Capitalismo patriarcal – Entrevista com Tica Moreno *

O combate à mudança climática como escalão de luta contra o capitalismo: a visão das mulheres

Várias organizações de mulheres foram até a cidade sul-africana de Durban para manifestar seus pontos de vista nos marcos das atividades paralelas à COP XVII de Mudança Climática das Nações Unidas, que se realiza nesta cidade até o dia 9 de dezembro.

Algumas dessas organizações apresentam um enfoque muito crítico do sistema capitalista, ao que consideram causa fundamental das diversas desigualdades, dentre elas a de gênero. As mulheres garantem que são elas as mais atingidas pela mudança climática e afirmam que não pode haver justiça climática sem justiça de gênero.
Rádio Mundo Real entrevistou em Durban a ativista Tica Moreno, integrante da Marcha Mundial das Mulheres durante a marcha realizada no sábado, no Dia de Ação Global por Justiça Climática. Tica começou explicando à Rádio Mundo Real que a Marcha Mundial das Mulheres está presente em Durban como parte de um “proceso global de resistência ao capitalismo, que é patriarcal e que hoje está se expandindo cada vez mais para a mercantilização da natureza em todos os níveis”. Segundo ela “é um momento para posicionar de novo o feminismo como parte desse enfrentamento global ao capitalismo patriarcal”.
A ativista também criticou os mecanismos de mercado que têm servido aos países industrializados para “comprar sua saída” das reduções obrigatórias de emissões de gases de efeito estufa. Um dos mais destacados é o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), presente no Protocolo de Kioto e mediante o qual os estados desenvolvidos financiam projetos no Sul global chamados “limpos” para compensar suas emissões contaminantes. Dessa forma não há reduções de emissões no mundo rico, responsável histórico pela crise do clima.
Esses mecanismos “hoje estão sendo apropriados do trabalho das mulheres, do tempo das mulheres, como se fosse um recurso inesgotável do sistema, da mesma forma que faz com a natureza”, disse Tica Moreno. “Nossa ideia aqui é justamente mostrar uma perspectiva feminista sobre como a mercantilização da vida está interconectada em todas as esferas, natureza, trabalho, machismo”, acrescentou .
Inúmeras organizações de mulheres e camponesas afirmam que são elas as mais atingidas pela mudança climática. A ativista afirma que isto é porque “em todo o mundo as mulheres são as responsáveis principalmente do trabalho de sustentabilidade da vida humana”, disse a ativista brasileira. As intensas chuvas, as inundações, secas, entre tantos outros eventos climáticos, dificultam ou impedem especialmente os diversos trabalhos para assegurar a subsistência das comunidades.
Tica falou também sobre as alternativas apresentadas pelas mulheres para lutar contra a mudança climática. Indicou que “em todo o mundo as mulheres estão construindo agroecologia, na luta pela soberania alimentar”.
A agroecologia e a agricultura camponesa sustentável, sem uso de grandes maquinarias nem agrotóxicos, ajudam a “esfriar” o planeta expressa a Via Campesina. O próprio conceito de soberania alimentar representa uma mudança de sistema, enfatizando o abastecimento com alimentos às comunidades e populações locais, evitando os transportes a grandes distâncias. O setor agrícola e o de transportes são dos dois mais importantes na emissão de gases contaminantes em nível mundial. “As mulheres estão protagonizando as verdaderas soluções dos povos contra as falsas soluções de mercado”, afirma Tica Moreno.
Alguns dias atrás a ativista Emily Tjale, do Movimento pelo Acesso à Terra da África do Sul, havia dito à Rádio Mundo Real que “não pode haver justiça climática sem justiça de gênero”. Assim, perguntamos a Tica o que é preciso, para a Marcha Mundial das Mulheres, para atingir a justiça climática.
Para ela, “primeiro é necessário que haja igualdade. Justiça climática para nós tem uma dimensão de igualdade muito forte”, disse a dirigente brasileira. “Significa que as mulheres têm que ter autonomia sobre seus corpos, suas vidas, seus trabalhos, que as mulheres têm que ter uma vida livre de violência, em resumo, que hajam relações igualitárias entre homens e mulheres em todos os espaços da vida”.
Para que haja justiça climática “também é preciso incidir sobre a divisão sexual do trabalho que sustenta o capitalismo hoje”, disse. “Justiça climática para nós é a dimensão de outro sistema, de um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana, que constrói igualdade entre homens e mulheres”, concluiu a ativista.

*Postado originalmente em  http://www.radiomundoreal.fm

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