Reflexões feministas sobre a representação e participação política das mulheres

Mulheres Protestando, 1941, Di Cavalcanti

Por: Clarisse Goulart*

Questionamentos sobre o exercício do poder sempre foram parte importante do debate e luta feminista. Do ponto de vista das feministas anti-capitalistas, a disputa de poder pelas mulheres esteve amplamente articulada à disputa anti-hegemônica, de transformação do modelo capitalista vigente e da construção de outros marcos organizativos para a produção e também para as relações sociais.

Além do debate de transformação geral da sociedade, o feminismo tratou de questionar as formas organizativas e o exercício do poder e liderança no interior dos movimentos sociais e dos partidos políticos. Ao construir a luta anti-capitalista, o feminismo clamou pelo fim também do patriarcado e de que era preciso cultivar uma prática transformadora, ao mesmo tempo que se buscava transformações estruturais.  Parte desta discussão é bem representada pela emblemática frase “o pessoal é político”. Um dos seus sentidos é de que o domínio da vida privada, das relações pessoais, da sexualidade, deveria ser também considerado nas lutas revolucionárias. Não se poderia admitir uma mudança que parasse na porta de casa.

Esse rico processo de acumulação das formas de organização e métodos de luta, proposto pelo feminismo foi ganhando terreno, não livre de contradições e disputas. É possível que muitas de nós já tenham ouvido frases parecidas como a de que a luta feminista dividiria a luta de classes. No entanto, em algumas das disputas, as mulheres têm sido vitoriosas. Um delas se reflete na aprovação de reservas de vagas – seja 30% ou paridade – na direção de organizações mistas e nos espaços institucionais. Este é, sem dúvida, um instrumento importante para corrigir o machismo da prática política e para construir a cidadania ampla das mulheres. É um instrumento pedagógico e que visa também gerar transformações mais profundas nos instrumentos de ação das organizações e instituições formais.

Para além da importância desses instrumentos, muitas vezes, esse debate acaba se fazendo em torno de um discurso reapropriado de caráter liberal. Primeiramente, é importante desconstruir a ideia de que as mulheres são, em sua essência, “pró-gênero”, e que basta que mais mulheres ascendam aos espaços institucionais para que já tenhamos uma transformação plena das nossas desigualdades. Essa é uma falácia, pois, quando dizemos mulheres, não estamos falando de um grupo homogêneo, que tem os mesmos pensamentos, as mesmas práticas, os mesmos recursos, nem as mesmas vontades e, portanto, não podemos esperar que ajam sempre de maneira semelhante. Se seguirmos essa noção equivocada teremos muitas dificuldades de explicar por que a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) ou a ex-governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius (PSDB) têm atuações que tanto prejudicam a vida das mulheres. Além disso, essa ideia também é uma falácia, pois a presença das mulheres, por si só, não acaba com a desigualdades, mas sim um processo de acumulação de forças progressistas em que a paridade é apenas um dos instrumentos, que deve ser aliado a uma luta que vise transformar não só os elementos culturais da desigualdade como também os elementos materiais.

A discussão das cotas nos remete também ao debate sobre a representação das mulheres e sobre o espaço, sobretudo, do legislativo. Acredito que o processo de representação das mulheres, sendo essas um grupo extremamente heterogêneo, só pode se dar a partir de espaços de construção de perspectivas coletivas, em que as várias realidades, anseios, experiências e diferenças possam ser compartilhadas e ações coletivas e bandeiras de luta produzidas conjuntamente. Essa pedagogia é uma grande contribuição dos movimentos populares, em especial do movimento de mulheres.

Nesse sentido, é preciso problematizar a ideia de que mais mulheres no legislativo significaria um maior avanço na legislação relativa à igualdade de gênero. É evidente que há mulheres e homens nesse espaço institucional que são grandes lutadores e parceiros e que, de fato, o número de mulheres nesse espaço é muito pequeno. No entanto, as mulheres no legislativo dificilmente agirão a favor da igualdade se não tiverem organizadas entre si e com diálogo e articulação com movimentos e atrizes chaves na luta feminista. Além disso, partidos que não tem compromisso com a igualdade de gênero e com a luta dos/as trabalhadores/as dificilmente vão eleger deputadas ou vereadoras comprometidas com essa questão.

Repensar criticamente o processo de participação e representação das mulheres é uma tarefa importante para: 1) aproximar e readequar os métodos de ação e de organização com os grandes objetivos políticos; 2) distinguir entre os avanços nos marcos do liberalismo e os avanços que o feminismo anti-capitalista busca produzir na sociedade; 3) reforçar a real importância dos mecanismos de representação.

Em outras palavras, os instrumentos que garantem a igualdade de participação das mulheres são essenciais para as organizações do campo da esquerda porque eles têm o potencial de unir teoria e prática, objetivos específicos e gerais, métodos de ação e horizontes de mudanças.  São imprescindíveis para remarcar a desigualdade de poder que permeia toda a nossa sociedade e para construir práticas políticas transformadoras. Além disso, é preciso querer mais, é preciso desconstruir as formas de organização do poder e destituí-lo das forças racistas, patriarcais e capitalistas.

*Clarisse é militante da Marcha Mundial das Mulheres de Minas Gerais e mestranda em ciência política na UFMG

Comments

  1. Maria das Graças Porto Goulart says:

    Clarisse, muito bem escrito, embora tenha divergências quanto a partes do conteúdo.

  2. clarisse! ao ler o texto consigo ouvir sua voz fazendo intervenções na aula
    🙂

  3. Marlise Matos says:

    Bravo amiga!

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