Eu aborto, Tu abortas, nada nos calará!

Companheiras da FEUU (Federación de Estudiantes Universitarios del Uruguay) publicaram no último 28 de setembro no site da FEUU, Dia Latino-Americano de Luta pela Descriminalizaçao do Aborto, 6 histórias que abordam a realidade do aborto no Uruguai. 


O Estado uruguaio orienta as mulheres de como realizar o aborto de maneira segura. Entretanto, não viabiliza os métodos para realização do mesmo, em condições insalubres e sem nenhuma orientação médica milhares de mulheres, assim como no Brasil, morrem. Confira as histórias que evidencia que são as mulheres pobres que mais sofrem com essa terrível situação de ilegalidade.


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Eu aborto, 
Tu abortas, nada nós calará!
por Comissão Direitos Humanos [Aecco] da FEUU, terça, 28 de setembro de 2010 às 17:15


JUANA TIENE 20 ANOS, é mãe de filhos de dois e três anos. O maior vive com ela e o mais velho com sua avó. Ambas crianças sofrem de paralisia cerebral. Ela não tem trabalho nem outros recursos; sua pobreza é extrema. Foi a uma policlínica onde recebeu orientação sobre como interromper a gravidez sem risco e isso foi tudo. Por isso, depois da consulta, peregrinou pelas organizações sociais de seu bairro: abraçada a seu filho doente pedia ajuda para abortar. Depois de quatro semanas uma assistente social se comoveu e organizou uma coleta que permitiu a Juana obtivesse o misoprostol. Juana abortou na décima segunda semana de gestação.

MARÍA TIENE 32 ANOS, para sua família era impossível sustentar outro filho no momento que ficou grávida. Com relativa facilidade obteve informações sobre como abortar sem risco, mas para obter o misoprostol necessitou chegar a uma oculta rede solidária. Desde a sétima até a décima terceira semana realizou intervenções com o medicamento. Foram dez madrugadas de solidão, buscando qualquer sinal de seu corpo. Foram dez madrugadas de clandestinidade médica e omissão de assistência.

ROMINA TIENE 18 ANOS, Sua mãe e suas irmãs trabalham para que ela estude. Na casa estão orgulhosas de que ela vai bem no Liceu. Romina ficou grávida e o medo lhe roubou a palavra. Não pôde dizer nada; não pôde comer mais e chegou a cometer uma tentativa de suicídio, motivo pelo qual foi internada. Passados três dias lhe deram alta, e de volta na sua casa compartilhou seu drama. As irmãs se mobilizaram; contra relógio fizeram a consulta e conseguiram o medicamento. Romina tomou os comprimidos e esperou: primeiro chegou a dor, depois os vômitos, a diarréia e a febre; no final foi o alívio.

CRISTINA TIENE 44 ANOS, filhos grandes e uma neta. Uma nova gravidez a surpreendeu ela e o marido. Depois pensarem muito sobre o assunto, decidiram não continuá-la. Foram à casa de uma vizinha que entregava comprimidos no bairro, que lhe indicou aonde ir. No dia da consulta no Hospital Pereira Rossell uma mulher a abordou na sala de espera e lhe ofereceu o misoprostol. Cobrava três mil pesos por quatro comprimidos; trocaram telefones. Cristina, depois de receber do Hospital mais nada que informação conseguiu um empréstimo, marcou um encontro com a moça e tomou os comprimidos.

MARIANA TIENE 19 ANOS, está decidida a não continuar a gravidez que a surpreendeu. Ela e seu namorado organizam uma reunião com as famílias de ambos para explicar a situação e pedir ajuda. Vivem em um dos departamentos do interior onde nenhum serviço de saúde brinda orientação. As famílias chamam  diferentes contatos até que consigam alguém que lhes oriente. Então, Mariana e seu pai viajam para Montevidéu onde fizeram uma consulta médica e conseguiram o misoprostol. De volta, seguindo as instruções coloca o medicamento. Sem dor, sem sintoma algum, Mariana sangra por três dias. Ao quarto dia uma dor intensa põe em alerta à família. Imediatamente acodem à emergência onde fica internada por complicações até que a consideram fora de perigo. “Até agora não me tinha dado conta até onde se equivocou Tabaré com o veto”, repete o pai mais de uma vez.

ALICIA TIENE 20 ANOS, seu companheiro  tem 21 anos e seu bebê um ano. Vivem todos na casa de sua sogra em um bairro de trabalhadores pobres perto de Montevidéu. Quando soube que estava novamente  grávida consultou seu companheiro, juntos decidiram que naquele  momento seria uma irresponsabilidade colocar outro filho no seu mundo. Foram a uma consulta de orientação no Hospital Pereira Rossell e voltaram sem saber por onde começar a resolver na prática. Passaram muitas semanas antes que pudessem conseguir o misoprostol. Não falaram de sua situação nem a decisão com ninguém. Quando conseguiram os comprimidos Alicia os tomou como lhe indicaram fazê-lo, mas sozinha no banho para que sua sogra não a visse, e quando seu companheiro estava trabalhando. Como estava na décima sétima semana de gestação a evacuação foi rápida, violenta e dolorosa em mais de um sentido. A sogra ouviu as queixas, viu o sangue no chão e chamou o plantão de emergência (911) para que a socorressem. Ia chegar mais rápido que a assistência médica. O Estado uruguaio assessorou a Alicia sobre como abortar sem risco, e o mesmo Estado uruguaio a deteve, submetendo à justiça penal por fazê-lo.


Jéssika Martins Ribeiro – militante da Marcha Mundial das Mulheres e vice-presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE|SP)

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