Se cuida, se cuida, se cuida seu machista: a Universidade vai ser toda feminista!

Por Maria Júlia*

A entrada na Universidade é um momento marcante na vida de um/a jovem. A felicidade de passar pelo vestibular é muita, e um grande horizonte se abre com a vivência universitária, formação, possibilidade de atuação profissional na área desejada etc.caaso3

Mas a entrada na Universidade também pode ser – e normalmente é – marcada por momentos constrangedores, desagradáveis e desnecessários, e até mesmo violentos. Sim, estou falando do trote.

Pra muita gente, isso que estou falando é coisa de “feminazi”, de “mal-comida” e, principalmente, de quem não tem um bom senso de humor.

Bom, honestamente, eu não acho que seja engraçado distribuir isso aqui em uma festa que deveria servir para dar as boas-vindas às calouras e aos calouros na universidade.

Essa imagem – que incentiva descaradamente a violência contra a mulher, principalmente se ela for uma “mal-comida”- foi distribuída durante o Miss Bixete, que acontece tradicionalmente em São Carlos. E isso é só pra dar um gostinho, porque não é o único problema do evento.

O Miss Bixete  acontece todo começo de ano na USP São Carlos, e faz parte da programação de recepção aos calouros. O evento consiste em colocar as calouras em cima do palco do CAASO (Centro Acadêmico de lá) para tirarem a roupa, e assim será eleita a “Miss Bixete”. Para encorajá-las, contratam uma prostituta para tirar a roupa e ela vai com uma camiseta escrito “Arquitetura”, coincidentemente o curso com mais mulheres, e o primeiro a se retirar da organização da “festa”.

Todos os anos, o Coletivo de Mulheres do CAASO (e agora também da Ufscar) protesta contra esse evento, que esse ano teve adesão da Frente Feminista de São Carlos. As manifestantes foram lá para protestar paficiamente, e foram recebidas com agressões verbais, algumas quase físicas (tentaram ir pra cima delas, rasgaram as faixas, e até incitaram um cachorro pra cima delas), e muita provocação (como a distribuição da tal imagem).

Não preciso me alongar muito mais sobre o evento ou sobre o ocorrido, porque a nota das meninas do Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal (leia a nota logo depois do post) explica muito melhor, a partir da vivência delas mesmas e da experiência de mobilização e combate ao machismo que travam cotidianamente na Universidade.

Nós, da MMM, queremos deixar aqui nosso apoio às meninas que se manifestam todos os anos, desde 2005, contra esse evento, cada vez com mais apoio. Infelizmente, o Miss Bixete não é o único caso de trote machista dentro da USP, mas não posso deixar de esboçar um sorriso quando penso na quantidade de mulheres e homens se manifestando em frente ao espaço do Centro Acadêmico (onde ocorre o evento, mesmo sem apoio da atual gestão), na quantidade de faixas e batuques, no barulho que fizeram, e na repercussão que o caso está tendo. Apesar do grande machismo que ainda vemos no ambiente universitário, o feminismo avança, com caaso2muita força, alegria, cada vez mais apoio.

Estamos juntas na luta por uma sociedade melhor, mais igualitária e mais justa, que também é uma luta para mudar as
Universidades de todo o Brasil. Mulheres em movimento mudam o mundo, e vocês certamente estão fazendo isso.

Para vocês, os nossos sinceros parabéns, pela garra, pela coragem e pela determinação no combate ao machismo dentro e fora da Universidade.

Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista: a Universidade vai ser toda feminista!

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

*Maria Júlia é estudante de Letras na USP e militante da MMM de São Paulo

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Nota oficial do Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal sobre os eventos acontecidos no dia 26/02 na USP São Carlos

Não é novidade a existência de atos machistas dentro da universidade e de trotes abusivos. Em diversas instituições do país são organizados eventos que se passam por simples e inocentes concursos de beleza e são cometidos abusos que se passam por meras brincadeiras. O Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal compartilha com os estudantes de todo o país a dificuldade em se opor a tais acontecimentos e em tentar dialogar com a sociedade sobre o machismo disfarçado e naturalizado dentro e fora da universidade.

“MISS BIXETE”: DO QUE SE TRATA

Há alguns anos acontece no espaço do CAASO (Centro Acadêmico Armando Salles de Oliveira), entidade representante dos estudantes da USP de São Carlos, um evento chamado “Miss Bixete”, organizado pelo Grupo de Apoio à Putaria (GAP) no qual mulheres recém chegadas na universidade são induzidas por seus veteranos/as a participar de um “concurso de beleza”, no qual são submetidas a várias “brincadeiras” consideradas por muitos pejorativas e simbolicamente agressivas.

Apesar de não haver ocorrido em 2013, nos últimos 10 anos uma prostituta era contratada, para mostrar os seios, passando-se por uma caloura da Arquitetura (primeiro de muitos cursos que se negou a participar), incentivando as outras participantes a fazerem o mesmo.

Desde 2005, estudantes contrários a esse tipo de integração vem discutindo o tema e buscando manifestar-se contra. Nos últimos anos, veteranas/os feministas começaram a se posicionar e conversar com as meninas para deixar claro que elas não precisam subir no palco e que existem pessoas que não apoiam a atividade, sendo estas/es também frequentemente hostilizadas/os por alguns organizadores.

Ainda que busquemos esse diálogo, não podemos desconsiderar que existe uma pressão exercida pela presença de centenas de pessoas em êxtase aguardando o evento, que no momento não há um domínio sobre a amplitude que este evento pode levar e que algumas meninas já nos relataram sentir vergonha em se negar a participar e, consequentemente, serem mal vistas pelo grupo.

Sabemos que as mulheres têm total capacidade para tomar suas decisões e lutamos pela sua liberdade, mas não ignoramos também que o ambiente em que são colocadas não é idóneo para que tal decisão seja tomada. Além disso, apesar de algumas participantes defenderem o evento, outras apoiam e se integram à nossa manifestação, e isso não pode ser desconsiderado.

Continue lendo o texto aqui: http://frentefeministausp.wordpress.com/2013/03/04/nota-oficial-do-coletivo-de-mulheres-do-caaso-e-federal-sobre-os-eventos-acontecidos-no-dia-2602-na-usp-sao-carlos/

Confira também a nota da Diretoria de Mulheres da UNE:

Nota de Repúdio ao ocorrido na USP – São Carlos

Na tarde da última terça-feira, 26 de Fevereiro, veteranos da USP – São Carlos do GAP (Grupo de Apoio a Putaria) protagonizaram episódios de violência contra estudantes na recepção de calouros e calouras. O primeiro episódio se deu através da organização de um trote onde estudantes mulheres eram submetidas a uma competição, chamada Miss Bixete, onde para ser vitoriosa a estudante deveria se submeter cenas de constrangimento. As cenas variavam entre tirar a blusa até simulação de atos sexuais. O segundo episódio foi a agregação, também por parte dos veteranos, feita às estudantes da Frente Feminista de São Carlos que ao realizarem sua manifestação receberem, xingamentos, gestos obscenos e meninos ficaram pelados para hostiliza-las.

A União Nacional dos Estudantes luta para combater o machismo na sociedade. E acredita que o papel da Universidade nessa luta é de não reproduzir os valores opressores da sociedade e, também, de combatê-los.

Repudiamos o trote machista construído pelos veteranos que serve para humilhar e tratar as mulheres como objeto e mercadoria.  Repudiamos, também, a agressão feita pelos veteranos às estudantes que se manifestavam.  Repudiamos o fato que as mulheres ao protestarem contra o machismo serem vítimas de mais machismo!

A entidade não somente se solidariza as estudantes, mas, também exige as devidas atitudes dos órgãos universitários e públicos competentes a serem tomadas contra os responsáveis pelas agressões.

A União Nacional dos Estudantes realiza campanhas periódicas contra os trotes machistas e defende que a recepção de calouros deve promover a integração entre os estudantes de forma saudável e respeitosa.

A universidade hoje tem 50% de mulheres em seu corpo discente mais ainda tem o grande desafio de torna-la um espaço realmente das mulheres e para as mulheres!

Contra esses lastimáveis acontecimentos, respondemos: Somos Todas Feministas!

União Nacional dos Estudantes

Diretoria de Mulheres da UNE

Comments

  1. Maria Júlia says:

    Camila, muitos calouros acabam não dizendo não a várias atividades de “integração” porque serão mal-vistos, e isso não é diferente com as mulheres. Em várias universidades há vários trotes violentos, e a cada ano, os calouros participam, e em muito é porque, se não o fizerem, serão estigmatizados como os/as chatos/as, caretas, que não quiseram participar da “brincadeira”. Então sim, muitas mulheres sentem vergonha de NÃO participar dessa violência, inclusive porque podem ser hostilizadas se não quiserem participar.

    • Maria, gostei de seu comentário e vou mais além: o trote em nossa cultura funciona como um Ritual de Passagem que simboliza para a maioria dos estudantes que conseguem entrar numa Universidade, a entrada para o “mundo adulto”. Ou seja, há uma grande pressão psicológica aliada à um sentimento de “perda” quando o individuo se nega a participar dessa brincadeira. O trote representa uma fase única na vida da pessoa que ela mesmo percebe que não pode ser meramente “pulada”. É mais que uma mera integração, é um fato importante da vida universitaria.

  2. camila dias says:

    As moças sentem vergonha em NÃO participar dessa violência? Pera, não entendi, explica melhor,,,

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