ideológico, não existindo, portanto, a imparcialidade/neutralidade.  Se o discurso não é imparcial, isso significa que ele defende determinados interesses. Em uma sociedade como a nossa, quais interesses defendem os meios de comunicação?

Aqui, em primeiro lugar, é preciso definir a sociedade em que vivemos (ainda que isso seja difícil nestas poucas linhas), para então partirmos para o restante do debate. Aqui, parto da análise de que vivemos em um sistema patriarcal, capitalista, e racista. Ou seja, existem três opressões estruturantes de nossa sociedade: a de gênero/sexualidade, a de classe, e a de raça.

No Brasil (e no restante do mundo), os meios de comunicação estão nas mãos de alguns poucos grupos (em alguns casos, famílias), existindo um enorme monopólio da mídia. Esses grupos fazem parte de uma determinada classe, que tem determinados interesses, e que tem intenções de manter os privilégios que já tem. Obviamente isso é simplificar bastante o debate, mas serve para mostrar que a mídia exerce um papel de manutenção da posição de uma determinada classe.

A mídia reflete as contradições da sociedade, isso é óbvio. Jornalistas e publicitários foram criados em um mundo machista, logo, acabarão reproduzindo isso no seu dia-a-dia, e inclusive no seu trabalho. Mas não podemos parar a análise por aqui (até porque isso seria reduzir o machismo a um problema meramente cultural): a mídia não só reflete ideologia, como cria e mantém ideologia. Existe um estudo sobre o público consumidor, por exemplo, na hora de se fazer propagandas. Então não é simplesmente o machismo de um funcionário que resulta em propagandas como essa. Ou seja, tudo isso não é mero reflexo das contradições da sociedade: ao contrário, contribui decisivamente para a manutenção dessas contradições. 

Se a mídia serve para manter determinados interesses de classe, também serve para manter interesses de gênero e raça. Serve justamente para manter uma situação de submissão das mulheres, através de mecanismos sutis de desqualificação e afirmação das mulheres como subalternas aos homens. Basta uma olhada rápida sobre tudo aquilo que aparece na mídia e que nos diz respeito: tudo sempre envolve a futilidade, aparência, fragilidade e um maternalismo essencialista (enquanto isso, o movimento feminista é execrado).

A mídia acaba por criar um sentimento de normalização de todas essas características e situações como as de violência. Um claro exemplo é a propaganda “Hope Ensina”, com a Gisele Bündchen, e a recentemente denunciada propaganda da Nova Schin.

Os meios de comunicação têm um enorme movimento contra os direitos das mulheres, que surge principalmente quando conquistamos algo, ou quando estamos prestes a isso. O chamado backlash (“contra-ataque”) acontece principalmente de duas maneiras:  uma, mais camuflada, que continua usando um discurso de discriminação das mulheres, mas assimilando algumas de nossas conquistas, como o comercial de uma lava-louça Brastemp (que infelizmente não consegui achar no Youtube, mas é uma ideia bem antiga que vem sendo repetida incansavelmente pela marca), que afirma coisas como “você não foi feita para lavar louças”. Assimilam a ideia de liberdade da mulher, de que seu trabalho não é o de lavar louça, para vender um produto afirmando justamente o contrário.  

A outra afirma que ser livre é ruim, que o feminismo acabou dando trabalho a mais para as mulheres, e que o estresse é resultado da liberdade. Essa última forma do backlash acontece de várias maneiras, umas mais escancaradas, como em artigos de grandes jornais (com um grande idiota intelectual afirmando que o feminismo fez muito mal às mulheres), e de maneira mais discreta em filmes (quem nunca viu um filme em que há uma grande executiva sem vida pessoal? Trabalhar é muito ruim para as mulheres!).

Ultimamente, muita gente tem se levantado nas redes sociais contra as propagandas machistas. O que ouvimos na maioria das vezes é que é só uma brincadeira, que uma propaganda não mata ninguém, e que nenhum homem vai sair estuprando ninguém porque viu na propaganda da Prudence que tirar a roupa sem o consentimento da mulher queima mais calorias.

Bom, isso é óbvio. Ninguém vai reproduzir isso de forma mecânica. Mas, como já dissemos antes, os meios de comunicação são essenciais no fomento das contradições da nossa sociedade. E não podemos esquecer que somos seres históricos, culturais, e que somos formados por diversos elementos, desde a escola, livros, revistas em quadrinhos, até os meios de comunicação, que são nosso foco aqui. Se uma situação de violência doméstica, por exemplo, é normalizada em propagandas, artigos, novelas e na pornografia, ela passará a ser considerada normal também na realidade. O poder simbólico atua de maneira tão forte que chega até mesmo a convencer os próprios oprimidos de que “é assim mesmo”, e de que o seu lugar é de fato o de subordinação (fazendo crer, muitas vezes, que não há opressão alguma).

Nesse sentido, é preciso que pensemos a comunicação como algo central na luta por uma sociedade mais justa. É preciso que nós, dos movimentos sociais, nos esforcemos para ter uma política própria de comunicação, para conseguirmos colocar um contraponto ao senso comum que nos é passado pela grande mídia. É preciso que tenhamos nossos jornais, nossas redes sociais, porque sem isso não conseguiremos chegar à maioria da população.

Em conjunto com isso, é necessário lutar pelo direito à comunicação, que passa diretamente pela  democratização da mídia, hoje concentrada na mão de alguns poucos que não atendem em nada aos interesses da maioria da população. A democratização dos meios de comunicação é uma bandeira que atravessa a luta política, indispensável na construção de um novo projeto de sociedade, um projeto que deve ser feminista, antirracista e popular, pautando as necessidades do povo brasileiro.

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

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