Sobre periguetes e feministas (ou sobre a mercantilização do corpo e do sexo das mulheres)

Texto da Bruna Provazi, militante da MMM entre São Paulo e Juiz de Fora.


Ontem eu e a Tica participamos de uma mesa na Semana da Mulher da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP que tinha como tema “Mercantilização do corpo e do sexo”. A Thandara, quem me convidou pra participar, queria que eu falasse especificamente da representação da mulher nos meios de comunicação, e um pouco sobre a mulher nos espaços de produção de cultura também, a partir do Festival Mulheres no Volante. [Tudo isso em dez minutos. Rysos.]

Daí, pensando em alguns possíveis exemplos, me dei conta de que realmente não assisto televisão há muito tempo. Quando muito, vejo o programa da Regina Casé, na hora do almoço, no domingo. E eu sei o quanto isso soa feio, mas não é questão de prepotência, de elitismo – aliás, pagar de cult no Brasil é bem brega, viu? -, acho que perdi a paciência mesmo, acho chato e ponto. Não condeno quem assiste novela, BBB ou futebol, por mais que os dois primeiros sejam, geralmente, considerados fúteis e associados ao universo feminino, enquanto que o hábito de assistir a um joguinho seja muitíssimo bem aceito socialmente por aqui e, geralmente, associado ao universo masculino (“Chamar futebol de fútil? Você tá de TPM, né?!”). Mas parte dessa minha chatice talvez tenha a ver com o tema da mesa: eu não me sinto representada na TV. E não sou minoria, não.
Representação das mulheres na mídia
A Fundação Perseu Abramo lançou uma pesquisa, recentemente, sobre corpo, mídia e sexualidade.
Segundo essa pesquisa, 80% das entrevistadas consideram que sua representação na mídia as desagrada e contribui para a desvalorização da figura feminina. Tem mais dados interessantes:
Declaram-se totalmente satisfeitos “em relação ao amor”:
71% dos homens, contra 58% das mulheres hoje (53% em 2001);
Declaram-se totalmente satisfeitos “com sua saúde física”:
69% dos homens, contra 56% das mulheres hoje (58% em 2001);
Declaram-se totalmente satisfeitos “com sua aparência física”:
70% dos homens, contra apenas 50% das mulheres hoje (54% em 2001).

Entre a quase metade das mulheres que não está plenamente satisfeita com sua aparência, declaram-se espontaneamente descontentes com a barriga 15%, acima do peso 14% e com os seios 7%.
Uma em cada três mulheres (33%) diz que se sente “como se recebesse um elogio” quando um homem mexe com ela na rua, contra uma em cada quatro (25%) que se sente “desrespeitada”. Em 2001 essas taxas eram invertidas, respectivamente 27% e 32%.
A maioria das mulheres (64% hoje, 59% em 2001) avalia que de um modo geral elas próprias “saem perdendo” por ser comum no Brasil usarem “roupas que marcam o corpo, como calças justas, saias curtas e blusas decotadas”. Apenas 9% acreditam que as mulheres “saem ganhando” com isso (18% em 2001).
Quatro em cada cinco (80% hoje, 77% em 2001) acham ruim que “na televisão sempre tem programas com mulheres dançando com roupas curtas, mostrando bastante o corpo”, sobretudo por avaliar que isso “dá muita atenção só para o corpo e desvaloriza todas as mulheres” (51%, contra 56% antes).
Três em cada quatro brasileiras (74%) são favoráveis a “um maior controle da programação e da publicidade na TV”, dividindo-se entre as que acreditam que isso deve ser feito por autorregulamentação das TVs e agências de publicidade” (38%), as favoráveis a uma “maior fiscalização ou censura por parte do governo” (37%), e ainda as que prefeririam o controle “por um órgão ou conselho com pessoas da sociedade” (20%).
Ou seja, as mulheres entrevistadas estão mais insatisfeitas com sua própria aparência que os homens, e se preocupam mais com o considerado sobrepeso, com a barriga e com o tamanho dos seios. E essa insatisfação aumentou, em 10 anos. É simbólico também que 74% das entrevistadas sejam favoráveis a algum tipo de controle (governamental, do mercado ou da sociedade) sobre o conteúdo da programação e da publicidade da mídia. Isso não é censura, é democratização da comunicação. É regulamentar, monitorar, criticar a nossa imagem num meio de comunicação que é concessão pública, que é nosso.
Mulheres na produção do jornalismo
De acordo com uma pesquisa realizada pela The International Women’s Media Foundation com 522 empresas jornalísticas, em cerca de 60 países, as mulheres representam apenas 1/3 (33,3%) da força de trabalho do jornalismo. Se pensarmos em cargos de direção (chefes de redação, editoras,…), essa porcentagem é ainda menor.

Mulheres nas notícias
Segundo a World Association for Christian Communication (WACC), as mulheres representam 24% das fontes de informação no mundo. Sabe o que isso significa? Que se um jornalista vai fazer uma matéria sobre silicone, ele provavelmente vai entrevistar uma mulher que quer colocar silicone, e um médico falando como o procedimento se tornou acessível de uns tempos pra cá. Nunca uma médica feminista chata falando dos riscos à saúde e da imposição dos padrões de beleza. Se a matéria é sobre o aumento do pãozinho, provavelmente vai ter uma dona-de-casa reclamando e um economista justificando o aumento. Mas sabe o que tá nas entrelinhas disso? Invisibilidade e desvalorização do trabalho das mulheres. A tal da divisão sexual do trabalho, de novo: homens especialistas reafirmando seus papeis no mundo público e mulheres (boa mães, boas donas-de-casa ou mocinhas fúteis) perpetuando seus papeis relacionados ao mundo privado.

Ontem, quando estava pesquisando sobre o que vem sido exibido na televisão, esbarrei com uns textos muito legais sobre o assunto. A Srta. Bia falou, no post A Helena que não Viveu a Vida, sobre todos os preconceitos de gênero encontrados numa novela do Manoel Carlos que tinha Taís Araújo como protagonista, a fim de quebrar o preconceito de raça. Também li o texto que a Nina Lemos escreveu, ontem mesmo, sobre a pequena revolução que Maria, a “periguete” do BBB, fazia, ao chegar na final – e não é que a moça ganhou 1 milhão? A Clarrisa Correa e a Fabi Motroni também escreveram textos muito bacanas sobre a Maria.
Achei também um post ótimo da Maíra Kubík com seus desejos de fim de ano:
1) Que toda a violência contra a mulher seja noticiada de forma abrangente, e não como um caso isolado;
2) Que a mídia nunca se refira a uma pessoa apenas como “a mulher de alguém”;
3) Que não haja nenhuma forma de exploração do corpo da mulher por meio de imagens e/ou texto, em circunstância alguma;
4) Que em toda reportagem pelo menos uma mulher seja consultada como fonte – de preferência não somente como personagem, leia-se a dona-de-casa que comenta o aumento do pão francês, ou como celebridade;
5) Que se adote uma linguagem com preocupação de gênero, ou seja, que as palavras sejam utilizadas tanto no masculino quanto no feminino.
Depois das falas, passamos também o vídeo que fizemos na Fuzarca Feminista sobre as propagandas de cerveja, e que ajuda bastante a fazer esse tipo de discussão.

No final, fiquei muito feliz por ter essas referências incríveis na blogosfera feminista pra consultar. É claro que não falei sobre tudo isso em dez minutos. E é por isso também que fiquei pensando que a gente precisa de mais. Precisa assistir mais tevê – ainda que seja chaaaato. E precisa escrever mais sobre isso pra poder agir mais sobre isso. Porque, como falaram lá no debate da USP, a trabalhadora chega cansada em casa e liga a TV. E sabe o que mais? Amanhã, a trabalhadora passa em frente a uma banca de jornal e lê as manchetes, como a maioria dos “leitores de primeira página” do Brasil. E, no final de semana, ela vê que, entre as opções do cinema perto de casa, tá passando aquele filme lá da Deborah Secco. E se a gente não pensar, não escrever e não tentar intervir nisso, é essa a imagem que ela vai continuar tendo dela mesma, e é essa eterna insatisfação com si mesma que está errada. E ela precisa saber – e no fundo já até sabe – que não precisa ser assim.

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