O estupro

Meninas, esse texto é grande, mas vale muito a pena! Ps. Tá sem revisão.


O Estupro

Emmanuèle Durand

Eu andava pela rua do Four em direção ao metrô, voltando para casa. Eram oito horas da noite. Enquanto atravesso a rua um moço me vê do outro lado da rua, me avalia, me espera e me aborda. Ele é de altura média, nem feio nem bonito, vestido burguesmente, usa óculos. (Se você o encontrar, chama-se Marc, não soube seu sobrenome.) Parece estudante de Direito. Não é o meu tipo.
Perdão, senhorita, quer que eu a acompanhe, perdão, senhorita, posso falar com você, boa noite, como vai, aonde vai tão depressa, ou qualquer coisa no gênero, me diz ele.
Não gosto de ser abordada. Isso não traria problemas, se homens e mulheres fossem iguais, se as relações entre os sexos fossem recíprocas. Mas atualmente esse não é um meio como um outro de se conhecer alguém, porque é um meio que coloca de início a mulher como objeto sexual. A maioria dos homens que abordam uma mulher não esperam que ela tenha manifestado o menor desejo, que tenha sustentado seu olhar, nem mesmo que os tenha visto. Começam freqüentemente a falar antes de ter visto seu rosto, chegam e dirigem-se a ela por trás.
Era, como quase sempre, sua escolha e não a minha. Primeiro, não respondi – ele me era indiferente. Depois ele insistiu, seguindo-me. A força de sua insistência juntou-se à da minha solidão, e respondi. Percebi que falar me dava prazer. Queria companhia. Seu desejo era a priori bem diferente, afirmou ele mais tarde. Tratava-se de uma decisão que não foi modificada nem por minha atitude geral, nem por minhas afirmações, nem por minha recusa física.
Quando ele propôs tomarmos um café, aceitei, prevenindo-o que o deixaria meia hora depois (porque eu só previa um alívio verbal para minha solidão e não tinha a impressão que uma amizade nasceria deste encontro).
Então começou a escalada. “Conheço um café um pouco mais adiante”, diz ele. Na verdade, é ao seu carro que me leva, abre-me a porta sem perguntar minha opinião.
É o primeiro indício de sua vontade de poder. Isso deveria ter bastado para que eu me recusasse a entrar no carro. Infelizmente as mulheres estão habituadas a não se chocar com a pressão continuamente feita pelos homens sobre elas. Eu não notava que, entre esse gênero de abuso – constante – e o estupro, só há uma diferença de grau, não de natureza.
Até aqui eu ainda estava formalmente livre. Digo formalmente, porque, se eu me tivesse recusado a entrar no seu carro, isso teria provado que eu não poderia fazê-lo sem risco. Se uma mulher não tem escolha entre privar-se de companhia ou aceitar uma companhia com o risco de que sua liberdade não seja respeitada, essa mulher não é livre.
Comecei por recusar a subir. Disse que preferia ir a um café ali por perto, que era mais simples, etc.
Espontaneamente, não exprimia a razão verdadeira de minha recusa. Fazia de conta que o carro representava apenas uma complicação prática.
Utilizava em realidade um código implícito, compreendido por meu interlocutor, pois ele me respondeu: “Mas não é possível, não me diga que você está com medo. Não vou te comer”, etc.
Eu tinha afirmado o risco da agressão sem mencioná-lo, e ele o tinha mencionado, negando-o. Todos os dois, eu por voluntarismo, ele por chantagem, fazíamos de tenta que ignorávamos a situação social da mulher como objeto sexual, quer dizer, a possibilidade de que sua liberdade não seja respeitada.
Quando eu lhe disse que não era cômodo tomar o carro, eu falava como uma mulher livre que só se coloca um problema material. De fato, sem ter plenamente consciência, eu recusava a situação sob dois aspectos: de um lado, a possibilidade de que esse homem abusasse de mim (como tão justamente se diz) no carro; e, por outro lado, o significado social de meu gesto, se eu entrasse no carro. Este significado faz parte de um código implícito, e é por isso que é tão difícil de ser analisado.
Eu temia que no fundo minha atitude fosse considerada como um convite sexual, quando não era o caso. Ou, mais exatamente, eu temia que o homem fingisse interpretar minha atitude como um convite sexual para se justificar mais facilmente de uma agressão eventual (situada a qualquer nível), negando assim seu caráter de agressão.
Este medo obscuro exprimia uma realidade social habitual. As mulheres nunca são realmente consideradas vítimas da agressão masculina, mas cúmplices. Paradoxo absurdo, destinado a negar a realidade da opressão das mulheres. Se uma mulher vai ao quarto de um desconhecido e aí é estuprada, dir-se-á que ela tinha “procurado”, que o fato de entrar no quarto era uma aceitação implícita do que poderia acontecer. Levando ao extremo, finge-se crer nesse contra-senso: que uma mulher possa gostar de ser violada.
Todas essas idéias repousam sobre o mito da natureza passiva da sexualidade feminina, mito destinado a justificar um papel social que é imposto às mulheres. “Uma mulher que não diz nada consente. Uma mulher que diz não quer dizer talvez, uma mulher que diz talvez quer dizer sim.” Dito de outra maneira, seja a mulher neutra, resistente ou hesitante, ela está sempre de acordo. Quer dizer que a liberdade das mulheres é totalmente negada, que lhes é negada toda autonomia sexual. O que ela exprime não é ouvido, mas percebido em função do desejo masculino. Num caso extremo (mas de fato normalmente), um desejo positivo de sua parte é percebido como ambíguo, como um desejo recusa, uma submissão e não uma escolha.
Sobre isso, uma amiga contou-me uma história exemplar. Ela estava com um homem com quem ela queria fazer amor, e esse desejo era compartilhado. Mas aparentemente seu desejo era um obstáculo para a realização dos desejos de seu companheiro. Era preciso haver um simulacro de recusa. Assim ele a agrediu, bateu, injuriou, gritando: “Você tá gostando, suja, tá gostando!” Não era preciso que essa mulher tivesse vontade de fazer amor, não, era preciso que ela tivesse vontade de ser violada. Seu desejo devia ser transformado em submissão a esse homem como a tantos outros cujo prazer é indissociável de uma vontade de dominação.
Voltando à minha história, recusei, portanto, a princípio, subir no carro, sob vários pretextos, na realidade para não oferecer a meu interlocutor essa arma dupla: a possibilidade material de abusar de mim num grau qualquer e o pretexto de minha cumplicidade.
Mas o código que eu tinha utilizado, quer dizer, o pretexto material, implicando a ausência de obstáculos morais, implicando, portanto, minha liberdade, se voltava contra mim, uma vez usado pelo homem. Tendo compreendido perfeitamente o sentido real de minha resistência respondeu a essa objeção subjacente invocando ele também minha pretendida liberdade, o que era negar o fundamento de minha objeção. A ilusão da liberdade em uma mulher (a negação de sua opressão) torna-se para a sociedade um meio de chantagem contra ela, para mantê-la em seu estado de opressão. Sua chantagem constituía em ridicularizar meu medo de ser tratada como objeto sexual. “Não vou te comer”, quer dizer são medos de menininhas. Os homens não são “maus”. Dito de outra maneira: você é livre. Se você entra no meu carro, você realiza essa liberdade. Se você não entra, você está se privando desta liberdade, obedecendo a tabus ridículos.
No fracasso das relações entre homens e mulheres, as mulheres são sempre as primeiras a serem acusadas. Se elas recusam relações alienadas, são consideradas como inocentes (quer dizer ridículas) ou pequeno burguesas, e se elas são vítimas de relações alienadas, elas ainda são culpadas, porque deveriam ter desconfiado. A esse propósito, o rapaz em questão (chamemo-lo JH) censurou duas vezes minha ingenuidade: antes do estupro, porque eu era boba de não querer subir no seu carro, e depois do estupro, porque eu deveria ter desconfiado.
É preciso verdadeiramente denunciar a chantagem masculina que consiste em chamar “pudor ofendido” ou “repressão” as reações femininas a uma agressão disfarçada de “liberdade sexual”. Entre muitos pseudo-revolucionários, principalmente, a liberdade sexual se confunde com a liberdade exclusiva dos homens, às custas da das mulheres. É muito comum que os estudantes que se dizem revolucionários vaiem as estudantes, sob o pretexto que são “pequeno-burguesas”. Nunca os vi agredir dessa maneira “pequenos-burgueses.” As mulheres, por causa de seu sexo, são mais agredidas e ridicularizadas que qualquer homem por sua cor. Não há pior racismo que o “sexismo”. Quanto às reações de “pudor ofendido”, elas não são mais que a expressão de uma humilhação real. devida a um desprezo real. Isso nunca é dito.
O estágio primário da emancipação de uma mulher é de fazer de conta que é livre ou, mais exatamente, é tentar sê-lo é experimentar a realidade até que a ilusão se desfaça.
Acreditei no discurso hipócrita desse rapaz, acreditei que estava livre, porque eu queria sê-lo, queria poder entrar no carro de um desconhecido só com a intenção de ir tomar um café e que essa intenção fosse tomada pelo que ela era.
Nós chegamos ao Châtelet, e lá JH entrou numa rua de grande circulação. Como eu me inquietava quanto ao lugar onde íamos, JH me repetiu que ele conhecia um café um pouco mais adiante. No caminho ele começou a jogar o “jogo da verdade”, ao qual me prestei sem prever o uso (entretanto já de se esperar) que faria dele. Naturalmente ele começou a fazer perguntas de ordem sexual que no princípio não me encabularam, mas depois se tornaram francamente obscenas. Era o segundo indício de sua capacidade de agressão. Era em si uma agressão sexual. As palavras que despem dando nomes são uma maneira como uma outra de se apropriar do corpo do outro. Isso também é estupro. Aliás, foi o que eu lhe disse, crendo-me obrigada a explicar minha recusa em responder. (A quantas explicações estão condenadas as mulheres para tentar vencer a má fé masculina?)
Nesse momento notei que esse homem não me deixaria “tranqüila”. Mas nem um instante, até o último momento, pensei que ele quisesse realmente me violar. Disse-lhe, sempre esses pretextos, que começava a ficar tarde e que eu preferia voltar imediatamente. Pedi-lhe que me deixasse na próxima esquina. Ele disse que já era tarde demais, que não dava mais jeito de parar, que já estávamos chegando. Parou num lugar qualquer em Joinville, em frente a uma casinha bastante isolada das outras. Entrei com ele, pedindo-lhe que me levasse de volta rapidamente.
Que eu tenha sido ingênua não vem ao caso.
Pôs alguns discos, sentamo-nos diante da mesa, ofereceu-me uísque. Falamos indiferentemente de filmes e discos. Pôs a mão no meu joelho. Retirei-a. Recomeçou. Nova recusa. “Por que você não quer? Não quer namorar?” “Não, eu disse, não tinha essa intenção.” “Então não devia ter vindo”, me respondeu. Fortificado com esse argumento, recomeçou cada vez mais. Fiquei com raiva. “Bom, bom, me disse, eu paro, mas venha sentar-se na cama, é mais confortável.” Sentei-me na cama. Era completamente idiota de minha parte. Talvez eu tivesse essa reação que se tem diante do perigo, fingindo que ele não existe para conjurar o malefício. Parecia-me que um medo claramente expresso ou recusa demais poderiam excitar ainda mais sua vontade de poder. De toda maneira, dada sua decisão, isto nada mudaria. Logo que sentei na cama, ele me derrubou segundo o método clássico e procurou beijar-me à força. Debati-me, levantei-me, peguei minhas coisas e fugi para a porta. Logo ele me alcançou, carregou-me nos braços e jogou-me na cama. Beijou-me de novo à força (não menciono os gestos anexos). Então mordi-lhe o polegar. Meus dentes se enfiaram interminavelmente. Levantou-se furioso e contemplou seu dedo aberto e sangrando.
– “Suja! Por que você me fez isso?”
Intelectual como sempre, expliquei que estava só me defendendo. O que não consigo compreender é por que a gente insiste em responder à má fé.
“Você não tem o direito, respondeu-me. Afinal, não te fiz nada. Não te machuquei.”
Queixava-se de sua dor, enquanto me sacudia e me batia. Depois ameaçou-me mais ou menos nesses termos: “Agora, minha pequena, se você tenta me resistir um só segundo, te arranjo. (Levo um murro no queixo.) Posso muito bem te furar a bochecha com meu cigarro. Posso te desmaiar. Sou o mais forte”, etc.
Nesse momento senti-me desesperada. Pensei que ia desandar a chorar. Ele disse algo como “vê se não começa a choramingar agora, que não vai servir pra nada”. Retomei-me e, em desespero de causa, tentei pregar-lhe a moral. Tentei também fazê-Io compreender que não era, “interessante” para ele fazer amor nessas condições. (Acho particularmente abjeto que uma mulher deva ter que se preocupar com o interesse de um homem que quer violá-la para persuadi-lo a que não o faça.)
JH respondeu-me que tinha decidido me “possuir” desde que me tinha visto, e que o faria. Ponto.
Procurei com o olhar no quarto algo que pudesse me ajudar, mas nada vi. Nem mesmo teria tempo de pegar o telefone. Gritar não ia valer de nada, dado o isolamento da casa. Disse a mim mesma que, se eu me debatesse o tempo todo, ele não teria possibilidade física de me violar. Mas pensei que, na pior das hipóteses, estava nas mãos de um maníaco capaz de me matar, e, na melhor, levaria uma surra, que comportaria, além do inconveniente da dor, o risco de ter de me apresentar à minha família tumefeita e coberta de marcas azuis. Seria preciso explicar em que situação me metera (“mas, pobre criança, também que idéia de…” etc.), seria eu quem seria considerada culpada. A vergonha sobre mim.
Tudo o que entrevi em alguns segundos pareceu-me mais terrível que me entregar e esperar que aquilo acabasse. Não queria morrer nem ficar com marcas inúteis. O estupro, de todo jeito, pela violência e pela humilhação, já estava consumado.
Nesse momento pensei no risco – especialmente naquele dia – de ficar grávida. Disse-lhe. Curiosamente, respondeu-me:
– Mas é claro que vou tomar cuidado, não sou um menino!
Aparentemente ele pensava que tinha ainda uma honra a reabilitar a meus olhos, como se em minha recusa pudesse haver o menor lugar para sua vantagem.
O caso durou trinta segundos. Um amigo a quem contei a história me perguntou, para minha grande surpresa, se eu tinha gozado! O que parece provar que para ele não havia uma diferença profunda entre violar e fazer amor. Esse comentário vale para todos os maridos que se queixam da frigidez de sua mulher e continuam a exigir o cumprimento do “dever conjugal “. A forma habitual de relações sexuais entre nossos avós e nossas avós era pura e simplesmente o estupro.”Cada vez era um suplício”, dizia minha avó à minha mãe, que aprovava a comparação. O estupro, conjugal ou não, é ainda a forma típica, realizada num ou noutro nível, das relações entre os sexos.
Ele não “tomou cuidado”. Eu lho disse, ele o negou, sempre atento à sua honra. Naquele mês tive um atraso muito grande. Passei muitos dias na angústia, a me perguntar se teria o direito de abortar legalmente naquele caso (não tinha), como poderia provar o estupro (tente… ), etc. Agradeço à sorte, foi só um atraso.
Quando já estávamos vestidos, JH teve a cara de pau de se mostrar decepcionado, perguntou-me se verdadeiramente eu não tinha achado agradável e, quando manifestei – prudentemente – minha intenção de voltar para casa, teve a cara de pau ainda mais monstruosa de me perguntar se eu não queria passar a noite com ele. Sempre essa mesma negação, formulada ou implícita, da realidade do estupro. Sá sentia ódio por ele e uma vontade terrível de brigar. Foi nesse momento que mais sofri, tendo que conter em mim tudo o que queria cuspir-lhe na cara, sempre prisioneira da chantagem da lei do mais forte. Refugiando-me irrisoriamente na intelectualização, tentei “instruir-me”. Fiz-lhe perguntas sobre ele. Deu-me a informação contraditória de que sempre agia assim com as moças, elas estejam ou não de acordo, mas que “a maioria aceitava”. Depois me avisou com o ar contente de si que em todo caso manteria a promessa de levar-me de volta. No carro justificou (?) o estupro pela “inferioridade natural das mulheres”. Só abria a boca para fazer declarações cada uma mais acabrunhante que a outra. Quando me deixou em Paris, eu tinha tido de tal maneira que reprimir minha agressividade que, paralisada, nem consegui bater a porta do carro.

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