Mudar a vida das mulheres para mudar o mundo, mudar o mundo para mudar a vida das mulheres: nós viemos para ficar

Por Maria Júlia Montero*

Na última semana de agosto, entre os dias 28 e 30, aconteceu o Seminário Internacional da SOF – Feminismo, economia e Política. Foram três dias de intenso debate, com ótimas mesas, com muita gente boa falando coisas maravilhosas que nos ajudam a enxergar um pouco melhor as coisas, estruturar melhor nossas ideias, e avançar na nossa luta, melhorando nossa atuação no dia-a-dia, na militância, dentro e fora de casa (afinal, não adianta ser muito revolucionária só da porta pra fora, né?).

Com isso a gente vê bem os dois lados da luta: a teoria e a prática. Um não existe sem o outro. Mais do que um seminário de formação, foi um seminário de preparação militante, que nos armou para nossas próximas ações aqui no Brasil (e fora dele também, por que não?).

Mas, enfim: feminismo, economia e política: o que essas três coisas têm a ver?

O capitalismo também depende do trabalho doméstico.

Bom, a gente sempre fala da importância do feminismo em todos os debates, e que não dá para tratá-lo como uma coisa à parte. Sendo um tema transversal, ele está presente desde a discussão sobre aborto até a agroecologia. Ou seja: não dá pra ignorar as mulheres. Não dá pra pensar sobre o sistema em que vivemos sem pensar na questão das mulheres (e seria uma só?). E não podemos pensar nisso só porque é preciso libertar as mulheres para termos mais gente nas nossas fileiras, mas sim porque a opressão e exploração das mulheres é estruturante da nossa sociedade, que é capitalista e também patriarcal. Como vamos pensar a economia no mundo capitalista sem levar em consideração o trabalho doméstico?

Os problemas das mulheres são concretos, materiais, e é essa análise que nos diferencia de setores que consideram o machismo um problema meramente cultural. Aqui, cito Tatau Godinho: não acreditamos no socialismo utópico, que visava ganhar a consciência dos patrões. Tampouco acreditamos que é possível a mudança espontânea da consciência dos homens: nós precisamos de medidas concretas que alterem a correlação de forças na sociedade, se não, não há mudança.

Obviamente, não é possível colocar em poucas linhas tudo que foi tratado nos debates. Porém, cito aqui um tema que foi ressaltado em vários momentos do seminário, principalmente no último dia: a reapropriação liberal do discurso feminista. Essa reapropriação acontece de várias maneiras, mas tratarei aqui mais especificamente dela em dois momentos: nas Marchas das Vadias, e no debate sobre a prostituição.

Participamos das várias Marchas das Vadias que aconteceram pelo país, e as encaramos como espaços importantes, no intuito de iniciar um debate a respeito da violência sexista, porém, não podemos deixar de fazer nossas ressalvas: em muitas das Marchas (na verdade, na esmagadora maioria), ao lado de muitos cartazes com a palavra “feminismo” e outras palavras de ordem contra a violência, estavam cartazes com os dizeres “somos livres, somos vadias”.  A frase coloca-se como algo supostamente emancipatório, porém, é preciso prestar atenção em algumas coisas: em primeiro lugar, o fato de que as verdadeiras vadias, as mulheres prostituídas, não são livres. A prostituição é a maior expressão de opressão e exploração das mulheres, muito distante do que idealizamos como uma sexualidade livre. Além disso, as mulheres não prostituídas tampouco são livres, porque não é possível pensar em liberdade partindo de uma noção individual. A luta é coletiva por uma liberdade coletiva. Não importa o quão “consciente” eu seja: continuo ganhando menos, sofrendo violência, enfim, valendo menos do que um homem perante a sociedade.

Nessas marchas, ainda, muitas mulheres optaram por se vestir de “puta”, porque “ser vadia é ser livre”. Há um grande problema nisso, porque ao invés de nos emancipar, nos impõe um padrão de “liberdade” (a mulher livre é obrigatoriamente aquela que gosta de transar, e quem gosta de transar usa minissaia e corpete). Além disso, essas roupas atendem justamente a padrões de beleza machistas.

As placas dizem: “A prostituição é um campo de concentração a céu aberto. Onde o meu pênis, teu pênis, todos os pênis transformam-se em picanas, que torturam, que violam, que provocam doenças, que machucam, que emudecem. Diga não a essa violência”.

É nesse mesmo sentido a preocupação com relação à prostituição. Há duas visões errôneas a respeito dessa problemática: a visão moralista, e a visão liberal (e não libertária). Por um lado, há setores extremamente conservadores que se colocam contra a prostituição por entenderem-na como algo pecaminoso, e acabam por criminalizar as prostitutas. Já o segundo setor entende essa ocupação como uma forma de expressão da sexualidade (curiosamente, ninguém explica por que essa seria majoritariamente uma forma de expressão da sexualidade feminina, somente), quando, na realidade, é fruto de uma sociedade profundamente desigual, marcada pela lógica do lucro.

Nesse sentido, é preciso reafirmar o feminismo como um movimento que questiona profundamente a nossa sociedade: um feminismo de esquerda, anti-capitalista e, enfim, socialista. Se encaramos nossos problemas como sistêmicos – ou seja, integrantes e estruturantes de nossa sociedade -, não podemos adotar discursos que pouco ou nada questionam essa situação (como tem sido o discurso da prostituição enquanto liberdade, da emancipação como algo individual, ou do “somos livres, somos vadias”.). Para que nossa militância seja de fato questionadora, que coloque em risco o atual sistema, e proponha soluções, é preciso que conheçamos as entranhas da nossa sociedade, porque não adianta querer dar um remédio se não temos o diagnóstico correto.

É por isso que aquela nossa velha palavra de ordem, que permeou todo o seminário, e que mais caracteriza a Marcha Mundial das Mulheres nunca foi tão atual: mudar a vida das mulheres para mudar o mundo, mudar o mundo para mudar a vida das mulheres. Aquelas e aqueles que têm como objetivo uma sociedade mais justa não podem seguir ignorando as mulheres. E se ignorarem, nós estaremos lá para fazê-los lembrar que viemos pra ficar.

Fotos de Sonia Sánchez: http://migre.me/aFBEd

*Por Maria Julia Montero, estudante da Letras USP e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

-> Sexta-feira teremos mais postagem! Não deixe de conferir.

Comments

  1. Priscila Bernardes says:

    Olá, Maria Júlia. Primeiramente, queria parabenizar a MMM pela iniciativa de lançar esse blog, trazendo ao dia-a-dia discussões que atingem a todas as mulheres e particularmente às mulheres trabalhadoras e empobrecidas. Gostaria de comentar seu texto, com o qual concordo em partes, principalmente no que se refere à necessidade de transversalizar o debate e as lutas feministas, que tb concordo que devem partir de premissas anti-capitalistas.

    Porém, no que se refere à Marcha das Vadias (MdV) não posso deixar de relatar o incômodo que me causou, não só porque faço parte de um dos coletivos (o de São Paulo), mas porque acho problemático simplificar qualquer movimento social. Acho que você faz isso com a MdV mais especificamente em relação ao uso do termo “vadia”. Quando usamos o termo, não estamos tratando de “mulheres prostitutas” ou “mulheres prostituídas”, mas de um xingamento que nos é dirigido corriqueiramente quando fazemos qualquer coisa que contrarie qualquer norma machista e/ou misógina vigente. Acho problemático dizer que falamos que “ser vadia é ser livre”, sem explicar o caminho e a ironia que há por trás dessa frase (se nos dizem que somos vadias justamente quando agimos com certo grau de liberdade, logo ser vadia é ser livre – mesmo que, sim, essa liberdade seja bastante limitada por diversos fatores, mas acho importante e emancipador que mulheres se declarem livres).

    Quanto à escolha por se vestir de “puta” de algumas garotas presentes nas marchas, acho problemática a crítica, pois uma das coisas contra as quais lutamos é essa dicotomia santa-puta (ou seja, não existe “roupa de puta”). Se algumas minas quiseram ir vestidas com o que se convencionou chamar de “roupa de puta” provavelmente o fizeram por escolha e desejo próprios – e lutamos tb pela liberdade de usar as roupas que quisermos sem que isso sirva de justificativa para qq violência. Outro problema que vejo nessa parte do texto é dizer que se vestir “de puta” é impor um padrão de liberdade, que seria relacionado à obrigatoriedade de gostar de transar, que por sua vez seria ligada a uma determinada forma de se vestir. Não creio que a forma como elas se vestiram imponha qualquer obrigatoriedade, mas apenas reflita uma escolha pessoal.

    “Além disso, essas roupas atendem justamente a padrões de beleza machistas”. Eu acho que esse é um tipo de ideia que afasta pessoas do feminismo, por acharem que, em vez de lutarmos por autonomia, queremos pregar outras normas e padrões obrigatórios. Me pareceu uma forma de dizer que há modos autônomos e livres de se vestir e há modos subservientes ao machismo de se vestir. Bom, eu pelo menos acredito que cada um deva se vestir como bem entender, e acima de tudo sem que isso represente risco à sua integridade.

    Também não acho adequado considerar a MdV uma apropriação liberal do feminismo. Como grande parte dos mocimentos feministas, a MdV é plural, agrega mulheres anarquistas, socialistas, vinculadas a partidos ou independentes, mulheres empobrecidas, trabalhadoras, estudantes, de classe média, negras, brancas, não-brancas, etc. Talvez a pluralidade e a irreverência do ato em si atraia mulheres dos mais variados posicionamentos políticos, mas não acho que isso seja negativo, pois, assim como a luta deve ser transversal, creio que ela também deve ser agregadora, atraindo a todas que são violentadas cotidianamente – e não vou negar que as mulheres trabalhadoras, negras e empobrecidas estão mais vulneráveis, mas tb não vou minimizar a violência que atinge uma mulher que não esteja nessas condições. Apesar dos privilégios, todas estamos expostas em alguma medida a violências sexistas.

  2. Olá, Priscila.
    Bom, primeiro, agradeço o comentário. O intuito do blog é justamente, além da gente postar as nossas opiniões, receber a troca, e conseguir fazer um bom debate.

    Acho que você coloca coisas pertinentes, que podem, inclusive, me ajudar a deixar algumas coisas mais claras (infelizmente, em um texto a gente nunca consegue dizer tudo)

    Vou tentar responder aos seus questionamentos aqui nesse outro comentário… aí vamos nos falando 🙂

    Bom, sobre não tratar sobre as mulheres prostituídas… não dá pra negar que o insulto faz alusão a elas. Principalmente porque se refere à mulher que dorme com muitos homens. “Vadia”, “Vaca”, “vagabunda”, todos existem porque há um estigma sobre as mulheres prostituídas.

    Inclusive, as mulheres não são chamadas de vadias porque transgridem o sistema. Nós somos chamadas de vadias a qualquer momento, não é necessário fazer algo que questione o sistema para recebermos maus tratos. Eu entendo a lógica da ressignificação da palavra, mas não concordo com ela, justamente porque ela faz alusão a mulheres que não são livres. Entendo a ironia com relação à marcha no canadá (que o policial disse pra ‘não se vestir como vadias’, mas não acho que “ser vadia é ser livre”). E, novamente, nos chamam de vadia a qualquer momento, não só quando agimos com liberdade.

    Sobre a “roupa de puta”… bom, para nós, no mundo que nós desejamos, realmente, não existe dicotonia. E não deve existir, não se deve julgar ninguém pela roupa. Mas não dá para ignorar a realidade em que vivemos. Não se trata de reforçar estereótipos, ou a divisão “santa e puta”, mas sim de questionar determinados valores que são machistas, e que são fetiches masculinos. Para mim, a  “roupa de puta” faz parte desse fetiche. Talvez um dia não seja mais? Pode ser. Mas por enquanto ela representa um tipo de sexualidade que é passada pela mídia, pela pornografia, e, para mim, é uma sexualidade que na verdade agride as mulheres. Não há nada de livre nisso.

    Não se trata, portanto de impor um outro padrão. Não irei colocar o dedo na cara de nenhuma mulher por causa da maneira como ela se veste, mas esse modelo de sexualidade não é libertário, justamente porque é imposto por um sistema que é capitalista e patriarcal. E isso não significa que a mulher que se veste assim não escolhe. Entender que os mecanismos que agem no âmbito cultural (a mídia) exercem influência não significa dizer que as mulheres são seres que não pensam.

    Da mesma maneira, criticamos a indústria de cosméticos, que vende uma imagem perfeita da mulher: é a mulher maquiada, com as unhas feitas, magra… isso significa que vamos brigar com as mulheres que usam esmaltes? Claro que não.

    Como exemplo, cito uma notícia que saiu há um tempo (na internet, e, se não me engano, na veja), sobre as “piriguetes”. Seriam as “mulheres ousadas”, “livres sexualmente”, e que “não têm medo de roubar o namorado alheio”. E esse discurso, pelo menos me parece, se aproxima ao menos um pouco do que acontece na Marcha das Vadias (não necessariamente por todas que estão lá). Que ser livre implica, necessariamente, em gostar de sexo, e gostar de sexo implica, necessariamente, em usar roupas provocantes., mas isso é somente a imposição de um padrão do que é ser livre (veja bem, isso não significa que uma mulher não possa querer usar roupas provocantes, o x da questão é que não se trata de uma questão meramente individual), e, pior: passa a liberdade para algo individual. Mas não somos livres, nem eu, nem você, independente da roupa que usamos. Ainda mais, reforça a idéia de putas e santas, pois diz que as mulheres livres são as que não exitam em roubar  o namorado alheio, ou seja, existe a figura da mulher oficial e a figura da outra, a amante.

    Sobre as roupas atenderem a padrões machistas: ué, e não existem padrões machistas? Não existem determinados modelos que são aqueles apregoados pela mídia, por “observadores de peso” etc? Não há determinadas roupas utilizadas na pornografia?

    Cada uma deve, sim, se vestir como bem entende, mas isso é muito diferente de dizer que determinada roupa te faz mais ou menos livre que alguém. E usar uma roupa que atende a padrões da pornografia não me parece algo muito livre – o que não significa que eu, por não usar corpete (sei lá) seja mais livre que alguém que usa. Não questiona, não é transgressor. É como se alguém dissesse que usar maquiagem é uma forma de questionar o sistema, mas é justamente uma forma de se adequar esse sistema (o que não significa que a mulher que usa maquiagem seja menos livre do que uma que não usa).

    Sobre a pluralidade da MdV, sim, ela é muito plural, o que não significa que não possamos ter críticas a determinados discursos existentes dentro dela. Inclusive, há críticas por parte do movimento negro à marcha das vadias (que deixo para que elas façam, pois têm mais propriedade que eu para dizer qualquer coisa sobre o assunto).

    Mas, em momento algum eu disse que essa pluralidade era negativa. Inclusive, há pautas que agregam diversos setores, que vão além da esquerda socialista, e a pauta da violência é uma delas. Pesquisas mostram que as mulheres negras e pobres são as que mais recorrem ao 180. Sim, isso é verdade, mas a violência acontece em todas as classes e todas as raças (digo isso porque houve um tempo em que acreditava-se que homens brancos e escolarizados não batiam nas mulheres, rolava, e ainda rola, um baita racismo aí). O mesmo acontece com a pauta do aborto, ela junta diversos setores.

    Dizer que estamos ao lado das mulheres trabalhadoras não significa que fecharemos os olhos se uma mulher mais abastada for estuprada. Muito mais do que entender que as mulheres são as mais atacadas pelo capitalismo, o feminismo socialista entende que o capitalismo e o patriarcado agem juntos (porque para ver que as mulheres, principalmente as negras, são as primeiras a se ferrarem, não precisa ser socialista).

    Acho que por enquanto é isso que eu tenho a dizer. Nos falamos!

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