Consequências da guerra para as mulheres não são discutidas

International Herald Tribune
Nilanjana S. Roy
Nova Déli (Índia)
 
Mulher desabrigada pelas inundações carrega criança em Muzaffargarh, na região central do Paquistão  
 
Os números são controversos, mas a história que contam continua a mesma há quatro décadas: 200 mil mulheres (ou 300 mil, ou 400 mil, dependendo da fonte) foram estupradas durante a guerra de 1971 em que o Paquistão do Leste rompeu como Paquistão do Oeste para se tornar Bangladesh.
A feminista norte-americana Susan Brownmiller, citando os três grupos de estatísticas em seu livro de 1975 intitulado “Contra Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro”, comparou os estupros de Bangladesh com os de mulheres chinesas pelos soldados japoneses em Janjing em 1937-1938.
Mesmo a menor estatística de Bangladesh leva a uma comparação horripilante – a guerra de 1992-1995 na Bósnia teve um décimo do número de estupros da guerra de Bangladesh. Os estupros de mulheres bósnias obrigaram o mundo a reconhecer o estupro como um “instrumento do terror”, como um crime contra a humanidade. Mas até agora ninguém foi preso por violência sexual contra as mulheres de Bangladesh em 1971.
Com a chegada do 40º aniversário da guerra de 1971, o governo de Bangladesh estabeleceu um Tribunal Penal Internacional para investigar as atrocidades daquela época. Mas os defensores dos direitos humanos e advogados temem que os estupros em massa e assassinatos de mulheres não sejam abordados de forma adequada. Eles esperam garantir que sejam.
“Há uma espécie de negação da história da guerra por parte de certos grupos políticos, e uma falha ao responder aos crimes de violência sexual contra as mulheres”, diz Sara Hossain, advogada de direitos humanos em Dhaka.
Durante anos, as experiências das mulheres – guerrilheiras pela independência, vítimas de estupro, viúvas – durante a guerra receberam pouca atenção, suas histórias raramente eram contadas, e a violência que viveram raramente era reconhecida.
“Quando eu era adolescente em 1971, ouvi muitas histórias sobre alunas de universidades, jovens e mulheres dos vilarejos que eram estupradas e mantidas em cativeiro, efetivamente forçadas à escravidão sexual, na base militar. Mas depois da guerra, em pouco tempo, não se dizia mais nada”, diz Irene Khan, ex-secretária geral da Anistia Internacional.
“Sim, nós costumamos falar sobre as centenas de milhares de mulheres que foram estupradas, obrigadas à escravidão sexual, mas raramente há nomes ou rostos ou histórias individuais”, diz Khan, que nasceu em Dhaka, hoje capital de Bangladesh, e estudou na Inglaterra e nos Estados Unidos. “A sociedade muçulmana conservadora preferiu lançar um véu de negligência e negação sobre o assunto, permitindo que aqueles que cometeram a violência de gênero ou foram coniventes com ela saíssem impunes, deixando as vítimas no anonimato e na vergonha e sem muito apoio da comunidade ou do governo.”
Em Dhaka, Meghna Guhathakurta, diretora-executiva do grupo não-governamental Research Iniciatives em Bangladesh, insiste que a situação dessas mulheres não pode ser ignorada. “O tema do papel das mulheres durante a guerra de libertação tem emergido de tempos em tempos nos grupos de mulheres. Ele não pode mais ser ignorado.”
No final deste ano, a primeira tradução em língua inglesa de uma importante história oral, “Women’s 1971” [algo como “O 1971 das Mulheres”], será publicada. Ela reúne os testemunhos de mulheres que não foram apenas vítimas, mas guerrilheiras como Taramon Bibi, uma das duas mulheres condecoradas por seu serviço no combate durante a guerra, ou que, como Ferdousi Priyobhashini, hoje escultora, usaram suas experiências na guerra como uma fonte para a autotransformação. Das 19 mulheres cujas histórias aparecem nessa coleção, 15 são muçulmanas, duas hindus e duas budistas.
Guhathakurta escreve em sua introdução: “das 19 entrevistadas, nove foram vítimas de estupro. O restante falou sobre suas dificuldades e tribulações depois que membros de suas famílias foram assassinados.”
O trauma das que sobreviveram ao estupro e outros tipos de violência não foi suficientemente abordado em Bangladesh, diz ela. “Sentimos que é necessário para as autoridades, a sociedade civil e a comunidade internacional revisitar o tema da violência sexual e dos crime de guerra.”
Alguns acreditam que é essencial acabar com décadas de negação.
“O maior desafio”, diz Mofidul Hoque, membro e secretária do Museu da Guerra de Libertação em Dhaka, “é como ler o silêncio. Tenho confiança de que iremos ouvir muitas vozes novas, presenciando a quebra do silêncio.”
Um dos principais eventos planejados para o 40º aniversário no ano que vem é um festival de documentários sobre a guerra de 1971 e os direitos humanos, com uma sessão especial sobre as mulheres. Outro projeto se concentra na pesquisa sobre as vidas de crianças nascidas depois de 1971, filhas de “birangonas”, ou “sem culpa”, como foram chamadas pelo novo governo de Bangladesh em 1972, numa tentativa não muito bem sucedida de persuadir as famílias a aceitarem novamente as mulheres que haviam sofrido violência sexual.
E esta guerra teve histórias assombrosas. O jovem cineasta Ananda documenta o trauma persistente do vilarejo de Shohagpur em seu filme “The Village of Widows” [“O Vilarejo das Viúvas”], que também será exibido no ano que vem. Em julho de 1971, soldados paquistaneses chegaram a este local tranquilo, que supostamente apoiava os guerrilheiros pela independência conhecidos como Mukti Bahini. Eles juntaram todos os homens e os mataram. Quatro décadas depois, conforme registra Ananda, Shohagpur não tem nenhum homem velho. As mulheres vivem ao lado dos túmulos de seus mortos.
Será que a justiça é possível depois de tantas décadas? Será que ela está sendo exigida? O Tribunal Internacional de Crimes em Bangladesh começou fazendo acusações.
Entretanto, diz a advogada Hossain: “não está claro se os crimes de violência contra mulher serão abordados ou formarão a base dos processos. Não há nenhuma mulher entre os membros do tribunal ou promotores. Mas esperamos que os investigadores levantem esse tema – e que o governo garanta um ambiente seguro para as mulheres testemunharem.”
Khan, cuja carreira como defensora dos direitos humanos a levou até a Bósnia, Serra Leoa e outros cenários de guerra, é mais cética. “Foi só depois da Bósnia que o Estatuto de Roma”, o tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional, “tornou o estupro um crime de guerra. Há 40 anos, a violência de gênero como arma de guerra não era compreendida, não só em Bangladesh mas no mundo inteiro”, diz ela.
“Bangladesh só agora está lidando com seus crimes de guerra – e com grande dificuldade, dada a forma como o assunto é visto na política dos partidos religiosos fundamentalistas”, diz ela. “A dimensão de gênero das atrocidades não é totalmente reconhecida, nem a enorme contribuição que as mulheres deram à luta pela libertação como guerrilheiras ou apoiadoras. Bangladesh continua sendo uma sociedade conservadora e patriarcal onde o papel da mulher continua sendo subvalorizado – no passado ou no presente.”
 
Tradução: Eloise De Vylder

 

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