Nota de repúdio ao episódio de violência sexista ocorrido na USP, durante o InterECA

Muitos(as) acreditam que a Universidade, por ser um lugar onde, em tese, impera o conhecimento, está acima dos problemas que permeiam a nossa sociedade, entre eles, a violência sexista. Sabemos que essa não é a realidade que nós, universitárias, vivemos, sendo constante a violência física e psicológica dentro dos muros das universidades.

No último domingo, dia 23, durante um campeonato esportivo da ECA/USP, uma estudante foi agredida por um outro aluno. Trata-se de um caso como os muitos que ocorrem na cidade de São Paulo, e não deve ser tratado de maneira menor por ter ocorrido em uma Universidade.
 Divulgamos aqui a nota feita pelo CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da ECA). Denunciamos, junto aos demais assinantes, o agressor e o descaso das autoridades no atendimento às mulheres vítimas de violência, e exigimos que o caso seja apurado e que o responsável seja punido por seus atos. 
 Maria Julia Montero, estudante da Letras USP e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

Contra o machismo, ontem, hoje e sempre!

No último domingo, dia 23, ocorreu o InterECA, torneio esportivo de futebol que visa a integrar os diversos times da ECA em um dia de descontração e fraternidade. Durante o torneio, a aluna Maria Marta Cursino, do curso de Jornalismo, foi agredida fisicamente por um outro estudante da instituição, chamado Felipe Priante. De acordo com o relato publicado pela própria Maria Marta em seu perfil no Facebook, ela se encontrava no InterECA com seus amigos e torcia para um dos times em campo com gritos de guerra que incomodaram Felipe. Depois de uma discussão inicial, Felipe pediu que ela parasse de gritar e, em seguida, mudou-se de lugar. Após o final do jogo, a aluna Maria Marta resolveu continuar a brincadeira e, ao encontrar Felipe novamente, gritou mais uma vez o grito de guerra de sua torcida. Foi então que Felipe segurou-a pelos dois braços e aplicou-lhe uma rasteira, provocando uma queda e um ferimento no rosto dela. Após o ocorrido, Maria Marta tentou contatar a Delegacia da Mulher, mas não obteve resposta, pois essa encontra-se fechada aos finais de semana. Em seguida, ela ligou para a Polícia Militar que, ao chegar no local, incitou-a a não fazer nenhum Boletim de Ocorrência dizendo que, caso fosse provado que ela não havia sido agredida, ela poderia ser processada. Segundo o relato de Marta, os Policiais Militares ainda disseram: “”Moça, se você estivesse num jogo palmeiras x corinthians e gritasse a favor do palmeiras na torcida do corinthians o que ia acontecer? Morte!”.

Vivemos em uma sociedade onde as práticas machistas são normativizadas ou relativizadas, muitas vezes se passando por brincadeiras ou piadas. Constantemente, somos bombardeados por programas de televisão e campanhas publicitárias que naturalizam práticas machistas cotidianas, reafirmando papéis de gêneros estereotipados – o que vemos, por exemplo, em casos recentes como o quadro do metrô, no programa Zorra Total. Falamos desses casos, muitas vezes, como se fossem uma realidade isolada, restrita a outras esferas que não a da universidade e, principalmente, da Escola de Comunicações e Artes, onde paira um falso discurso sobre liberdade de gênero, igualdade e respeito. Esse caso, ocorrido com a Maria Marta em um ambiente onde ela estaria, teoricamente, segura e entre amigos, nos faz crer que enquanto o machismo for tolerado e encarado com naturalidade, nenhuma mulher estará isenta de passar por isso.

Além de ter passado pela humilhação de ter sido agredida, Marta ainda foi obrigada a passar pelo constrangimento de não receber o devido apoio e atendimento da Polícia Militar. Mais uma vez, essa instituição demonstra seu despreparo e descuido em lidar com os civis, e, diante desse caso, fica clara, sobretudo, sua inaptidão em lidar com as opressões que sofrem mulheres (sem esquecer do caso de negros/negras e LGBTs). Quando a Polícia Militar diz para alguém que foi agredido que ele foi o causador dessa agressão – como fizeram com Marta – essa instituição culpabiliza a vítima e normativiza a violência dentro daquele ambiente. A violência não é normal, comum ou aceitável em nenhum ambiente, e não podemos pressupor isso como uma premissa para nossas ações.

Destacamos também o fato de a Delegacia da Mulher não estar aberta durante o final de semana, o que impediu que Marta prestasse seu depoimento no mesmo dia. Para que pudesse fazer o exame de corpo de delito, ela não pode cuidar de seus ferimentos até a data de hoje, segunda-feira. Novamente, as instituições se mostram despreparadas em lidar com casos em que a mulher é vítima de agressão, uma vez que esse tipo de violência não tem hora nem local exato para acontecer. Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. Duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres. Em 51% dos atendimentos, foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher. 52 % acham que juízes e policiais desqualificam o problema.

Não existe nenhuma justificativa para o que aconteceu com Maria Marta no InterECA. Não podemos ser coniventes com esse tipo de situação, nem disfarçar o ocorrido, evitando que a desigualdade de gênero seja relacionada a ele. O seu agressor, Felipe Priante, só agiu dessa maneira porque ela é mulher e porque ele sente respaldo na sociedade para suas atitudes machista. Hoje, Maria Marta está fazendo exame de corpo de delito e nós, do Centro Acadêmico Lupe Cotrim, admiramos sua coragem em seguir com essa denúncia e damos, publicamente, todo apoio e suporte que ela precisar. Força, Marta!

MACHISTAS E MISÓGINOS: NÃO PASSARÃO!

Fonte: Blog do Centro Acadêmico Lupe Cotrim da ECA/USP

Para assinar essa nota, envie e-mail para lupecotrim@gmail.com

Comments

  1. Cinthia Abreu says:

    Somos todas Martas!!!A violência contra mulher, não é o mundo que a gente quer!!!

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